Ideias de personagens criados para viver muitos ou poucos textos. Formas e formatos distintos, experiências ímpares. Não importa quem seja, ouviremos com mesma intensidade.
21 de março de 2010
Abstinência
Aí eu comecei a ter aquela coisa que o povo gosta de chamar de ansiedade. Mas bem depois me veio aquela angústia e aquela saudade do que se foi. Vício, os antepassados gostam de chamar. Eu chamo de hábito. Ou falta de. O fato é que a angústia não passou, mesmo depois de tanta conceitualização.
Desci no bar que costumo ir quando quero ouvir jazz. E ouvi. Curei-me (ou saciei-me) de três hábitos.
A garrafa estava com micro-pedrinhas de gelo em sua volta. Vi que seu preço tivera aumentado. Daí eu pensei, essa vai valer muitíssimo a pena. E valeu.
Acendi o cigarro que comprara. A fumaça entrava no pulmão de não-mais-fumante e pedia licença, mas o coração permitia. Ela invadia cada espaço que havia entre a boca e o pulmão. Ela entrava devagar e saía depressa porque o esôfago queimava. Queimou e saiu. Saiu dizendo, causar-te-ei câncer. Tanto quanto os raios solares, ou todo o resto de coisas que costumam fazer matar. Nesse sentido ela e essas outras coisas eram vilãs. Na verdade eu era o vilão de eu mesmo.
Depois da primeira, forte e malvada tragada, a cerveja fora servida no copo, que já formava as tais micro-pedrinhas de gelo com cor de desespero. O brinde foi dito por mim, e brindado comigo mesmo. À fonte, e que ela não seque nunca.
Num gole grande, descia pela garganta o álcool, substância que continha função anestésica às dores do coração. O gás descia lento e sutil, porém invasivo. Era possível sentir aquele gole descer gostoso até o estômago. E, bem no fundinho, eu sentia aquele amargo da cerveja. E ele era tão bom...
Depois de meia garrafa, veio a última das abstinências: o maldito do amor. E a outra maldita: a distância. E aquela vontade de que aquela cerveja e aquelas duas cigarrilhas fizessem a dor diminuir. E não é que o fez?!
Daí eu voltei para casa e escrevi um texto sem desfecho, porque a dor era forte e me fazia perder a imaginação e a inspiração. Ta aí um remédio que podiam inventar: um para a loucura minha. E não é que inventaram?!
Leandro Augusto
Jazz e jornais
- O que te atrai nesses jornais? Eu costumo ver as imagens e ler apenas o começo da parte cultural.
- Eu nem gosto de todas as áreas.
Eu fiquei sem resposta, pois o que ele havia dito não fazia sentido. Ele continuou:
- Bem, você gosta que ninguém leia o que você escreve?
- Mais ou menos...
- Eu leio tudo o que há de escrito nos jornais para que a expectativa de alguém não vá para o lixo.
Nisso eu me sentei e pedi a Heineken que ele não havia pedido.
- O que te seduziu o bastante a ponto de não chegar na hora?
- É assim que você questiona meu atraso de meia hora?
Ele não disse nada.
- Gosto da sua sutileza.
- Os jornais são bem interessantes, sempre acrescentam algo em meu conhecimento. E esse, especificamente, traz um artigo sobre Mariana. Diz o quanto essa cidade é importante culturalmente nos dias de hoje e trouxe riqueza na época da mineração do ouro.
- Acho que eles esqueceram de dizer como é charmosa.
- Mencionam, não com essas palavras.
Ele pediu dois cigarros que adora fumar naquele bar, que traz uma decoração colonial e alguns jornais para os solitários. O som ao fundo era de jazz. Perfeito para uma pacata noite de Domingo.
- Estive aqui ontem, com meus amigos. E é interessante observar como esse bar muda o ambiente de acordo com a companhia.
- Faz um tempo que não venho aqui.
Silêncio constrangedor.
- Sabia que meu aniversário está chegando?
- Como posso me esquecer?
- É mesmo, você sempre guarda as datas.
- E como vai o seu preparo para a vigésima década de sua vida?
- Normal, sei lá. É mais um ano de minha vida. Esse é o jeito como eu divido minhas fases.
- Mas eu diria que é mais um ano de uma mesma fase, certo?
- Sim. E eu estive pensando... Quando será que foi a última vez que morri?
- Você já morreu?
- Algumas vezes, é assim que divido as fases de minha vida.
- É a sua vida, a sua metáfora. Mas acho que a pergunta mais exata seria quando será que vai ser sua próxima morte, ou então o que precisará acontecer para a sua próxima morte.
- Pois é... Essa minha fase está bem ligada ao misticismo e à filosofia. Antes eu dividia em fatos a minha vida, acho que agora eu divido em conhecimento.
- Conhecimento? É uma boa escolha. Mas o que você tem estudado?
- Então, comecei a abrir meus poros para a Natureza e sua divindade disfarçada. Depois passei a estudar a história da filosofia, isso foi nessas férias.
- Isso parece um pouco paradoxal.
- Por que?!
- Só porque os filósofos não suportam ver sua imagem refletida no plano esotérico, apesar de ser um pouco filosofal esse último.
- É assim que penso. Mas o que me levou a atrasar hoje foi a busca pelo conhecimento. Estava procurando mais sobre o Xamanismo.
- Desculpado.
O silêncio se estabeleceu entre nós.
- Você já reparou como os jovens são diferentes de você?
- Talvez eu busque ser diferente deles.
- Só de olhar pela janela deste bar, podemos vê-los gritando e azarando suas garotas com o plano de fundo de duas igrejas barrocas.
- Isso é bem esquisito. E eles não aparentam buscar conhecimento.
