2 de novembro de 2015

you are the most beautiful professor that i know

four years ago: happiness arrived for me

four years from then: fate has come again

1 de novembro de 2015

LEAN

Este conto tem o intuito de representar de que maneira eu venho tentado superar essa morte. Um bom recurso linguístico para o título é misturar duas palavras que nos denotam e chegar a uma simples palavra de duas sílabas, com sonoridade estranha por conta das vogais. Mas é esta a intenção: de um para dois.
Hoje eu tive a ideia de limpar meus móveis por dentro, tirar tudo, reavaliar o material, fazer a faxina mental, tentar me achar novamente. Depois de tantas histórias, de tantos momentos, de tantos cotidianos rotinosos, afinal de contas, onde começa eu onde começa tu, onde foi que nos perdemos, o que foi que restou de destroços de minha identidade.
É uma viagem futurense, é uma expressão neológica que pode mostrar a necessidade de olhar à frente ao menos uma vez nos últimos dias. Um futuro que, por outro lado, olha para o passado e nos vemos obrigados a retornar imediatamente para o que éramos antes de sermos a personagem em que nos tornamos: LEAN.
Propus-me, assim, a vasculhar nesse passado e projetá-lo ao futuro mais próximo por que pudesse esperar. Comecei a tirar livro por livro da estante empoeirada em um quarto triste, solitário e seriamente mal cheiroso pela nicotina. Retirei-os, aceitei um destino que eu mesmo tive de impor para minha mente se curar, para incitar mais um pouco o luto, mas dessa vez que ele fosse para meu próprio bem.
Sinto vontade de protelar um pouco mais, sinto-me não pronto para tal façanha, sinto vontade de tê-lo ainda, mas a morte foi inevitável, ele disse. Eu tive que aceitar e por isso devo iniciar logo essa procrastinativa tarefa. Conseguirei, espero, fazer minhas escolhas, refazer meus planos, achar o Leandro dentro de LEAN.
Já é hora de dormir, eu estou escrevendo este texto com intuito algum, com interlocutor não mais que eu mesmo. Flagro minha mente racionalizando “por que mesmo ainda não fiz isso?”, mas lembro-me que não fiz porque não é hora. A hora é: ser LEAN.

Augusto Leandro

1 de setembro de 2014

O poeta retorna

Retorna porque há de retornar. Porque adormeceu e esqueceu-se de como escrever. Esqueceu-se de como pensar nos sentimentos. Mas um poeta nunca morre, ele adormece e tira férias das subjetividades. Por falta de tempo. Por falta de espaço. Por falta de inspiração, mas nunca por falta de sentimentos.

Ao poeta é incumbida a função de relatar as sensações invisíveis, ele deve saber quando escrever e sobre o que escrever. Mas não deve, nunca, forçar um texto. Porque a poesia nasce da sombra, nasce do silêncio, nasce de coisas que ninguém pode mapear. A poesia tem o fim em si própria, assim como os sentimentos. Eles se gastam, são usados, são sentidos, mas sempre existem e ninguém deve compreendê-los. E, quanto mais difícil de alcançar seus significados, maior a necessidade da explicação poética.


Pelo simples fato de a vida não ter todas as respostas, o poeta escreve para dar razão ao que não tem razão. Para dar asas a uma imaginação impossível de ser fertilizada. Para traduzir as palavras que ficam, em verdade, nas entrelinhas. Assim, seu trabalho é inútil. Ninguém o entenderá, apesar de alguns tentarem. Porque o poeta nasceu do desentendido, ele nasceu do morto. Ele nasceu; assim, intransitivo. Mas nunca morre. Adormece. E, repentinamente, resolve escrever.

João Hernesto

2 de janeiro de 2013

Amaro


Este escrito tem propósito nenhum. Talvez tenha, mas ainda não posso afirmar com plena segurança qual seja. Preciso escrever. Já faz um tempo que não escrevo nada, um tempo que não me deixo as mãos percorrerem meu teclado e só dizerem por mim. Seja alguma história ficcional, seja baseada em minha realidade, pretendo matar a saudade de escrever. É por isso que preciso aqui tratar de um assunto topical: a lembrança.
Estive na casa de meus parentes nessas férias e me peguei a ver cartas e fotos antigas. Da época em que nem sequer era nascido. Li uma carta de minha mãe endereçada à minha avó dizendo estar viajando e que o Leandro se mexia muito na barriga. Aquilo me satisfez e insatisfez. Não sei se poderei explicar-me, mas agora tentarei. De alguma forma, estar no casulo de minha família me fez lembrar estar no casulo da barriga de minha mãe. Obviamente não tenho memória alguma desse fato, mas posso imaginar o conforto que era lá dentro. Creio que não seja uma ideia só minha, mas o que senti, e – talvez melhor aplicado – como o senti, foi extasiante.
Voltando às cartas, encontrei um poema que havia escrito para minha avó quando tinha provavelmente 12 anos. Não costumo gostar muito do que escrevia em minha adolescência, mas aquele poema é muito bom! Na verdade, isso pode mesmo parecer um ato de Narciso, mas eu realmente sabia compor poemas muito melhor do que agora. Quer dizer, na última vez que compus um poema, eu simplesmente quis-me enfiar num buraco e não sair mais, ainda que não o tenha liberado a público. Fato é: acho que me orgulhei de ter escrito aquele poema.
Hoje comecei a ler pela primeira vez Memórias Póstumas de Brás Cubas. Confesso que as condições exteriores à leitura, misturado ao fato de estar muito cansado, não me possibilitaram prender a mente na leitura. Minha mente foi longe naquilo. Muito longe. Comecei a imaginar como deve ser a passagem dos mundos. Será que eu poderei ver quem compareceu ao meu enterro, ou quem chorou mais por minha falência? Isso me deixou um pouco intrigado. Mas o que me embarcou mesmo foi a possibilidade de me lembrar do que fiz em vida. Isso seria magnífico!
Mas isso me faz lembrar que o assunto deste texto é completamente vago. Não há o que dizer. Não há uma vida inteira para observar de longe e avaliar meus erros e acertos. Há uma mente conturbada por vezes. Há uma mente que observa muito mais o que pretende observar do que o que é necessário ser constatado. Bem, não sei exatamente o que quero dizer com isso. Infelizmente não o sei. Sei que poderei reler isso e tentar absorver o que sentia quando escrevia. Porque o maior presente que se pode receber é o futuro. O futuro de poder olhar para o passado e entender um pouco melhor o que se passava. Por outro lado, o futuro de olhar para trás – gosto dessa metáfora – e lamentar as lembranças que nosso coração faz questão de guardar. Amargamente.
Leandro Augusto.
Post-Scriptum: Pelo que pesquisei, o título Amaro, que me veio repentinamente à tona, refere-se a um licor italiano de gosto amargo tomado após refeições para a digestão. O futuro olhando o passado.

