20 de agosto de 2010

Evil I

Há coisas que não precisam ser ditas. Há coisas que são ditas no silêncio. Não digo de frases ditas no silêncio de um olhar, isso me soa deveras piegas. Digo de coisas que são ditas nas entrelinhas, daquelas coisas que são óbvias demais para serem ditas. Acho que a gente acabou por aprender a ser claro demais, deixamos de ser interessantes. Sim, porque o que é interessante é aquilo que nunca mostra tudo, é aquilo que sempre vai deixar um mínimo de curiosidade. Mas aí já acho que fugi do assunto.

E por algum motivo que não sei dizer, uma frase me vem a mente: “Matei um velho”. Edgar Alan Poe disse isso, mas não disse exatamente isso. O fato é, o moço matou o velho do Evil Eye (ou seria Evil “I”?) só por causa dos olhos. Ele não aguentava viver com aqueles olhos malignos – como aparece na tradução para o português. Então, matou o velho, que não tinha nada a ver com a história.

Eu já cometi um assassinato uma vez. Foi bem legal. Uma experiência que eu tenho vontade de repetir. Mas isso não vem ao caso.

O que eu realmente tenho vontade de fazer é explodir um prédio inteiro com pessoas dentro. Só que eu queria que essas pessoas tivessem a ver com a história só para provar para os alheios o meu ódio por elas. Só para provar o gosto de matar um inimigo oculto. Eu daria um jeito de organizar todos eles numa grande festa, uma festa à fantasia – porque é a minha predileta. Daí eles entrariam num grande salão que traria uma bomba escondida. Beberiam muito, comeriam muito. Seria uma orgia: nos banheiros, um homem e uma mulher para chupar os convidados. E esses chupadores seriam escolhidos a dedo. Teria a melhor música tocando. Quando todos estivessem bêbados e cansados de gozar, a bomba explodiria seus miolos ébrios. Que divertido!

Mas aí eu já mudei de assunto.

Como eu dizia, o silêncio é a melhor saída, sem dúvida nenhuma. Agora vocês provavelmente pensem que sou um louco sociopata que fica na espreita a montar um plano maléfico. Além do mais, não é preciso dizer isso pois é o que acontece, de fato. Que ótimo, agora ninguém mais vai querer participar da festa de encerramento.

João Hernesto

28 de junho de 2010

O anjo barroco de traços fortes

Hoje eu acordei de um sonho gostoso. Sonhei com meu cachorrinho que fugiu de casa. Sonhei que abraçava-o , beijava seu focinho, apertava seu corpinho até que ele resmungava algo como “isto doi”. Foi aí que eu acordei.

Bem, eu acordei. Acordei, mas o sonho ainda estava ali. Aquele cachorrinho tinha ficado maior, mas eu ainda era impulsionado a apertá-lo e beijar-lhe o focinho. Aquele cachorrinho com bafo matinal me dizendo palavras como “Bom dia”, “Eu te amo” num tom de voz tão suave que quase me desmantelava o corpo.

E a meia luz que da janela vinha anunciava o dia que estava por vir. E essa mesma me insistia em lembrar dos muitos afazeres objetivados para o presente dia. Então eu virava meu rosto só um pouquinho e via o paraíso, assim, como se fosse uma tentação infernal – chamando-me para permanecer deitado para sempre.

E os olhos puxados, e a pele branca e macia. E o destaque de lábios desenhados como numa pintura. E o destaque de um nariz de traços fortes, como a arte barroca. E o destaque mais que presente de um corpo coberto por um cobertor transparente, que deixava escapar um corpo tão fino e quebrável que chegava a dar-me a impressão de eu mesmo ser tão grande e robusto. Delicadeza. “Prometo não quebrar-te”, disse para mim mesmo, tomando cuidado para não acordar o cachorrinho que voltara a dormir.

E dormia meu anjo. E dormia respirando rapidamente e profundo bem nos meus cabelos. Meu anjo respira encostado em mim, respira ar quente como um cachorrinho filhote. E meu sorriso que não queria cessar de modo algum. E meus olhos que não queriam conter as lágrimas.

E foi quando eu realmente acordei que eu pude ver que aquela passagem do sono para o despertar fora a delícia mais metafórica que pude ter. E foi quando eu realmente acordei que eu pude dizer para mim mesmo: “Quero ficar assim para sempre”.

E foi quando eu realmente acordei que pude ao menos expressar uma frase em meio a tanto engasgo: “Bom dia.”

Leandro Augusto.