- Você não pode julgá-los por um ato, apenas. Eles estão num momento de descontração; você mesmo saiu ontem com seus amigos e deve ter aparentado essa mesma percepção de velhos, como nós.
- E eu também tenho meus momentos de vazio, momentos em que me esqueço da pesquisa e só quero saber de gandaiar.
João riu.
- Essa palavra, sim, é bem esquisita.
Nós rimos mais um pouco. Depois comentamos a moça de costas de fora e a marca de lingerie. Falamos mais sobre morrer, mas dessa vez falamos sobre como nossas fases são introduzidas nas outras, sem nem percebermos. Falamos sobre o jazz que tocava no fundo e sobre os funcionários do bar. Até que ele trouxe à tona um assunto mais sério e, de novo, constrangedor:
- Não entendo por quê você reserva nosso encontros em momentos ébrios seus.
- É mesmo?! Nunca reparei nisso. Desculpe. Deve ser porque são nesses momentos que eu me encontro comigo mesmo, quer dizer, com você.
- Você está muito bem vestido hoje. Esse cavanhaque te deu um ar mais velho e sofisticado.
- Obrigado.
- Depois pagamos a conta e esticamos papo com o dono do bar. Elogiamos, bêbados, seu estabelecimento.
Depois de nos despedirmos, pensei que talvez ele tivesse razão. E talvez eu tivesse tirado férias, também, dele na minha vida. Precisava encontrar um jeito de remediar isso, ou pelo menos deixá-lo mais feliz.
Pensei, também, que eu deveria começar a comprar o jornal nos dias de Domingo.
João Augusto
Não quero parecer desesperado
Eu te pendurei na minha parede para te ler e te ter sempre que eu puder. Eu li as letras de músicas e poemas que me mandou. Li suas cartas e isso me fez chorar, por exatos 60 segundos. Eu morri em um minuto. Depois levantei a cabeça e pensei como seria se eu conseguisse me apaixonar por outro alguém esse tanto que me sinto com você.
Eu te ergui ao mais alto patamar dos namorados que já tive, eu chego mesmo a acreditar em amor para a vida toda com você. Cada regra que eu quebrei para estar com você, cada aspecto e hábito que mudei sem pestanejar não deve ter sido válido. E hoje eu choro o que um dia fiz alguém chorar. Hoje você me vem com indecisões e crises que um dia eu tive e levei para quem eu não devia.
Tem umas duas horas que eu me culpei por isso tudo. Eu e minha boca grande. Para que discutir religião. Para que falar sobre hipocrisia. Ao mesmo tempo não me tiro a razão, de forma alguma. Não consigo segurar, e nem devo. Você é mesmo hipócrita, acredita em coisas que vão contra os seus atos. Você realmente me lembra a mim com dezesseis.
Não sei se foi realmente isso mesmo que te deixou assim.
Eu queria muito me ajoelhar e dizer, não pensa, só fica comigo. Queria dizer, não me deixe.
“Não me deixeEu inventareiPalavras sem sentidoQue tu compreenderásEu te falareiSobre os amantesQue viram duplamenteSeus corações incendiarem-seEu te contareiA história deste reiMorto por não poderTe reencontrarNão me deixe”
Te amo.
Leandro Augusto
II
E conforme eu andava, corria para encontrar a razão pela qual aquele homem chorava atrás das moitas de aquela montanha, mais ouvia o barulho dos tambores de forma audaciosa. E era como se eles me chamassem, sendo as súplicas de um ser coitado no mundo, um ser que sofre por não ser querido aonde quer que vá.
Eu, primeiro, avistei esse homem deitado com a cabeça virada para o abismo que aquela paisagem continha. E o abismo era tão grande, que eu podia ver o moço do tamanho de uma formiga lá de baixo. O corpo estava apoiado no chão de cima. E as moitas escondiam parte da cena do crime. Os tambores tocavam tunc bats pift. O tambores diziam “socorro”.
À medida que corria, eu conseguia ver aquele jovem trajando uma jeans suja. Ele parou de chorar por um momento e fixou olhar em um ponto em a sua frente. Assim que virei o rosto avistei um rochedo que desenhavam perfeitamente uma imagem que me botava medo: um rosto masculino. Este rosto mostrava um nariz grande e quebrado, olhos fechados, lábios grandes e carnudos, um queixo reto e angular. Acima daquela cabeça, cabelos cacheados que pareciam dançar com o vento que batia contra as rochas. Entre os cabelos, havia dois pedaços de rocha larga em forma de cone. Eles situavam-se um em cada lado da cabeça, como dois chifres. A expressão do homem era forte, e me amedrontava.
O coral cantou, interrompendo, assim, os tambores que tocavam. O ar cheirava a capim molhado misturado a alecrim fresco.
Andei mais um pouquinho e podia ver, ao lado de aquele jovem de jeans suja, uma fogueira que aumentava. A fogueira dizia algo para ele, mas eu não conseguia ouvir o que era. Os violinos tocavam tão alto quanto o coral gritava.
Quando me virei para ver o que o rochedo mostrava, ouço um barulho vindo de um lugar próximo a o que me encontrava. O homem não estava mais lá em cima. E a primeira coisa que me vem à cabeça é a de procurar por seu corpo estirado em o chão próximo. E eu quase sentia cheiro de sangue jovem.
2.
Era passada a segunda hora do início do ritual. E eu ouvia os tambores que vinham do centro da terra cantarem o milagre da natureza. A fogueira ao meu lado crescia, e eu sentia só pelo calor que quase encostava minhas pernas.
Meu olhar era de um mundo ao contrário. Olhava acima de minha cabeça e via um outro chão que não era o que apoiava meu corpo. E aquele chão me chamava, dizendo tunc bats pift. Era como se eu precisasse me deixar cair.