20 de setembro de 2012

A Ciência e a Metáfora


Os membros doíam. A cabeça dançava ao ritmo do caos interno. O cérebro impedia de ver. O cérebro impedia a passagem das coisas positivas.
                Há um tempo descobri que os polos existiam. Na verdade, creio sempre ter sabido desse conceito. Entretanto só pude assimilar a ideia, de fato, há pouco mais de dois anos. A humanidade está condenada a viver na polaridade, condenada a ser maniqueísta. O maniqueísmo nasce no momento em que o homem nasce. Meu maniqueísmo nasceu antes de eu nascer, creio eu. É intrínseco à minha existência. Meus polos não variam entre um meio. Meus polos não possuem linhas de progressão. Atingem cumes inesperados, em momentos curtos, porém intensos.
                A visão tornava-se mais opaca a cada palavra escrita. As palavras saíam como impulsos involuntários de um corpo não controlado. As palavras travavam como um coração que morre por alguns milésimos de segundo a cada intervalo de batida.
                Meu metafísico se abalou de vez e eu nem sequer pude perceber tal mudança. Quando dei por minha consciência, já não mais a tinha. E os impulsos só saíam de meus dedos. E eu escrevia feito louco. E eu escrevia sem medir significados. Significados nulos presentes em palavras cheias de sentidos ambíguos, sentidos contraditórios, sentidos por mim em cada letra. Este texto não passa de uma ideia totalmente aleatória, sem sentido algum. Possui, no entanto, signos postos lado a lado como eu possuo lado a lado minha polaridade dual.
                Esta é a minha própria ideia de dicotomia: ou é ou não é.

Antônio Gomes.