2 de junho de 2010

Chegou o inverno

Uma pessoa muito minha amiga sempre lê meus textos e acha erros de ortografia. Poderia pensar, que coisa mais chata. De fato, é chato. Mas ora, é para isto que servem os amigos: para serem revisores dos textos alheios. Leitor, pesso descupa por eventoais erros gramaticais e/ou ortografícos.

Ontem a noite foi fria. Ontem eu re-descobri o maior vilão de todos! O amor. E isto é bem não-coeso de minha parte, já que estou apaixonado neste instante. Já que ouço os sininhos, já que minha barriga sente uma dor interminável, já que meu coração vai a mil quando simplesmente sinto os lábios amados encontrarem com os meus.

O problema é que, mesmo sentindo tudo isso, não posso me deixar enganar: o amor é, sim, com toda certeza, uma obra ruim. Um sentimento ruim. Um ato ruim. Uma escolha péssima.

Ouvi uma frase (que, na verdade, são quatro) hoje que me coube tão bem no presente texto. Terei de transcrevê-la, desculpe-me.

“A vida seria tão cheia de paz sem o amor. Tão segura. Tão tranqüila.”

Na realidade essa não é a frase inteira. Desmembremos essa por enquanto. Afinal de contas, esse é o trecho que não faz meu discurso incoerente.

A vida tem exatamente tudo a ver com o amor. Na verdade a recíproca é bem mais verdadeira, no sentido de que não deixa espaços de dúvida para ninguém. Mas talvez essa primeira frase seja um pouco aceitável, pelo fato de a vida ser composta por amor e seus muitos outros sentimentos que em nós são despertados; sejam eles mais para o ódio ou para o amor em si.

O verbo ser é empregado no futuro do pretérito, do modo indicativo. A concordância é feita de acordo com o sujeito da oração. Tá certo. Até aonde eu sei, o futuro do pretérito é um tempo verbal que sustenta hipóteses, que estão mais certas de que não são certas. Transpondo para a frase em questão, a vida não é concebida sem o amor – o que serve de argumento para o parágrafo acima – e a escolha desse tempo verbal mostra que o autor está colocando uma situação puramente hipotética, haja vista que pensar vida sem pensar amor é altamente tolo.

A vida seria, pois, pacífica, tranqüila e segura sem o amor. Mas isso é muito claro para mim. Simplesmente porque o amor é como se fosse um furacão – dos grandes, diga-se de passagem. Ele chega quando não esperamos, muda a cor do nosso mundo, e sai deixando rastros e feridas quase irrecuperáveis. A única diferença entre os dois é que o amor é muito do esperto. Sim, porque ele, antes de passar por nós, anestesia-nos. Aí ninguém nem sente ele passando, ou sente uma sensação muito gostosa, que não é gostosa, mas nula. Nula porque ele só nos dá a alegria de não sentir toda aquela dor.

Mas o resto da frase (que, como dito, não é uma só) está por vir: “E tão monótona.” Dispenso comentários acerca dessa aqui.

Mesmo assim, o inverno chegou. E chegou forte. Cadê as minhas meias?

João Hernesto

23 de maio de 2010

Brincar de ler

Para o presente texto, precisarei, ou melhor, implorarei a tua ajuda, nobre leitor. Isso porque este aqui nada mais é que uma brincadeira, e eu garanto – como quem faz propaganda de um produto – que não permitirei que não te divirtas. As regras serão explicadas assim que a necessidade surgir, mas não te preocupes pois qualquer um que é minimamente alfabetizado pode brincar.

Primeiramente façamos leves reflexões acerca da leitura. Quer dizer, não é pelo menos insano tu estares a olhar para uma tela branca cheia de manchas pretas? Digo, tu atribuis sentido a borrões pretos. Teu cérebro simplesmente aceita que um alfabeto – seja lá o que for isso – exista. E mais acima na hierarquia do sentido morfológico, és estranho por estar acreditar que essas letras juntas de forma não casual possam formar signos, com imagem própria.

No plano das ideias, é óbvio que tenhas todas essas palavrinhas e palavrões desenhados em mente assim que produz ou recebe um novo conjunto de borrões. Pois para mim não passam disso. Borrões, isso mesmo! Borrões estúpidos que de nada servem. Pensa, esses borrões só servem para adquirirmos conhecimento. E isso na mão de poucos, é uma verdadeira arma.

Com base nesse ato chamado de leitura, podes revolucionar tua sociedade inteira. Podes formular teses religiosas, podes chocar com uma notícia ou com uma narração absolutamente grotesca. Podes matar, mandar matar. Podes morrer, mandar morrer. Podes brincar, até mesmo, de ler como este texto idiota.