Nenhuma experiência que eu tenha vivenciado nessa vida pequena que levei até agora se equipara a essa. E eu estava pronto para a morte, para o nascimento de minha alma renovada.
Do outro lado, avisto o rosto de quem está entre minha alma e meu corpo e órgãos. Ele habita cada pequeno espaço de mim. E ele é quem me chama para a vida nova. Quase posso ouvir o corão divino que me chama.
Foi aí que meu corpo se deixa dominar. A fogueira esquenta e quase me queima a coxa. Minha cabeça pesa, como se todo o meu preenchimento do corpo todo tivesse migrado para a cabeça. E então eu sinto que ela é o centro de minhas energias. O corão e os violinos disputam atenção minha, mas eu só posso ouvir as notas que me convidam para a nova experiência.
A cabeça pesa mais e mais. Ela está tão pesada que já nem sinto mais a quentura na coxa. Ela pesa mais para o lado direito, e pesa até cair no chão, desmantelada. Ela cai e quica uma única vez. Assim, jorra um pouco de sangue a uns poucos metros. E eu sinto uma dor tão grande, sinto a cabeça inteira se abrindo e deixando à mostra meu cérebro de menino jovem. Apesar da dor e do peso que escapa conforme minha cabeça se abre no chão, eu estou tão feliz. É uma felicidade imensurável, é a felicidade de dar a luz a um bebê são. É a felicidade de eu mesmo renascer. De eu mesmo ser esse bebê sadio.
Depois disso eu só sinto a alma leve leve. Subindo e subindo leve.
João Hernesto
Jasmins
Essa manhã eu acordei e vesti minha sinceridade. Preparei-me para encontrar alguém muito amável. (lembro-me agora da música interpretada por Frank Sinatra denominada Unforgetable; é um bom adjetivo) Quando estava saindo de casa, envolvido num sentimento misto de nervosismo com alegria, eis que uma fragrância me vem às narinas: jasmim, um campo enorme e florido com centenas de jasmins.
O filme foi tão longo, e o silêncio que em nós existia me parecia gritar tão alto. Eu senti minha pele arrepiar a cada toque daquelas mãos macias. Eu desejei seus lábios, seu corpo. Eu desejei poder me lembrar do seu gosto, parte por parte dele. E desejei ter-lo uma noite. Desejei sentir seu calor corporal e sentir, ainda, sua energia tocar a minha. Desejei voltar no tempo e poder me esforçar para tocar-lo a alma. Desejei ter de novo uma companhia para deixar minha cama de solteiro com aparência de minúscula. O cheiro de jasmins permanecia.
No caminho para casa, a cabeça a mil pensando no dia incrível por que passara, vem-me novamente o cheiro do campo de jasmins. Não me contive e parei naquela rua, que faz esquina com a de minha casa, e olhei em volta. Bem atrás de mim avisto uma árvore com flores muito alegres. As flores pareciam expressar tudo o que eu sentia. Aquela árvore expressava tudo o que eu sentia. E ela estava tão florida e tão irresistivelmente cheirosa, que não me contive e tirei um punhado para mim. Obviamente não eram jasmins, mas era exatamente o cheiro que eu sentira pela manhã. E não estou fantasiando o perfume que um campo de jasmins traz, pois o conheço bem.
Essa noite meu quarto cheira a jasmins. Como um grande campo florido. A Lua existe brilhosa no céu. E eu não estou sozinho. Essa noite eu não durmo sozinho, tenho um perfume que me faz companhia. A vizinha que me perdoe, mas preciso me alegrar mais vezes. Preciso ter as memórias desse sentimento de hoje mais dias do mês. Para isso, algumas flores das dela sumirão.
Leandro Augusto
A poética e sua licença
Eu tento olhar nos seus olhos, em vão. Gostaria de disfarçar meus sentimentos. Gostaria de aplicar a lei da mentira, mas não vou conseguir tão cedo. Gostaria de não eternizar e santificar o amor, agora eu volto a acreditar em sua enganação. Parto a não acreditar nessa ilusão.
Não quero te assombrar, continuo tentando acreditar nos teus olhos. Eu só esperava que o amor verdadeiro fosse mais constante e racional. Vejo que é igual a todas as outras paixões, não crer que volto àquele velho ciclo de conversas e discussões.
Por outro lado eu resolvi mesmo apostar em você, o que eu tenho com você, eu não tenho mesmo em mais ninguém. De repente “eu não consigo ver o que ninguém consegue ver em ninguém mais, que não seja você” volta a fazer sentido.
Nada do que eu disse foi por beleza da poética. Aristóteles já dizia que a retórica e a poética andam de mãos dadas, dividindo os dois lados da tênue linha chamada persuasão para um e licença poética para o outro.
Mas até quando sou poeta? Até quando minha licença poética permanece intacta? Até quando minhas metáforas fazem sentido?
O dia em que eu parar te sentir, terei parado de amar você. Espero que esse dia não chegue, mas, ao mesmo tempo, busco por ele, só para ser mais feliz.
Não espere sensatez vinda de mim, isso eu posso afirmar.
Leandro Augusto
A vida imita a vida real, ou será o contrário?
Ontem não tinha absolutamente nada para ouvir, ler, rir de, transar com. A minha opção: acabar-me embriagado na frente da velha televisão que guardara depois da última mudança (seis anos atrás). Liguei aquele botãozinho com algo escrito em uma língua estrangeira – minha intuição me dizia que era aquele mesmo o responsável pelo funcionamento daquele objeto ligado à tomada, pois ele era verde e aquilo me parecia bem obvio.