22 de agosto de 2012

À Espera


Acordou e tomou nota mental de seu sonho. Sonhou que havia falhado, apesar de tal sentimento nunca ter estado em sua mente. Foram anos e anos de tentativas aparentemente corretas e certeiras. Até que um simples sonho teria mudado tudo. Suas pálpebras cansavam o sono desagradável, mas já era hora de acordar. Hora de viver sua vida de aposentado. Hora de viver sua vida de vizinho chato que não tem o que fazer e somente observa a vizinhança. Escovou os dentes e levantou-se. Preparou o café e observou a rua silenciosamente.
                As mesmas pessoas passavam por ali. Os vizinhos indo trabalhar, as vizinhas indo à feira. Os outros idosos diziam olá e desciam para uma caminhada matinal. O cheiro de almoço começava a surgir. Seu estômago pedia comida. Foi até a cozinha e preparou um café. Decidiu não almoçar. Voltou para sua cadeira e adormeceu.
                Sua falecida mulher o chamava para o almoço. Sentava-se à mesa e comia de maneira monótona. Ela comia de maneira ligeira. Os dois lançavam uns olhares rápidos um para o outro. Ela dizia: vou morrer, você sabe. Ele não respondia. Talvez por ser mais velho, pensava que não estaria vivo para que isso acontecesse. Ela pegou seu prato e começou a lavar a louça. Ele deixava a louça na pia e voltava para sua cadeira até que a preguiça chegasse e fosse a hora da soneca vespertina.
                Acordou e viu que seu sonho se repetira. A mesma rotina de quando sua esposa ainda vivia. O mesmo poder sob ela que exercia. O mesmo sentimento de falha que lhe apossara. Não sentia-se desconfortável, mas sentia que sua mente deveria estar travada no tempo e que isso não era muito comum. Talvez era chegada sua hora também. Mas não era, para sua infelicidade. Deitou-se na cama às 15 horas de uma tarde chuvosa. Fechou os olhos e preparou-se para, enfim, morrer. Mas isso não aconteceu. Nem sequer uma sonequinha foi dada. E aí, seu pesadelo começou a tornar-se real.
                Abriu os olhos e Arminda o observava tentar dormir. Que faz aqui, mulher? Não faço nada, não pude dormir porque estou ansiosa com sua entrevista amanhã. Sua pele era jovem novamente. Seus cabelos eram um castanho escuro e denso, tinha fios grossos e longos. Não havia em seu rosto linhas de expressão e suas únicas rugas eram ao redor da boca, pelas longas gargalhadas que costumavam dar ao comentar da vizinhança. Sua barriga esperava sua primeira filha. Era grande e redonda, como deveria ser. Suas costas um pouco arqueadas e suas pernas escancaradas pela dificuldade de carregar a vida de sua filha.
                Tomara que tudo dê certo! Eu espero que este seja o emprego em que você vai se aposentar. E foi. Era uma fábrica de artigos de padaria. Ele trabalharia como vigia pela noite, começando às 20 h. e indo até 7 h. Ela o aprontaria a marmita e o café da manhã assim que chegasse. Seu café era bastante íntimo. Era bastante doce e ralo. Ele sempre preferiu mais forte, para misturar com leite. Mas o que a Arminda fazia tinha gosto de amor e fidelidade. Tinha gosto de permanência. Tinha gosto de Arminda pela manhã.
                Ele se via com os mesmos pensamentos daquela tarde ensolarada. Pedia a Deus que seu emprego saísse, que sua filha fosse forte e saudável, que aquele café continuasse sempre fraquinho e docinho. A casa precisava de alguns reparos e eles pensavam em mudar-se. Mas, para isso, seu emprego teria de dar certo, sua filha teria de ser forte e saudável. Mas principalmente, o café deveria continuar fraquinho e docinho.
                Ela lhe deu um beijo acalentado de quem dá todo o suporte que um homem precisa. Ele não sabia manifestar seus sentimentos, então só recebia.
                Na manhã seguinte, foi à tal entrevista e conseguiu a vaga. No primeiro dia, a marmita havia sido arroz, feijão, frango e macarrão. Quando colocou a bolsa nas costas, viu que estava mais pesada do que imaginara. A Arminda havia posto uma blusa de frio mais grossa e um par de luvas negras e novas, que havia sido comprado para aquela ocasião. A garrafa de café, que era a única da casa, estava lá dentro e havia o suficiente para senti-la durante toda a noite. A felicidade que sentiu foi quase incontrolável, mas não o bastante para se conter quando ela perguntou se havia notado a presença dos itens e ele respondeu que sim, sem muita expressão nem entusiasmo.
                Abriu os olhos e se viu deitado a chorar a ausência da Arminda. Lembrou-se que seus dois filhos nasceram fortes e muito saudáveis. Lembrou-se que hoje seguiam suas vidas em outras cidades e que recusou os convites quando lhe propuseram a morar com um deles. Lembrou-se das constantes mudanças de casa, que cansavam a todos na família. Lembrou-se do café, que continuou a ser fraquinho e docinho, mesmo que nem uma palavra tivesse sido expressa como agradecimento durante toda sua vida conjugal.
                Fechou os olhos e desejou que a Arminda voltasse mais uma vez. Ouviu que ela se levantava da cama no outro quarto. Era por volta de 15 h. numa tarde fria e ensolarada. Ouviu algum barulho e sentiu raiva do que ouvia da cozinha. Arminda já era velha de novo, não conseguia mais prever seus movimentos. Procurava insistentemente o bule para o café. Ouviu cada passo que a Arminda dava. Ouviu que ela pegou o bule, pegou o filtro, pegou o pote com café e despejou no filtro. Permanecia de olhos fechados e fingia dormir para não ter que ajudá-la. O cheirinho do café de Arminda passava pelos cômodos. Ele abriu os olhos e quis sorrir, mas sentia muita raiva da barulheira. Pra quê tanto barulho, Arminda? Desculpa, Lu, respondeu-lhe a voz tremida e rouca de velha.
                Quando começou a levantar-se, pegar os óculos e colocar o chinelo, ouviu um barulho forte, como se um boi tivesse caído no chão da cozinha. Na mesma hora, o barulho da garrafa de café e do líquido desmantelando-se no chão. Mas já tá caindo de novo, Arminda? Olha o que sua filha disse, que tem que ser mais cuidadosa. Enquanto levanta-se com raiva de seu comportamento estabanado de velha, sentia dó do café desperdiçado e da velha que teria que limpar tudo e fazer mais um enquanto ele esperava em sua cadeirinha na frente da casa. Quando chegou até a cozinha, viu Arminda estirada no chão, o café manchando sua saia bege. Sentiu o gosto da Arminda despejado no chão. Sentiu que seu café e seu cuidado teriam, a partir daquele momento, acabado. Tentou chorar, mas não conseguiu. Ligou para seus filhos e disse que a Arminda havia morrido. No enterro, todos lamentavam a morte de um anjo. Ele lamentava que não sentiria mais o cheiro, o barulho, o gosto do café da Arminda. Todos derramavam lágrimas sobre seu caixão e ele derramava lamentos de solidão inútil.
                Quando viu-se de volta à realidade, temeu abrir os olhos. Pensou que teria finalmente sido levado desse mundo. Não fez nada por um tempo. Depois de alguns minutos, ouviu alguém levantando-se da cama no outro quarto. Ouviu barulho de café sendo preparado. Seus olhos fechados. Algumas panelas caíam e lhe impediam de continuar dormindo. O cheiro e o gosto fraquinho e docinho lhe preenchiam a boca e o nariz. Sabia que estava pronto para se reencontrar com ela. Abriu os olhos e viu seu quarto escuro e um pouco molhado pela chuva que entrara pela janela aberta. O cheiro lhe invadia cada segundo mais. Seu coração palpitava e crescia a intensidade dos batimentos a cada novo passo. Sem querer, viu-se no espelho e seus olhos estavam lacrimejados. Sabia que, também havia morrido. Lambeu a boca e sentiu o gostinho azedo de lágrima que nunca mais sentira desde que havia caído quando criança. Preparou-se para tomar seu café e dizer as palavras que nunca disse. Arminda!, gritou. Cheguei! Na cozinha, nada novo. Só a garrafa de café em cima da mesa, como se ela tivesse preparado e ido para a cadeirinha esperá-lo. Despejou o café no copo e sentiu um gosto inesperado: gosto do café que preparou para o almoço.
                Seu rosto parou de derramar as lágrimas, que não traziam a Arminda de volta. Caminhou rumo à sua cadeirinha e esboçou: sinto sua falta. Os vizinhos voltavam do trabalho. As crianças gritavam e aquilo o incomodava. Os velhos o cumprimentavam. Ele chorava por dentro mais uma última vez. Depois de 3 anos, veio a falecer.
João Hernesto.

18 de maio de 2012

Avenida Francisco Glicério

“S.W. (isto é, Samuel Wainer) disse pra mim: ‘Escreve o que você quiser’. E eu disse: ‘Está bem’. Eis aí o que escrevo.” Jorge Mautner.
 Naquela avenida lotada de pessoas eu passei. Passeei por entre as almas desaventuradas e desnorteadas. Passeei por entre almas perdidas e por entre sorrisos de bom dia casuais e forçados. Forçadamente, finge-me invisível, só para ver se ainda poderia sentir o que das pessoas poderia desprender.
A pequena garota procurava sua mãe, que estava a alguns metros. Perguntava para estranhos, apesar de saber que não podia confiar nos estranhos que passavam pela Avenida Francisco Glicério. Aquela cidade era muito grande para encontrá-la e muito pequena para o medo em si posto. Procurava e confiava nos estranhos. Os estranhos estranhavam-na.
O mendigo olhava como quem implora por um pedaço de lanche que o moço de terno marrom claro deglutia. Sua boca se enchia de saliva faminta. Seus olhos brilhavam de lágrimas solitárias. Seu coração sangrava até que uma moeda fosse colocada em sua boina no asfalto da Avenida Francisco Glicério.
Havia duas freiras em frente ao Mc. Donald’s. Elas contavam suas moedinhas roubadas de suas economias para saciar sua sede com um sorvete tirado da máquina. Era um dia quente e, apesar de suas roupas não serem negras ou escuras, sentiam calor com tantos panos cobrindo suas peles brancas. O cheiro de sabonete barato sendo barrado pelo tecido grosso que cobria suas peles brancas. O branco do sol arrancando o frio que o outono deveria propor naquele horário do dia.
A secretária corria e deixava papéis importantes caírem naquele chão daquela Avenida Francisco Glicério. Seu chefe lhe pedira uma série de cópias logo que chegara no serviço, atrasada pela terceira vez naquela semana. Tremia só de pensar em ser demitida e ter que procurar um outro emprego para sustentar o marido desempregado e o filho de dois anos e meio.
Eu só observava. Talvez porque queria saber se ainda era hábil a ver o mundo dos sentimentos sombrios dentro de pessoas quentes em dias quentes de outono. Talvez porque conseguia facilmente reconhecer um presente, um passado e um futuro quase claro em pessoas comuns. Quando, entretanto, tentava reconhecer em mim os sentimentos que tomavam conta de meu corpo naquele sol de outono, suspenso na Avenida Francisco Glicério, não conseguia ver grandes coisas. Via, sim, um coração medroso. Sentia medo de a menina não achar a mãe, de o mendigo não conseguir moedas o bastante para matar-lhe a fome, de as freiras não conseguirem saciar sua sede, de a secretária ser despedida. Sentia medo de não reconhecer nas pessoas seus medos. Sentia medo de não encontrar em mim o futuro, já que o passado aparecia de relance e o presente sequer existia. Sentia medo que não achasse em mim a resposta para a equação. Sentia medo de não achar a incógnita de minha vida. De qualquer forma, nunca fui lá muito bom em matemática. Se, ao menos, constatar que não sei de nada, que tenho medo de não encontrar o valor de x, dou-me por satisfeito.
Leandro Augusto.