Tá certo, aceitamos o fato de que vamos ler e atribuir sentido a essas coisinhas pretas. Isso só porque nós queremos muitíssimo brincar, não queremos?

O primeiro passo é pensar: tu estás a ler em voz baixa? Ora, isso te faz ainda mais estúpido porque estás a atribuir sentido a uma coisa de que sentes vergonha de falar em voz alta. Como podes ler “O Relógio” de Vinícius em voz baixa? Como ler o tique-taque com todo seu ritmo em voz baixa? Pois este é o primeiro passo para brincarmos: leia tique-taque em voz baixa. Aumenta o tom conforme vai terminando a última sílaba, até gritar. Vamos, começa:

tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque.

O que achares da experiência ? Alguém veio perguntar se está tudo bem com você ou se foi o relógio que precisa de um concerto? Não há problema. Essa brincadeira fica ainda mais divertida em grupo, chama qualquer um que te ache peculiar para participar.

Agora façamos o mesmo, mas dessa vez tu não pronunciarás uma só palavra que possa ser ouvida por alguém que esteja a teu lado, que seja. Gritarás em pensamento.

tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque.

Difícil, não? Imagino.

Agora imagina alguém lendo o mesmo trecho. Multiplica esse indivíduo por um número exorbitante. Todos num mesmo ritmo, começando juntamente, como num coro belo e sincronizado. Imagina que alguém tenha saído do ritmo, e só se ouve uma voz sobressaindo do coro. E se todos saíssem do tal ritmo?, cada um por si. Imagina isso, então.

É um coro de relógios numa oficina que precisam de concerto. Um concerto que só é tido como concerto no momento em que o silêncio se instaurar. Então imagina muitos relógios – dessa vez relógios mesmo – em um ritmo altamente díspar e não-sincronizado. Um por um pára, até que um só grite por uma última vez. O silêncio se faz novamente.

Para terminar, teremos um exercício que eu tenho certeza que fará muitas pessoas pararem de ler o texto ou dizerem: mas que cara chato! Mesmo assim, farás comigo, correto?

Ok, levante a mão quem nunca atribuiu sentido a algo totalmente obsceno ou obscuro em nossa mente insana e nojenta. Sim nojenta. Pois lê isto aqui:

ONTEM EU LEVANTEI MEU BRAÇOS E SENTI O CHEIRO DO MEU SUVACO.

ERA MUITO GOSTOSO, ME DEU TESÃO. ENTÃO EU RESOLVI ME MASTURBAR

E PENSAR NAQUELE/NAQUELA PROFESSOR(A) QUE TANTO ESCITA OS ALUNOS.

E olha que nem foi tão forte assim. E então? Conseguiste fazê-lo? Aposto que sim, afinal de contas não queres que este texto tão dinâmico perca esse aspecto tão divertido – porque as brincadeiras são feitas disso: diversão!

Agora mudaremos o foco: escreve tu uma frase muito feia que eu lerei em voz altíssima! Far-lo-ei com vontade, assim como fizeres.

Leandro Augusto

7 de maio de 2010

Esquisito


Então ele acordou. E pensou naquele sonho esquisito. Mas esquisito é um termo muito banal. Quer dizer, em inglês, o seu cognato é um termo positivo. E no português, minha língua materna, vemos tal signo linguístico como algo minimamente negativo. Os outros falantes de português que contestem-me!

Mas a necessidade dessa explicação comparativa entre ambas as línguas se faz presente só porque ele não conseguia julgar o que foi sentido no sonho. Ora, não se pode julgar como negativo o que não foi sentido como tal. E a progressão era o que mais o deixava intrigado. Sim, porque tudo começou tão pequeno, pequenos rastros de uma presença que aquele quarto mantinha. E agora... agora era como se ele já tivesse aceitado e até mesmo convidado sua nova amiga para habitar sua consciência e inconsciência.

*

Tudo começou num dia chuvoso. Claro, tudo de ruim acontece nos dias chuvosos. E acredito ser pertinente para um texto que pretende amedrontar seus leitores. Ele acabara de sair do trabalho – era assistente em um posto de gasolina.

Estava exausto, e triste por uma breve, porém intensa, crise que teve. A questão que lhe bateu bateu porque uma cliente parou com seu belo carro do ano no lugar aonde estava a esperar o primeiro cliente do dia. E assim o vendo com uniforme mais simples, a perua chamou algum dos frentistas para a ajudar. E esperou mais tempo, mas esperou.