Eis que vejo um pequeno homem em cores na escala de cinza. Esse homem era narigudo e jovem. Narigudo e bondoso com os seres de sua espécie pois a plateia, que estava atrás dele, olhava-o de um jeito tão amável. O nariz o atrapalhava de ver o quanto era amado, mas ele sabia provavelmente porque alguém o havia falado. Ele ajudava uma mulher que pedia ajuda. Pelo quê percebi ela precisava de uma casa reformada, e ele possuía o dinheiro necessário para a tal da reforma. Caramba, preciso muito conhecer esse homem!, pensei.
A câmera mostrava a plateia chorando de emoção pela reforma, que nem tinha sido tanta coisa assim, quer dizer, qualquer pessoa com o dinheiro necessário faria aquilo. Talvez a pegada esteja nisto: o dinheiro. E, é claro, o jeito como a câmera é capaz de mostrar a bondade daquele nariz.
Mudando de canal (eu preciso me levantar para fazê-lo), vejo uma mulher muito bonita. Loura. Gostosa, como a juventude diz. Ela estava fazendo uma “transformação” no visual de mulheres feias que estavam prestes a perder os maridos e precisavam daquilo para aumentar a estima que já era alta. (péssimo trocadilho, desculpem-me). Pessoas chorando, pessoas rindo e gargalhando. Todos diziam “ela, a apresentadora, é tão boa!”.
Juro que não entendia o porquê de as pessoas divinizarem pessoas que são boas. O mundo está cheio de pessoas boas que ajudam pessoas de verdade. Digo, são pessoas de mentira, não são? E não é que são vidas de verdade? E não é que a ficção já não faz mais sucesso como antigamente? E não é que a vida real é aproveitada?
A televisão, que no passado trazia a realidade da arte (que imitada pela vida real), estava invadindo a vida real para mostrar problemas reais, e isso fazia muito sucesso! Isso divinizava pessoas que eram as aproveitadoras! Será que ninguém via isso? Aonde foi que a ética do homem chegou? Certo, agora eu estou indignado.
Leia de novo, caro leitor, o primeiro parágrafo. Ele serve tanto de introdução quanto de conclusão. O mais legal é que, depois que eu apresentei minha indignação, pode-se lê-lo com outros olhos e interpretação. Assim, com uma ferramenta muito moderna de o editor deste texto, ele transcreverá esse trecho para o final que segue.
Ctrl + C / Ctrl + D
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João Hernesto
13 de dezembro de 2009
Não estou apaixonado
Eu começaria este texto com a frase: “estou apaixonado novamente”, mas ela vem sempre tão carregada de informações impertinentes. Além do mais, já não sei se realmente estou. Eu gostaria de poder mandar em meu coração e me dizer perdidamente apaixonado, dizer que já nem lembro do que é passado distante. Acontece que aqui dentro, no meu coração, é tão próximo e nada distante.
Vai ver essa é meu carma, gostar do que eu nunca tive.
Vamos às situações: eu achava que tinha alguém, que era um amor inexplicável, um amor que só os anjos eram capazes de cometer. Mas a sensatez chegou logo. Aí eu comecei a reparar que eu merecia mais e, para se reparar isso, é preciso que a situação esteja muito da preta. Sabe quando você não vê o retorno das fichas que são depositadas por você? Não tem como continuar quando você só se alimenta da ilusão de que o amor seja divino. Quando, na verdade, o amor está misturado a outros fatos, como o respeito e o companheirismo. E quando você vê que inventou uma coisa irreal em alguém que é real, o mundo desaba sobre a sua cabeça. E a dor de cabeça que dá depois é tão forte, mas tão forte, que você não tem condições de se levantar para tomar um remédio. Aí você opta por ficar na cama e aprende a lidar com essa dor.
Só que eu fui reparar tudo isso e reparar que preciso de um remédio para superar essa depressão depois que eu já estava me apaixonando de novo. E eu não acho que eu me permiti apaixonar para esquecer da dor de cabeça, porque, até então, achava que era tudo muitíssimo real. Mais do que estar me apaixonando, eu estava deixando alguém apaixonado por mim. Mas é preciso especificar um pouco mais esse amor, que é o que me tem deixado ver a primavera de novo, para que tu, caro leitor, não sintas que é qualquer amor. Esse amor é um amor de carinho, de olhos nos olhos, de nudez e nenhuma vergonha. Esse amor é amor de libido misturado a arrepios carnais. Esse amor veio misturado à ternura e verdade das mais verdadeiras. Ele é aquele amor que é também companheirismo (uso de novo essa palavra para deixar muito claro o parâmetro de comparação), é amor que é também amizade. Gostaria de registrar também que esse é o único amor que não chegou misturado ao sentimento de posse. Por isso eu posso dizer que dou amor em troca de somente amor, e não promessa de fidelidade, por exemplo.
Então alguém me diria: “ótimo, está tudo bem”. Sim. Mas o eu-lírico deste texto é Leandro Augusto, não João Hernesto. O que é que se espera de tal pessoa?! No mínimo complicações sem nexo.
Tem vezes em que eu fecho os meus olhos e vem-me à tona o rosto que eu não quero ver. Ou em algum sonho, em que eu recebo uma ligação apaixonada, em que sou pedido a fugir desse mundo e construir um outro em conjunto. Esses momentos me fazem reparar que eu, por vezes, brigo comigo mesmo, aceitando um sentimento que nasceu rápido e recusando outro que foi se instalando aos poucos e que ganhou um espaço grandessíssimo no meu peito. É como se eu quisesse muito uma coisa, mas só fosse capaz de ter o que eu tenho. Se eu tenho um sorvete que não me agrada e só derrete, eu vou querer um tirado da máquina na hora, saboroso, com gosto de novo misturado com vontade. Mas eu não tenho dinheiro o suficiente para comprar esse sorvete novo: eu tenho um e noventa e cinco, mas preciso de dois reais. E mais, eu não tenho o que fazer com o outro sorvete. Portanto, decido ver de longe o sorvete que tanto quero, e mantenho comigo o sorvete que não me agrada.