20 de abril de 2012

A Bomba

Enquanto caminhava pelo corredor escuro e molhado de gotículas de sangue despejadas ao acaso, eu sentia que minhas vértebras escorriam por meu corpo. Percebia cada novo movimento que as paredes faziam, cada novo aperto que comprometiam meu coração cansado de procurar. Procurava eu uma bomba, sabe-se lá onde estaria. Não era uma bomba qualquer, era a bomba que causaria alívio a uma busca necessária. Acabava de passar pelo 203. O barulho era de relógio, não de bomba. O sangue de sua porta não parecia tão novo, o que me fez presumir que alguém o havia derramado há tempos. Mas o barulho, ele não era de bomba, não passava de um relógio atrasado alguns anos e meio. Prossegui a caminhada buscando e ouvindo o som da bomba que me calaria os gritos cerebrais. No 226 não havia porta. Havia uma mulher chorando a morte de sua filha. A filha, nos braços, estava com a cabeça coberta de sangue. Em uma das mãos da mulher, a filha. Em outra das mãos da mulher, os cabelos da filha cortados com destreza, como que um bife cortado bem fininho. A mulher perguntava o que eu procurava. Eu não respondia, não havia tempo. A bomba já estava armada, precisava estar em sua presença para que ela desarmasse meu coração. O quarto de número 303 escondia um segredo que não podia ser revelado. Soube disso pelos barulhos secretos que o sangue fazia ao pingar no chão. Imaginei rapidamente que alguém fora pendurado no teto e seu sangue caía porque seu corpo fora meticulosamente virado ao contrário. Não pude me agarrar a esses pensamentos, pois meu coração acelerava a cada novo milímetro que as paredes juntavam. O corredor era escuro e havia sangue. A cada nova batida de meu coração, um novo batuque de um novo coração. A cada novo passo, o batuque perpassava o meu, formando a batida de dois coração prontos para explodir. E a bomba contava sua regressão e eu contava minha progressão naquele corredor. Quando cheguei, finalmente, a meu destino, não pude definir o número do quarto. Havia muito barulho e meu peito apertava. As paredes já tocavam meus dois lados. Ainda que não fosse aquela a bomba, meu corpo não encolheria junto às paredes. Era aquela a escolha a ser feita. A bomba contava e meu coração batia. A bomba explodia meu coração a cada nova contagem. Eu contava três segundos para abrir a porta. Girei a maçaneta de maneira mecânica. A maçaneta girava ao contrário de meu movimento, como que por rebeldia. A porta se abriu, como era de se esperar. O quarto era escuro, mas claro o bastante para que enxergasse seu corpo estirado sobre um colchão velho. Havia ratos por todo o lado. Não havia sangue, mas havia murmúrios meus. Lágrimas escorriam meu rosto de maneira inexplicável. O corpo era quente como não pensei que seria. A bomba contava regressivamente. O coração apontava a mesma direção do meu. Como um pirata que acha seu xis, eu achei minha bomba. Sentei-me, abri a camisa para ver minha bomba. O colo largo apontava para o coração. Abri o peito e encontrei os cinco segundos restantes. Contei 5, 4, 3, 2, fechei os olhos. Seus olhos se abriram e riram minhas lágrimas. A bomba não havia explodido. Não dessa vez. Eu não havia calado meus gritos cerebrais. Não dessa vez. Os murmúrios não calavam mais. Nunca mais. Eu achei minha bomba. É só uma questão de tempo até que me exploda o corpo. Capadócio.

4 de março de 2012

Equilíbrio

Precisava me concentrar em meus passos e movimentos. Aquela janela, apesar de estar a algo mais que um metro do chão, poderia me causar uma caída gigantesca. Procuro enfiar minha perna direita por dentro do braço esquerdo, que se apoiava no berço da janela. O cigarro preso com os lábios. O isqueiro preso nos dedos da mão direita do braço direito. Preciso sentar-me e acender o cigarro.
Depois de alguns movimentos mais perspicazes, consigo, enfim, adaptar-me àquela superfície de madeira, pequena demais para abraçar-me o bumbum, grande demais para agüentar o vazio que saía de dentro. O isqueiro produz uma luz que parecia queimar mais que o normal. A fumaça parecia entrar menos que o esperado. Eu me balançava para equilibrar o corpo na janela. A janela se movimenta e eu quase tombava.
O silêncio havia se instaurado há uns minutos silenciosos. Enquanto me concentrava nos pensamentos, que não pareciam passar de inícios – sem meio, sem fim –, ele embarcava no que prefiro constatar como caos mental. O cigarro nos separava. A fumaça neblinava o cômodo, como tinha de ser. O silêncio conturbava. O cigarro separava. Nós calávamo-nos.
A insegurança começava a tomar proporções escandalosas em nossos peitos. Você vai se cansar em pouco tempo, digo. Não vou me cansar, diz. Vamos nos perder. Estamos perdidos. Mas tudo vai passar, nós vamos lutar porque nos amamos de verdade. Não posso dizer com toda certeza de quem saíram aquelas palavras, sei que elas fizeram parte da conversa.
E foi assim que este trecho começou e não terminou. E é assim que as coisas caminham, sem caminhar. A janela se movimentava, ainda. Como se não houvesse fim. Como se não houvesse equilíbrio.
Adélia.