Ou seja, ele não tinha nem mesmo capacidade de ser frentista! Desistira da escola, desistira da família pois sua mãe só enchia o saco com perguntas impertinentes. A única coisa de lhe sobrara era assistente de posto de gasolina. Trabalhava o mesmo que qualquer frentista, mas usava um uniforme mais simples. Se eu apenas pudesse ter um uniforme de frentista, pensava.

Voltou para casa e deixou que a chuva o molhasse por completo. Esperava algum tipo de purificação, mas tudo o que conseguia sentir era uma eterna ânsia de vômito (e sabia que não vinha para purificar nada). Ele se sentia cheio de emoções, saindo-lhe a boca.

Chegou em casa, mas não adentrou o portão. Deitou-se na calçada e sentiu mais um pouco a chuva bater em seu corpo. Ela era uma chuva fria e tinha gosto. Tinha gosto de dor. E não era transparente, era negra, mais negra que seus cabelos longos. Por esse motivo ele não era purificado, era contaminado por aquele esgoto vindo dos céus. Aquele esgoto, mais um esgoto mandado pelo seu velho amigo Deus.

Hoje eu morri, pensou. Hoje eu sou seco. Hoje eu sou vazio de qualquer tipo de fé. Só creio na chuva negra sob a qual se encontra meu corpo. Quando deu por si, estava gritando algo como “preencha-me, negra chuva!”.

Quando o sol já estava por nascer, entrou e foi dormir. Dormiu bem, como não fazia há tempos.

*

No dia seguinte trabalhou se sentindo um assistente de merda. Mas usou seu conhecimento para fazer um trabalho burocrático, apenas. Nada o fazia pensar em outra coisa que não fosse a chuva negra e como ela o preencheu.

Olhou para o céu, mas havia uma nuvem sequer.

- Marco, pode ir embora.

E foi. E olhou para o céu, e nada viu. Só viu um sol feliz e colorido. Conforme ia chegando em casa, planejava o que fazer se a chuva voltasse aquela noite. O que diria a ela. Como a pediria que não fosse embora.

Naquela noite a chuva voltou. Mas estava colorida. Tinha cores tão alegres e fortes que ele se trancou em seu quarto sem janela. Botou um roque para tocar e só ouviu. Ouviu tanto que no dia seguinte acordou com o toca-discos riscando um som mecânico, pois o disco havia de estar gasto.

*

E era uma dor tão grande de ter sido esquecido que ele não conseguia forças para se levantar da cama. E tentava, e não conseguia. Ele só ouvia aquele barulho irritante, mas achava ritmado. Achava que era uma ótima música.

Levantou-se e dançou o dia todo. Tanto que se esqueceu-se que um dia quis ser frentista. Tanto que esqueceu-se que tinha que ter saído há algumas horas. Dançou e nada comeu. Também não fumou. Até que o disco já não tinha nada mais para tocar. Então ele parou e se jogou no chão, cansado.

Até que um barulho conhecido tomara conta do quarto. Na verdade tomava conta da casa toda. Não, tomava conta da cidade inteira! E era um barulho tão familiar que ele tinha vontade de dar gargalhadas altíssimas. E gargalhou muito. Até que ficasse sem voz. Mas o barulho não iria embora.

Saiu para ver o que tomava conta da cidade. E era uma voz que gritava seu nome, conforme gotas de água escura caíam no chão. Era a chuva negra! Ela voltara! Ele dançou e gargalhou, porque conseguiu forças extra-corpóreas para assim o fazer. E o fez, até que o próximo dia raiasse com o sol.

Deitou-se quando a chuva se foi. Dormir por duas horas. Acordou na hora em que costumava para trabalhar. E o deu uma vontade incontrolável de trabalhar. E trabalhou, e foi elogiado por seu chefe. E recebeu gorjetas que nenhum frentista tinha jamais recebido.

*

Acordou raivoso. Sentia uma esperança inútil. Há duas semanas a chuva não vinha. Era domingo, e seu dia de folga chegara. Folga, essa, que serviria de palco para mágoa e tristeza. Ele queria ser preenchido novamente. Ele queria muito.

Deitou-se depois de tomar café velho. Café sem açúcar, para enfatizar a amargura em seu coração. Deitou-se e sentiu o gosto incomodando na boca. Mas ele não afirmaria ser o gosto do café. Era um gosto mais amargo, e era um amargo jamais provado antes. Era um amargo com gosto de náusea. Era náusea de tudo. Náusea de ser assistente de posto de gasolina. Náusea de não ganhar mais gorjetas estupendas. Náusea de ser nada na vida. Náusea de solteiro acabado. Náusea de roque. Mais, acima de tudo, náusea de saudade. Era náusea de vômito algum. Vômito de vazio, de nada fazendo digestão. Vômito do que não vinha há duas longas semanas de depressão.