Posso dizer que esse foi um dos textos que eu mais senti dores para escrever. Sinto isso porque sei que de nada vai adiantar escrever sofrimento, pois eu vou ter escolher entre batalhar e conseguir cinco centavos para ter o novo sorvete, ou continuar a com a ilusão de que é melhor ter um sorvete derretendo a não ter nenhum. É foda buscar ser sensato.
Leandro Augusto
26 de novembro de 2009
Capítulo I
- Eu não sou louco, não sei o que faço aqui.
- Ninguém aqui é louco, realmente. A gente só tem mais coragem de fazer o que tem vontade. Pudor, é essa a palavra. A gente não tem pudor, sabe?
- Acho que foi isso o que nos distanciou da sociedade. Quem te trancou aqui?
- Eu vim por conta própria.
- Eu também – mas não era verdade.
Sua família o levou à um daqueles hospitais de gente maluca. Disseram que não podiam cuidar dele como ele tinha de ser cuidado. Ele precisava, disseram, de remédios. Naquela clínica ele conseguiria manter o uso e se viciar às novas drogas.
- Estou me sentindo um pouco mal. Vou para o meu quarto.
Desde quando louco se sente mal?, pensou Francisco. De todo modo, ele não se sentia muito bem em seu quarto. Mas, como mudara-se para lá a pouco, não conhecia muita gente. Resolveu voltar para o seu quarto também. Apesar de que seu quarto o enojava.
Era frio e o quarto estava quente por causa das cinzas de cigarro misturadas às excreções que mantinha durante todo o tempo em que esteve lá. Além disso, um aspecto psicológico afetava também o aquecimento do quarto. Seu corpo estava quente e com raiva. Ele não estava triste, ele estava queimando, tamanha intensidade de profusão de emoções que habitavam seu interior.
A privada não estava funcionando. Depois de três dias que estava lá, não podia se sentar para defecar, as fezes misturadas ao xixi estavam quase tocando suas nádegas.
- Por favor, gostaria de dois recipientes com tampa e mais um maço de cigarros.
A enfermeira rapidamente trouxe o seu pedido. Eram dois recipientes de cor quase marrom, um bege bem escuro. Francisco riu-se. Achou bem pertinente a escolha das cores pela enfermeira. Como não tinha nada para pegar a bosta que produzira esses três passados dias, pegou com a mão. Quase vomitou, mas depois de um tempo achou divertido sentir a maciez que ela tinha. Além do mais, ele estava a pegar o que era seu. Começou a achar injusto dar suas fezes para qualquer esgoto sujo, foram produzidas por ele, devem estar com ele. Os o recipiente não eram tão grandes, logo estariam cheios também. Aí ele teria de achar um outro lugar para esconder seu mais novo prazer: acariciar e modelar seu cocô.
O outro recipiente era para guardar as cinzas dos cigarros que fumava. Ele havia parado antes de entrar na clínica, mas pediu à sua mãe que comprasse um pacote grande de cigarros para que pudesse passar o tempo e rir com os diversos jeitos como soltava a fumaça pela boca e pelo nariz. Naquela manhã, ele tentara soltar pelos olhos, mas não conseguira. Decepção.
O quarto era bem clarinho, de um jeito que o incomodava. Quando sua mãe resolveu pintar a casa daquela mesma cor que chamava de gelo (ele não entendia o porquê do nome), argumentou e brigou até conseguir que ela pintasse de branco – que, para ele, era a mesma coisa. Aquele branco, ou gelo, o fazia sentir louco. Aquela monocromia toda era desgastantes, por isso queria sair e fazer amizade.
Sua cama tinha um colchão duro, o que o fazia por vezes escolher dormir no chão, perto de suas fezes.
Na manhã do dia passado ele havia pedido à mãe alguns livros e discos que ela costumava ler e ouvir quando era garoto. O sentimento nostálgico estava muito presente. La não tinha trazido, disse brava: “E você acha que está num acampamento de férias? Vai se curar e voltar para casa trabalhar e trazer dinheiro para a sua família!”
Mesmo assim, ele lembrava do tom da voz de sua mãe acompanhando Chico Buarque cantar. Ela era um pouco desafinada, e sua mente infantil o fazia rir de vez em quando. E aqueles livros traziam um cheiro muito específico. Eles cheiravam seu quarto e os ratos que, vez ou outra, passavam sobre eles. Era um cheio agradável.
Não havia pia nenhuma, somente um balde com água. Ele se lavava no banheiro coletivo do hospital. Lá, ele via muitos homens loucos. Era interessante imaginar que, se ele era louco, muitos eram mais que ele. Um dia, um dos loucos lavou seus olhos com sabão e gritava de dor. Mas era uma dor bonita, ele ria e gritava. Francisco aprendia a ver a dor como arte. No banheiro, a cor branca predominava. Mas com uma diferença, entre os azulejos havia mofo e cheiro ruim. Era como se aquele ambiente favorecesse a loucura alheia, o que parecia ser irônico.
Naquela noite, Francisco foi dormir cedo. Antes de escurecer. Ele podia ouvir o futebol dos malucos. Ele sonhou com o Chapeleiro Maluco da história de Lewis Carroll. Ele o oferecia uma xícara de chá. “Que sabor?”, perguntou. “Cocô”, respondeu o Chapeleiro. “O meu favorito”, pensou, mas não disse. O chá estava ótimo, e, para acompanhar, havia uns biscoitos de sabor diferente. “De que são feitos esses biscoitos, senhor?”. “São feitos de cinzas de cigarro!”, disse o Chapeleiro, soltando uma gargalhada gostosa. E os dois riram e se embebedaram de tanto cocô com cinzas de cigarro.