16 de fevereiro de 2012

Nanquim

Ele costumava emitir alguns sons enquanto coloria seus desenhos, que achava serem obras primas. Ele se dizia artista de talento não-reconhecido, apesar de todos sabermos que não passava de uma brincadeira de quem faz arte só por diversão. Os barulhos vinham da garganta e pareciam com gatos enquanto ronronam. Ele costumava pintar as unhas com a caneta de ponta grossa quando suas obras o chateavam. Vez e quando, as pessoas o pegavam olhando para a parede vazia com a mão esquerda toda preta de nanquim. E as unhas nada vazias. E a mente cheia.
Foi mais ou menos assim: estava em um parque de diversões quando foi abordado por um total estranho. Você não pode entrar aí, disse o estranho. A voz era bastante pateta, assim, como quando se quer imitar uma voz pateta e a voz acaba por sair pateta. Foi duro nas palavras. De alguma forma, as palavras lhe doeram muito, apesar de terem sido proferidas por um total estranho. Obedeceu e saiu de onde estava. Perguntava-se a razão pela qual aquele parque tão grande, tão perfeito, tão finalizado tinha uma área totalmente em construção. Bem no cantinho era essa área. Pensou haver algum tipo de perigo e não se movimentou para frente. Deu a volta e voltou a procurar sua família.
Depois de dar mais algumas voltas, depois de se perder e se achar, depois de persistir em não encontrar ninguém conhecido, resolveu parar para descansar. O que não havia reparado era que estava exatamente no local aonde não poderia estar, exatamente no local aonde fora proibido de sequer se aproximar. Mesmo assim, sentou-se por ver-se totalmente sozinho. Tentou lembra-se da roupa que seu grupo usava, ao menos as cores. Talvez isso o pudesse ajudar a selecionar para quem olhar naquela multidão contida no parque lotado de estranhos. Tentou lembrar-se e parou um pouco, fixando o olhar num ponto obscuro, num buraco no chão, num elevador inacabado.
Naquele momento, sabia que tinha pouco tempo até que o sol parasse de ensolarar aquela região. Pensou que deveria ser rápido e sua memória deveria ser rápida e rápido deveria ser o processo de achar o caminho. Por outro lado, precisava mesmo ver o que tinha no tal buraco. Olhava para o buraco como quem podia enxergar lá no fundo. Algumas madeiras dependuradas e alguns pregos formando, ao léu, algo como uma armadilha para seus pés curiosos. Lembrou-se da roupa.
O estranho usava um chapéu de cowboy, umas botas de cowboy e um cinto social. Os jeans eram mais claros e a camisa tinha um xadrez bem sutil, com cores claras e um marrom mais claro para escurecer esta frase. Vestia um cinto de couro largo e espesso, assim como cintos de couro. Parecia haver lábios abaixo do bigode grande e o bigode parecia ter sido cultivado por anos e anos. Ainda assim, precisava se lembrar da roupa de seus familiares, mas não conseguia.
No dia seguinte já não estava mais no parque e nem sequer se lembrava como o haviam levado de lá. Sabia, entretanto que suas memórias daquele horrível dia deveriam ser lembradas em seus desenhos feitos com nanquim. A psicóloga o observava com atenção, como quem quer analisar os traços tortos e mal feitos. O nanquim lhe borrava a mãe direita. O nanquim borrava o desenho, mas ele não conseguia sequer notá-lo. A psicóloga não emitia som algum. A psicóloga analisava e o nanquim escorria. O nanquim emitia sons parecidos com os de um tambor mexicano.
Ela disse que estava tudo bem, que ele estava em casa. Ele se sentiu à vontade, apesar de não a ter ouvido. Ele se concentrava naquele desenho torto. Ronronava e traçava traços do estranho mexicano. Depois de algum tempo que não soube exatamente quanto, pôde ouvir em meio a seus próprios múrmuros cochichos alheios. Soube não estar mais só, soube não estar na presença da psicóloga e seu desenho, somente. Sentiu medo de levantar a cabeça do desenho. Ainda assim, levantou-a. O desenho que tentava com muito esforço retratar se encontrava personificado ao lado da psicóloga sentada. Ela o ouvia cochichar em seu ouvido e dedurá-lo a audácia do dia anterior – e ele nem sequer sabia se era mesmo ontem o dia em que aconteceu tudo aquilo.
Não pôde segurar a vontade de fugir, de sair correndo daquela sala que o possuía, agora. Não pôde conter a vontade de gritar pela rua e balançar os membros num movimento assustado. Correu para casa. Torceu lembrar-se do caminho, mas sua casa parecia mais perto do que imaginava. Era como se as coisas tivessem todas mudado de lugar e elas quisessem parecer-lhe mais complicadas que de costume. Observou pessoas de nanquim passando com seus pés de nanquim. Observou pés de nanquim se arrastando pelas ruas e correndo de seus medos. Fugindo dos consultórios e dos mexicanos. Apertou o passo até chegar a casa.
Ao mirar a esquina de sua casa, percebeu haver uma esquina a mais do que de costume, mas não deu muita importância a isso, já que deveria chegar em casa e estava acostumado a ter sempre surpresas pelos caminhos de infância. Um estranho feito de sombra preta feito nanquim o abordou pedindo um cigarro. Não fumo, respondeu grosseiramente. Apertou o passo para fugir da sombra deixada pelo nanquim mexicano de suas mãos. Ao chegar à porta de casa, percebeu estar sendo seguido pelo homem feito de sombra, que, dessa vez, apresentava olhos brancos em volta e vermelhos ao centro. Um brilho de ensurdecer o tomava conta ao observar os olhos e a boca traçada de nanquim lhe pedindo fervorosamente o cigarro não dado.
Não tenho cigarros e não fumo, com licença. A mim não há problemas esperar que busque meu cigarro aí dentro, sei que o tem. Não tenho, moço, com licença.
Tentava desesperadamente fechar a porta de casa, enquanto o homem da sombra lhe segurava as mãos sujas implorando um cigarro. Dizia que não o queria machucar nem roubar nada, mesmo assim, teve medo e tentou fechar a porta. Os olhos brancos com vermelho sobressaindo do nanquim viraram para o lado, como quem chama alguém. Chamava alguém, ele sabia. Preciso fechar a porta para fugir de meus medos. E foi aí, e só aí que outros homens feitos de sombra apareceram e lhe olharam com ódio. Você nos negou, mas nós não o negamos. Chegamos para te buscar.
O desenho estava pronto. Não passava de um borrão.
Capadócio.

25 de janeiro de 2012

Retórica dos Namorados

O céu se misturando ao mar, o sol se destacando por entre as montanhas. O sussurro antes do beijo, o suspiro depois do beijo. A alegria ansiosa antes de conversar, a tristeza ansiosa antes de despedir. Hoje eu me sentei e resolvi escrever um texto doce. Hoje eu me sentei e resolvi escrever o que representas a mim. Hoje eu me sentei e escrevi este resultado que vem de dentro e se espalha em meu corpo e espírito antes mesmo que possa eu controlar. Este é mais um para ti.
Porque amar-te é mais do que querer-te por perto e ter-te por perto para proteção. Proteção do mundo lá fora. Porque amar-te é mais do que sentir aquela coceirinha que chega de leve quando tu falas que me amas. Amar-te é mais do que isso. Porque amar-te é perceber que as estrelas se alinham melhor quando meu mundo te tem. Porque amar-te é perceber a simetria que é formada nas figuras geométricas espalhadas pela cidade e vê-las totalmente perfeitas. Porque amar-te é notar que o sol pode brilhar mais forte a cada dia, a cada nascer.
Entretanto, não pretendo aqui justificar o fato de escrever este texto. Escrevo para tentar exteriorizar o que se passa aqui dentro. Escrevo puramente porque pretendo mostrar que sou a pessoa mais feliz do mundo e, é bem verdade, permaneço assim desde que te conheci. Desde que tudo principiou. Desde que reparei nos teus olhos de cão carente. Desde que reparei nos teus olhos de... Nos teus olhos de...
Creio que não me sinto totalmente pronto para expressar-me bem com relação aos olhos. Retórica dos namorados... Não, não funciona assim comigo. Talvez eu entenda que o homem não tem domínio de seu sistema linguístico o suficiente para nomear tamanha perfeição. Eu posso te desenhar por completo, aqui na minha cabecinha esquecida. Talvez eu seja mesmo um pouco bobo por pensar que um amor pode salvar o mundo todo, assim, como nas histórias em quadrinhos. Talvez eu esteja caindo em meu próprio pesadelo de achar que as coisas devem permanecer intactas, de que amores perfeitos existem, mas patologias não podem me ser colocadas. Ninguém me pode dizer que estou errado porque eu sei que, aqui dentro, terei sempre comigo esse teu sorriso de me tirar o ar, esse teu sorriso de me fazer sentar e tentar manifestar o que em mim manifestas. Esse teu sorriso que me faz perder a ordem do tamanho de meus parágrafos e a ortograifia das palavras, de tanto que me prende, de tanto que me embarca.
Não, não pretendo aqui dizer o tamanho de meu amor, não pretendo aqui discutir contigo sobre quem ama mais e tudo aquilo que fazemos em nossas deliciosas conversas intermináveis e termináveis, lamentavelmente. Não pretendo aqui buscar adjetivos ou metáforas perfeitas para ti. Meu amor por ti é sincero, mas pobre. Ele não pensa nas coisas de maneira muito grandiosa. Ele pensa nas coisas em seus sentidos mais puros e simples. Ele só te quer mais e mais. Ele só toma espaço na cabeça, no coração e na alma a cada minuto que passo com ou sem te ter a meu lado.
Ofereço-te flores e poemas toscos, mas meu coração, na verdade, pretende demonstrar os aspectos que foi moldando para caber tanto sentimento por uma só pessoa. Meu coração só te quer sempre mais, meu coração só quer poder mostrar que tu tens mais importância para minha vida anteriormente vazia do que qualquer poema ou flores podem expressar. Ele só quer um pouco de palavras novas. Um dia desses, se encontrasse as tais palavras, com plena certeza, as dedicaria a ti.
O céu se misturando ao mar, o sol se destacando por entre as montanhas. O sussurro antes do beijo, suspiro depois do beijo. A alegria ansiosa antes de conversar, a tristeza ansiosa antes de despedir. Hoje eu me sentei e tentei, em vão, expressar o quanto te quero bem. Talvez algum dia possa extrapolar um beijo terno ou um carinho feito com todo o meu coração para poder-te dizer que tu, em verdade, és tudo o que um dia desejei para mim e que, agora que estás no mundo, posso dizer-me preenchido com a felicidade que todos procuram. Eu a encontrei. Eu te encontrei.
Capadócio.

20 de janeiro de 2012

O Plano

Entrava, aqui, mais uma de suas coincidências vitais. Deus armara uma armadilha e quem cai nela deve ser ágil para sair. É como distrair o inimigo. É como se o inimigo estivesse bem mais próximo que imaginasse. Então a coincidência se instaurava. Então era hora de distanciar. Hora de imaginar as coisas sob novas perspectivas. A guerra precisava ser dominada e ela só seria dominada se houvesse um planejamento.
Você precisa de fé, acho que falta isso em você. Fé.
Num piscar de olhos a vida faz mais sentido. Aquela metáfora pobre que me havia vindo há um tempo me volta à memória. Eu precisava encontrar dentro de mim a resposta para tanta repetição. Precisava buscar em mim a resposta de todas as perguntas do mundo. Talvez eu precisasse de fé. Talvez chegasse, enfim, o momento do juízo final. E a sentença é deliberada por mim mesmo.
Pretendo aqui colocar um fim nessa história de que devo acreditar nisso e não naquilo, de que devo me portar assim e não assado. Devo, primeiramente, deixar em mim as palavras entrarem, mas elas não entram. Não facilmente. Na verdade elas vêm e vão de maneira tão rápida que não posso sequer tateá-las. Só sei que precisava escrever e não sei exatamente que título dar a este texto que nem sequer está pronto em minha mente. As palavras vão. Ficam as palavras vãs.
O inimigo se aproxima, talvez você devesse mesmo combatê-lo. Há planos?
Não havia planos. Eu o combateria e veria até aonde meus músculos me levariam. De alguma forma, sentia que não viveria muito tempo dessa forma. Preciso pensar. Por exemplo, se o exercito oponente vier com armas de fogo, precisarei de um colete à prova de balas. Mas não basta apenas me defender, eu devo atacar juntamente. E é aí que eu me perco. Tomar as rédeas desse cavalo que nunca pára de andar para que pensemos no caminho a percorrer. Nunca pára. E eu penso e nunca saio do mesmo lugar. Enquanto isso, o cavalo me movimenta o corpo aleatoriamente nos espaços espaciais.
É pouco redundante botar à prova meus sentimentos e crenças acerca de um deus. Na verdade é necessário. Eu preciso acreditar que acredito em algo. Preciso saber que há uma proteção mínima e que não dependo somente de meu planejamento e de meu colete à prova de balas. Mas o inimigo se aproxima e ele tem um canhão. E eu me arrependo de não me haver preparado para esse tipo de imprevisto. De qualquer forma, vou ao ataque, sabendo, ainda assim, que não durarei mais que dois minutos.
Mas Deus não está aqui essa noite, padre. Deus está nos céus cuidando de assuntos dos céus. Vire-se e descubra como matar seu oponente.
Dois minutos depois, não tenho estratégia, mas tenho vida ainda. De uma forma que não sei nem saberia explicar, posso dizer que me vi vencer. Como quem vê de longe, vi o maior guerreiro do campo de batalha. E eu sobrevivi. É claro que meus oponentes permanecem intactos. É claro, ainda, que há ferimentos em minha armadura feita de pele, de minha própria pele. O sangue escorre e uma lágrima se seca. Eu continuo vivo, apesar de não ter planos. Os planos agora são: um, manter-me vivo, e, dois, bolar um plano.
João Hernesto.