Quando acordou, ainda na mesma noite, Francisco olhou para o recipiente que continha as fezes e se sentiu faminto. Dormiu de novo e sonhou que comia sua própria bosta, servida com creme de aspargos e vinho tinto suave. Foi uma delícia.No sonho, os pratos eram brancos, branco gelo. Aquilo o incomodava, portanto resolveu acordar. E acordou.
João Hernesto
Poema Sem Título (2006)
25 de novembro de 2009
Ah, o amor... (decida que entonação dar)
O objetivo deste texto é o de responder à pergunta: O que é o amor?
O amor é um cara mau, que tem ataques e gosta de fazer as pessoas de bobas. Ele se finge de bonzinho e nos desarma. Aí ele nos deixa entregues à sua magia inicial para depois destruir nossos corações. Ele faz com que a gente enxergue o mundo menos ingenuamente e mais maldosamente. Ninguém é bonito, ninguém quer o nosso bem.
O problema é exatamente este: ele assume uma identidade humana, o que nos faz achar que o mundo é cheio de gente ruim e, inclusive, que você é o errado da situação. Isso implica que você começa a achar que você não foi feito para amar, que o amor não coube em seu coração e etcétera e tal.
O problema é que ninguém consegue ver com outros olhos: quem não é bom é o amor. Ele é o maior vilão dessa estorinha chamada vida. Ele é o cara que não deveria existir, ele é que não foi feito para ser amado.
Não caio mais nessas garras. Gostaria que você verdade. Gostaria que o amor fosse verdade, e não só poesia...
Leandro Augusto
24 de novembro de 2009
Quando uma coisa satura o que já era saturado, essa coisa fica insaturadíssima. Normalmente eu não gosto dessa palavra, “coisa”, acontece que eu conheço tão pouco dessa coisa que prefiro tratar desse jeito. Eu realmente estou farto. E mais, prefiro não registrar esse momento com um texto. Portanto, fim.
Leandro Augusto
22 de novembro de 2009
A invenção de Leandro Augusto
Antes de começar este texto, gostaria de abrir um parêntese. Analisemos a frase acima sintaticamente: se o termo “de Leandro Augusto” é interpretado como ajunto nominal, tem-se o significado de que algo foi inventado por Leandro Augusto (neste caso, ele seria o agente); agora se o mesmo termo é tido como complemento nominal, Leandro Augusto foi inventado (ou seja, ele é objeto da oração “Inventaram Leandro Augusto”). Ao fim do texto, nobre leitor, terás a resposta a esta questão: Leandro Augusto foi inventado ou inventou algo?
Essa noite senti meu coração batendo forte por uma espera que não sabia o que era. Quando eu era jovem, meus professores (religiosos como só) diziam que essa ansiedade é a falta de Deus. Não o é. Tentei me sentar para ouvir Mozart, que costuma sempre me fazer acalmar. Nada aconteceu.
Sentia vontade de me animar e me tornar novamente vivo. De sair e paquerar novos rostos. De tomar vinho com uma nova namorada e prometer amor eterno. Precisava sair, respirar ar da juventude atual. Queria sentir seu cheiro de perfume barato comprado com o salário do bico que arranjou misturado a cigarro e álcool. Queria tomar cerveja barata, fumar cigarros que custam menos de dois reais o maço. Eu sentia de viver perigosamente.
Saí e o máximo que consegui fazer foi fumar dois dos cigarros baratos e ir ao bistrô que sempre estou acostumado a ir. É um ambiente agradabilíssimo com ótimo atendimento e vinho de qualidade. Costuma tocar jazz, meu preferida - lembra-me ares europeus.
Comi algo e, enquanto fumava o segundo cigarro refleti. Afinal de contas, o que faz um velho senão pensar e repensar o passado. Mas a verdade é que minha crise foi maior, abriu-se ao João Hernesto como pessoa (não como personagem). É que esse meu multi-facetamento me mata. Canso de ser velho e ter momentos jovens. E não pensa tu, meu caro interlocutor, que trata-se simplesmente de nostalgia idosa. Eu sinto que não nasci para ser velho, nasci para ser jovem. Deveria estar junto àqueles jovens belos e cheios de vida. A luxúria deveria percorrer meu sangue de forma insaciável. As crises deveriam ser frequentes.
Foi então que Leandro Augusto me veio à mente.
Tudo o que precisava era um personagem que escrevesse as coisas belas de ser novo. Alguém que diga o quanto a vida é bonita sobre a perspectiva de alguém que tenha menos de duas décadas primaveris. Alguém muito mais inconstante e mais corajoso. Por outro lado, eu precisava que esse alguém fosse infeliz com sua situação e idade. Eu quero o anacrônico e o bipolarismo. Quero alguém que ame fazer parte dos anos noventa, mas que às vezes queira ter participado dos amáveis sessenta. A minha invenção vai ser egocêntrica e convencida. Logo, escrever o pronome “eu” como sujeito será sua marca registrada.
E seria ótimo ter alguém para contar história que fantasio em meus momentos infelizes. Então, se eu quiser falar que saí por aí e bebi até cair no chão e depois transei com um mendigo, eu culparia outra mente, não a minha. Isso é incrível! Todos os meus desejos mais tenebrosos e vergonhosos são, na verdade de outra pessoa.
E esse meu pseudônimo vai criar alguém como eu, alguém que ele quer ser. Como ele quer ser mais velho e ter a sabedoria da idade em si, ele vai procurar alguém para botar a culpa quando resolver escapar do caos juvenil. Portanto, eu serei, é claro, uma criação igualmente. E ele escreverá minha vida toda, desejando ser a sua. Ele escreverá como João Hernesto sem usar o pronome “eu” como sujeito, porque o João Hernesto, para ele, é pouco egocêntrico.