16 de janeiro de 2012

A Noite da Insônia e o Dia da Evacuação

É chegada a hora de evacuar o edifício. Essa noite acordei algumas vezes. Tive uma noite horrível. Não por pesadelos. Não por dores no coração. Só não consegui dormir bem. Era como se uma coceira me invadisse e eu precisasse contê-la. Era como se um pedido me fosse feito e eu não soubesse exatamente o que fazer ou por onde começar ou, ainda, qual caminho percorrer. Não por sentir calor. Não por sentir frio. Não pude dormir, nada mais. Sem patologias extras. Não por elas. Por não poder fechar os olhos tranquilamente e embarcar no mundo do sono. Não pude dormir. É chegada a hora.
O relógio marcava nada. O sol não brilhava. As pessoas na rua, de lá de baixo, não emitiam som algum. Lá de baixo elas nada enxergavam. Lá de baixo, ninguém me via. Aqui de cima era eu e as flores, que já estavam morrendo. Bem, as flores morriam mais rápido em minha casa. Morriam porque não sabiam sobreviver em meio ao meu próprio caos. Morriam porque não podiam dormir. A noite foi terrível também para as flores de meu quarto. Meu quarto gritava e pedia que o ajudassem. Ninguém o fez. Éramos eu e as flores objetos inanimados, seres mortos, natureza morta. A noite foi terrível e era chegada a hora de evacuar o edifício. Ninguém se mexeu.
No alto desse morro chamado diversas vezes de edifício, as pessoas se trancafiavam e esperavam o sono bater. Só que o sono não vinha, era petulante. Era intransigente. O sono não vinha. O blues não mais acalmava. O rock’n roll chamava para dançar. O blues chamava para chorar. O rock’n roll chamava para badernar. Ninguém se mexeu. O sono não chegara. O edifício precisava ser evacuado. Ninguém se mexeu. Não por calor. Não por frio. Por não se mexer e só isso. Por não encontrar motivos. Por não haver razões para a evacuação. Ninguém ouviu nada naquela noite. Todos lutavam contra seus próprios quartos para que calassem. Os quartos gritavam. Era chegada a hora.
Levantei-me, preparei um chá mate. Não quis fazer café e não tive coragem de largar a cafeína. Ainda assim, chegara a hora. Debrucei-me o corpo na janela e observei as pessoas passando em silêncio. A dona Maria passava com seu carrinho de compra porque era dia de feira. Silenciosa. O poeta declamava suas poesias porque era dia de palavras ao vento. Silencioso. A dama do cachorrinho passava com o cachorrinho porque era dia de cachorrinho. Silenciosos. As amigas passavam fofocando porque era dia de passar. Silenciosas. O dono do prédio gritava a evacuação porque era chegada a hora. Silencioso. Ninguém se mexeu. Todos reclamávamos a noite de sono perdida. O sono não chegava. A cafeína entrava. O quarto gritava. Eu observava.
Era dia, mas o sol não brilhava. Era uma tarde ensolarada de noite. A noite permanecia aqui. Todos do prédio a sentíamos. Não havia estrelas e também não havia nuvens. Não havia raios de sol e também não havia sol. Não havia lua e também não havia luar. Não havia eu e também não havia tu. Não havia a gramática e também não havia a língua. Não havia. Não existia. A existência tornara-se contestável, apesar de ninguém a contestar. Contestávamos, sim, o quarto e o barulho que nos causava aos tímpanos. Todos acordados. Todos com uma insônia terrível. Tive uma noite horrível. É chegada a hora de evacuar o edifício.
João Hernesto.

13 de janeiro de 2012

Leia as Notícias sobre seu Paradeiro

- Então, o que é que vai ser?
Ele lia com jeito de quem não entendeu a piada. Palavras novas, léxico avantajado para o lado esquerdo, ou teria sido o direito? As pessoas perguntavam-lhe coisas e nada ele respondia. Só estagnava a mesma pergunta. O mesmo questionamento. As mesmas ideias lhe ocorriam.
- Então, o que é que vai ser?
Enquanto tomava um gole de sua água, porque não podia tomar café nem chá e nunca gostou de refrigerante ou suco, pensou no que interpretar dessas coisas. Pensou e pensou. Decidiu que não faria absolutamente nada, como antes. Ficaria sentado desfrutando a água, que, por essas horas já estava acabando.
- Então, o que é que vai ser?
O que seria é que ele tentaria caminhar. Não quis mais levar a vida dessa forma. Decidiu-se e levantou. O mundo rodou um pouco, talvez. Ou talvez sua cabeça estivesse rodando no mesmo lugar. Não podia distinguir aonde, do caos, começava a confusão e aonde começava o caos da confusão. Sabia que vivia entre os dois. Chegara a hora de escolher qual lado seguir.
- Então, o que é que vai ser?
Foi assim como... Foi de um jeito torto. Cambaleou. Não, tropeçou e cambaleou para se levantar. Trocou as pernas de lugar com os braços e caminhou, apenas caminhou. Não caminhou, pensou ter caminhado. Quando deu por si, estava exatamente no mesmo lugar. E não se movimentou. E nada fez. E nada pensou. Assim como antigamente. Do mesmo jeito de antes. Parado. Pausado. Interrompido. Pontuado. Ponto final.
- Então, o que é que vai ser?
R
E
T
I
C
Ê
N
C
I
A
S
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Adélia.

10 de janeiro de 2012

Seis

Passei a manhã toda pensando naquilo como se tivesse sido ontem. Mas foi anteontem. Ou teria sido antes ainda? Creio que perdi a noção do tempo e que os meus dias que sucederam a isso me fizeram ter nada mais que um desligamento do real e o inventário tomou conta de mim. Você, caro leitor, deve pensar que seu protagonista tenha ficado louco, mas não ficou. Ele só tem culpa e ódio de si mesmo por não saber nem por onde iniciar sua história. Bem, tentarei agora.
Eu tinha acabado de tomar banho. Antes ainda, tinha encontrado um disco do Gardel que estava desaparecido. Coloquei para tocar e tomar banho. Quando saí do banho, o lado A já havia sido tocado, o que me fez pensar que o banho teria sido muito longo. De qualquer forma, troquei o lado do disco e me dei por satisfeito pelo relaxante banho que acabara de tomar. Fui arrumar-me com calma, pensei que não tinha porque correr se quem me esperava poderia esperar mais alguns minutos.
Enquanto me arrumava, percebi como o disco dos Beatles que estava pensando em ouvir depois tinha dois lados distintos: o primeiro deles era de um estilo mais roque, tinha uma quedinha para o início da carreira do grupo; o segundo lado começava com sítaras e batidas em tambores psicodélicos, dignos de um psicodélico de plantão. Imaginava o que se passou na cabeça deles e ri com meu pensamento tolo. Escolhi minha gravata favorita e desejei ser apropriada, apesar de sempre achá-la apropriada.
Enquanto saía de casa e trancava a porta, o vento batia para o leste e o sol brilhava para o oeste, mas isso não me chamou tanto a atenção quanto as seis linhas de cada parágrafo deste meu novo texto. Pensei se havia um propósito e disse para mim mesmo: “há tanto propósito em escrever um texto que contenha parágrafos de seis linhas quanto usar minha gravata favorita num dia especial e nos dias normais e persistir em achar que ela é especial”. E foi aí que percebi que ultrapassara uma linha das minhas seis.
Mas depois notei que não havia linha alguma ultrapassada. Ri sozinho na rua, enquanto pessoas passavam para trabalhar e crianças – que são pessoas igualmente, apesar de minha estranha construção – iam para a escola com seus pais – que se admitem como pessoas, ainda. A vizinhança de minha casa era bastante tranquila, mas somente enquanto ainda estava na minha rua. A partir do momento em que se ultrapassava a linha da próxima esquina, perdia-se a paz e o sossego. Mas eu não ultrapassei as seis aqui.
Havia comerciantes na rua e eles queriam vender alguma nova bugiganga para mim. Mas eu não queria bugiganga, queria apressar-me para pegar o próximo trem para o Braz. No trem, não há nada para contar que seja pertinente aqui colocar. Na verdade, há tanta importância em contar o que aconteceu no trem quanto usar minha gravata de todo dia numa data especial. Era uma segunda colorida e o vento se misturava às gotículas de chuva, já que no caminho de trem começara a chover e eu nem percebera.
Ainda sobre o vento, a luz, a chuva, o arco-íris que eu desejei ver, notei que o mundo estava se esvaziando por causa da chuva. Notei um carro de polícia e notei também que o trem estava mais lotado que o normal. Aquele mesmo trem que pego desde criança e que peguei ainda agora estava lotado de policiais e pessoas curiosas. Ele estava parado. Eu também estava parado. Só que, dessa vez eu estava no galpão da ferrovia e era feliz com minha xícara de café.
Seria este mais um conto fantástico? Creio que não. Ou será que sim? Afinal de contas, que problema há em contos fantásticos? O coração do homem é fantástico. A mente humana é fantástica e nos pega mentindo para a realidade. A gravata era fantástica com aquelas novas cores de tom avermelhado que adquiriu. A viagem de trem mais longa era fantástica por ser longa e ter-me mudado para sempre. Fantásticos eram os olhos dos psicopatas que olhavam suas vítimas. Fantástico era o olhar daquela gente para o corpo estirado no vagão. Mas acredito que esse último parágrafo já ficou maior do que o esperado. Bem, continuarei o processo como quem quer aumentar as linhas e fazer um número que seja múltiplo de seis. Tolo meu pensamento, mas a ideia aqui é permanecer nesse padrão, que eu acabo de quebrar. Nesse caso, um novo padrão é posto e o tradicional é questionado. Isso acontece a todo momento, sabe. Na realidade, isso me aconteceu no trem. O padrão de viver. O padrão de ter o livre arbítrio dos vivos. Mas agora estou morto e meu assassino acaba de sair como quem nada fez. Os policiais nada fizeram. Eles não fizeram nada. Só chamaram a ambulância e recolheram meu corpo. Mas eu não queria mais um corpo, agora tinha meu espírito e minha gravata vermelha de sangue. Na verdade, há tanta importância em contar o que aconteceu no trem quanto usar minha gravata de todo dia numa data especial. Só mais uma linha e um cigarro e posso desviar-me para o que aconteceu depois disso.
Bem, quando terminei meu cigarro de fantasma, percebi que deveria escrever o que me havia acontecido. E foi aí e só aí que percebi que ainda estava atrasado para meu encontro. Como não sabia o que os deuses pensavam sobre tempo e o que os fantasmas percebiam como tempo, pensei em pentear meu cabelo, limpar a mancha de sangue em meu braço e seguir meu caminho de volta para casa. Embarquei no próximo trem ao centro e me sentei no próximo assento vago.
Cheguei em casa, liguei a vitrola e ouvi o segundo lado do Sargent Peppers. Disfrutei da sítara e dos tambores. Percebi que os céus se esqueceram de me avisar da sentença, mas permaneci esperando que ela chegasse, porque tinha de chegar, sabe. Sentei-me no chão como não fazia há tempos e desejei tomar um whiskey. Coloquei muito gelo no copo e tomei whiskey com a água que derretia do gelo. Percebi que o número seis estampado naquele trem me fez escrever. E me deu mais um personagem.
Sargent Peppers.