Agora a dúvida me vem, quando chego em casa. Esse eu-lírico deve ser masculino ou feminino? Se for feminino, não poderá ter meu lado agressivo. Ele deverá ser poético e sensual. Ela chamará atenção de todos os homens por onde passa. Ela será a destruidora de corações. Mas quando se apaixona, ela cairia da megestosidade tronal, e se entregaria de corpo e alma. Por outro lado, se fosse homem ele pode ser bem mais inconstante e pode ter uma mente quase psicopática. Ele seria daqueles garotos introvertidos, cheios de sentimentos contidos. Ele escreveria sobre tudo o que o aflige. Ele não faria sucesso entre as mulheres, seria somente o lado inteligente e racional. Não se apaixonaria, pois não acredita em sentimentos que não oferecem futuro garantido, como uma universidade.
Ele tem que ser mulher, pois quero me relacionar com ela. Por outro lado, não saberia como descrever o prazer feminino, haja vista que nunca tive uma vagina. (ainda bem) Ele precisa ser homem, isso já é fato. E eu posso misturar pontos femininos e masculinos nele, para obter algo que me atraia mais para escrever. E eu vou me relacionar com ele, e será muito melhor do que com qualquer mulher que eu tiver, porque ele sou eu. Ele vai me fazer sentir em casa, vai me fazer gozar e querer mais do que me tem a oferecer.
E foi assim que Leandro Augusto virou minha invenção, e eu virei a dele.
João Hernesto
15 de novembro de 2009
O começo do fim ou o fim (escolha)
Este texto tem o propósito único de responder a um e-mail. Ele vai ser postado no blog, por motivos que desconheço. Não vai ser neste texto que usarei minha polidez, vomitarei, como tanto gosto.
Eu estou a me acostumar com a ideia de que eu tenho um poder, mínimo que seja. Hoje eu sonhei um sonho bem doido. Primeiramente, não foi o tipo de sonho que se sonha a noite, eu sonhei de dia, para repor o sonho da noite. Acordei sufocado.
Eu estava no instituto onde minha faculdade é lecionada. Você também. Estávamos com amigos nossos. Amigos meus, amigos seus. Os seus amigos me desviaram atenção de você – eu estava te mantendo por perto, porque sabia que você estava prestes a fugir, como um cão foge quando tem medo e ninguém é capaz de segurá-lo. Você sumiu naquele momento. Passei a te procurar e me encontrei, nessa busca, em uma terra estranha. Uma terra que me fornecia muita informação visual e sonora. Eram como disfarces, mas eu não desistia da ideia de te procurar. Na verdade eu não sabia o motivo pelo qual te queria comigo. Não me lembro se era ciúme, zelo, amor, necessidade ou todos esses. Eu só queria. Por fim, eu não te achei e fiquei com aquele sentimento de perda – perda no sentido de se perder uma batalha.
Não levei a sério, mas interpretei minimamente. Quer dizer, porque é que eu te queria por perto? Para que eu te amava, por capricho? Para poder dizer que tenho alguém do meu lado? Será que eu te amo mesmo? Será que vale a pena me casar com você todos os dias, mesmo querendo mesmo em somente metade deles?
Hoje você me mandou este e-mail. Maldito e-mail. Ele me faz ver coisas com clareza. Faz-me querer acabar logo com meu sofrimento, ou começar a sofrer para ser feliz de novo. Ele me fez querer chorar. ESSA MERDA DE E-MAIL, RICARDO, ME FEZ NÃO CONSEGUIR MAIS ESTUDAR. Eu preciso tanto... Sabia que não devia contar com esse tal de amor.
Leandro Augusto
2 de novembro de 2009
Desconexão de assuntos / Insanidade / Artaud
Este texto terá três títulos, podes escolher o de tua predileção. Não repara tamanho caos e multi-facetamento do mesmo, mas cada parte foi escrita em uma hora diferente. Por exemplo, o que estou-me a escrever, escrevo depois de escrever o antigo terceiro parágrafo.
Quando cheguei em casa, o sol estava a iluminar o telhado da vizinhança. Mas parecía-me tudo tão escuro. Eu sentia a velha febre a voltar. Era uma pena que não se tratava de uma febre qualquer, era a febre do desespero de ser adolescente por uma eternidade tão infinita...
Lembrei-me de quando tinha crises em que me achava incabível a este mundo, achava-me louco. Acho-me louco. Quase chego a crer ser um fato.
Há uns dias eu fiz um teste pela Internet. Desses que as garotinhas fazem em revistas teen. Sempre achei patético, mas adorava fazê-los com as revistas de minha irmã. De todo modo, uma amiga pediu-me que fizesse. “Que louco é você” era o nome-título, e confesso que me chamou muito a atenção.
Ontem eu andei feito cachorro de rua – não sei quanto cachorros de rua andam, mas imagino ser bastante, tanto quanto eu ontem. Senti-me louco e resolvi atravessar duas cidades usando meus pés e a chuva como atrito. Andei, chorei, cantei e me encontrei com minha verdadeira paixão: o verde das montanhas ouropretanas. Sei que é um assunto muito reiterado (diria redundante) falar sobre a natureza, mas é tudo o que me faz bem e mal ao mesmo tempo. Ela é minha filosofia, é só nela em quem acredito fielmente.
Quando era jovem, cume de meus dezesseis anos de América do Sul (como na canção de Belchior), dizia-me louco. Talvez por terem-me colocado à cabeça tal fato. Talvez por esconder o que sinto e resolver de uma vez vomitar pensamentos. Dizia-me bipolar. Na verdade, eu queria mesmo sê-lo. Louco, eu digo. Li que a esquizofrenia mostrava seus primeiros sintomas em pessoas de duas décadas. Sonhava com o dia em que chegasse minha vez de ir ao sanatório e me juntar àqueles que não veem mal nas coisas.
O teste revelou-me um nome próprio esquisito e uma frase que me atraiu. Vi-me lá, simplesmente senti-me aquele louco famoso não para mim. Para ser sincero, lembrei-me de minha adolescência, e como eu me tornara o que sou hoje. Acredito mesmo que tornei-me tudo isso graças à minhas crises existenciais, aos meus vômitos e às pessoas que me ouviram gritar. Eu era muito escandaloso, e queria mais. Queria atenção.
É engraçado eu lembrar de uma canção de Belchior agora, porque não foi ele quem sumiu?
Pois bem, eu queria fugir e me refugiar em qualquer lugar que me abrigasse as lágrimas. Eu digo porque ele sumiu, eu queria poder fazê-lo igual. Não pude. Hoje eu tinha marcado um encontro com alguma montanha ouropretana para ler, escrever, chorar e esquecer que há pessoas que me cercam. Não fui. Ainda não sei por quê, mudemos de assunto novamente.
A sociedade contida num sanatório é demente, óbvio. Mas exatamente por sê-lo que eu não seria. Ou seja, há uma sociedade que me aceita, porque ela aceita todos! Quanta comunhão, isso é maravilhoso. Se eu corresse gritando por ajuda pois Hannibal Lecter esta a me caçar com uma espingarda estilo desenhos da Warner Brothers, ninguém me iria impedir. Além do mais, as camisas de forças, particularmente, me interessam. Remédios fortíssimos também. Sei que parece muito desequilibrado de minha parte, mas sempre acreditei que em todos habita uma certa insanidade. O fato de eu escrever não me faz mais louco que tu. Vê bem, não quero parecer sensacionalista e queredor de atenção, só quero escrever sobre algo que sempre quis, mas sempre fui “polido” pelos próximos.
Dizem que quanto mais você segura um louco, mais você o deixa louco. Porque, quando tudo vem à tona, tudo vem de forma intensa. Talvez isto esteja acontecendo comigo. Talvez são meus primeiros sintomas de esquizofrenia. Que felicidade!
O problema é que aquele teste me deixou tão fascinado por aquela frase, que fez-me esquecer alguns dias depois. Ontem a frase me voltou. “Não quero que ignorem meus gritos de dor, e quero que me escutem.”, ou algo do tipo. A questão que ronda esta frase é que Antonin Artaud tomava ópio, droga na qual era viciado. Durante sua vida sofreu dores fortíssimas, e tomava o remédio para esquecer delas. Ele escreveu peças teatrais, ensaios, contos, crônicas, poemas e, suas favoritas, cartas. Dizem que ele sente-se mais à vontade com um interlocutor. Ele também foi ator. De certa forma, as pessoas não creditavam muito em seu dom, porque Artaud era louco, e, na sociedade dos normais, ninguém acredita no que um louco escreve ou faz. Ele morreu sentindo dor, ao pé de sua cama em um sanatório que provavelmente ficava na França. “Não quero que ignorem meus gritos de dor, e quero que eles sejam ouvidos.” Fazia sentido para mim antes, mas agora faz sentido na vida dele também.
Não tenho sentido facilidade em escrever este texto, confesso. Mas acredito nessa ideia louca que me deu. Acredito e confesso também que, primeiro tu deves estar a sentir dificuldade também para lê-lo, e segundamente que a intenção não é mesmo facilitar tua leitura. É claro.
Li uma história que já devo ter escrito em algum de meus textos. Quem conversa comigo já deve tê-la ouvido de meus lábios. Um rei e uma rainha eram respeitadíssimos em seu reino, seu pequeno reino, uma vila. Enfim, isso não interfere no destino das personagens. Na vila havia duas fontes d’água de onde os moradores tiravam água para suas necessidades: uma grande, que nutria a população e uma pequena, dentro do castelo, para o rei e sua esposa. Um dia, a água da grande fonte foi contaminada e isso tornou a população do reino louca. Louca no sentido de insanos mentalmente mesmo. Somente o rei e a rainha não haviam enlouquecido, por não terem bebido da fonte contaminada. A população fez uma caótica revolução para tirar a família real do poder já que não estava mais acontecendo entendimento entre ambas as partes. Imagina tu, os “não-loucos” foram considerados como “loucos” pelos “loucos” porque era minoria. Ninguém quer alguém para comandar uma sociedade sendo essa pessoa louca. A saída foi o rei e a rainha beberem da fonte contaminada e tornarem-se loucos juntamente. Todos foram felizes para sempre, pois trata-se de um quase-conto-de-fadas. Mas, afinal de contas, quem é louco e quem passou a ser? Relatividade, como dizia Einstein.
Então, eu resolvi me enclausurar, mas não cumpri minha própria promessa. Artaud me veio à cabeça e resolvi pesquisar sua vida e morte. Sua loucura me inspira gritar por aí dizendo que sinto dor e que sou louco também. Sua morte inspirou filósofos/sociólogos/antropólogos como Deleuze e Guattari e Foucault a escreverem textos como o Anti-Édipo e a História da Loucura. Artaud me inspirou a escrever este texto sem sentido e trazer um pouco de sua loucura, que agora é minha, para meus textos. Sua arte me inspirou a fazer arte.
Mais do que sua arte, minha dor. Minha dor me inspirou a fazer este texto que tu lês; não me inspirou a gritar, mas ainda vai.
Como trata-se de um texto louco, acabei de resolver usar qualquer dos parágrafos acima como conclusão. Cabe a tu descobrir se este já foi escrito ou será adicionado assim que terminar de escrever esta palavr
Leandro Augusto