Vomitou.

Levantou-se. Dançou. Colocou um roque no toca-discos e dançou balé. Dançou e se cansou de dançar.

Saiu de casa e esperou a chuva negra chegar. Esperou até que a noite chegasse. Ela não veio.

*

No dia seguinte, acordou pronto para mais um dia de trabalho. Ele tinha muita fome, mas não havia o que comer. Abriu a geladeira e constatou que realmente nada havia para comer.

Foi ao banheiro e forçou urina. Não saiu. Forçou mais um pouco e não saiu. Ele chorou e implorou a seu membro que liberasse uma gota sequer. Nada saiu. Olhou ao redor, e sentiu fome. Viu o papel higiênico; parecia tão suculento. Comeu.

Botou o primeiro pé para portão afora. E notou o chão revestido de líquido gosmento e negro. Ela veio ontem pela noite, lamentou. E aquela vontade de mijar lhe veio. Antes mesmo de entrar de novo, mijou-se inteiro. Mijou negro, manchando, assim seu uniforme branco e amarelo.

*

Quando voltou para casa, bem de noite, ouviu seu nome vindo do quarto. Entrou correndo. O quarto estava escuro, com uma incrível nuvem negra por escapar o cômodo. Ela voltou! A chuva negra voltou! E gritou “preencha-me de novo”, e implorou, e chorou, até que o convite fosse aceito.

Naquela noite ele não dormiu, só sentia a água adentrar os orifícios de seu corpo: boca, olhos, narinas, orelhas, pênis e ânus. Quando deu por si, já era claro e a nuvem havia ido. Mas aparentemente deixara algo em seu quarto. Uma presença tão confortável e também assustadora. Sentia seu dormitório mais claro em uma aresta. Era uma presença feminina que o lembrava a mãe. Deixou o branco à vontade, servindo-lhe todo o papel higiênico que lhe restara.

Estou com fome, pensou. Preciso comprar mais papel.

*

Então ele acordou. E pensou naquele sonho esquisito. Mas esquisito é um termo muito banal. Quer dizer, em inglês, o seu cognato é um termo positivo. E no português, minha língua materna, vemos tal signo linguístico como algo minimamente negativo. Os outros falantes de português que contestem-me!

Mas a necessidade dessa explicação comparativa entre ambas as línguas se faz presente só porque ele não conseguia julgar o que foi sentido no sonho. Ora, não se pode julgar como negativo o que não foi sentido como tal. E a progressão era o que mais o deixava intrigado. Sim, porque tudo começou tão pequeno, pequenos rastros de uma presença que aquele quarto mantinha. E agora... agora era como se ele já tivesse aceitado e até mesmo convidado sua nova amiga para habitar sua consciência e inconsciência.

No sonho, ele sentiu a água negra adentrar seus orifícios. Foi depois de um tempo que o líquido começou a entrar mais fortemente. E entrava numa velocidade que doía por dentro. Era como se uma correnteza estivesse sendo instalando-se dentro de seu corpo. Não soube delimitar o espaço e o lugar em que seu corpo estava, mas conseguia se ver, como se fosse um terceiro. E viu-se sofrendo e gritando “preencha-me”. Chorou de fora.

O céu começou a brilhar mais forte, mas a água enegrecia a paisagem. Era como se fosse uma disputa, mas a decisão de que lado tomar já tinha sido tomada. Quando tudo parou, e enegreceu por completo, ele estava sozinho. Sozinho num parque de diversões. Um parque de diversões abandonado. Mas os brinquedos funcionavam e brilhavam a mesmas cores: vermelho e cinza.

Da roda gigante, que ocupava a maior parte do espaço em que estava inserido, alguém o chamou. Era uma garota de branco. Sua pele era branca e pálida demais para que fosse possível um contato visual efetivo. Conseguiu ver que sua expressão era tão macia, que a vontade que tinha era de se juntar a ela. Juntou-se. E depois disso não soltou mais.

*

Seus companheiros de trabalho estão acertando as contas. Hoje é dia de pagamento?, pergunta. Não, eles estão a sair do posto de gasolina. Reclamam de estarem muito cansados. Por um motivo qualquer, ele se sente totalmente disposto. Trabalha duro.

No fim do dia, seu chefe o chama e o elogia. Você está sendo promovido para frentista. Aquela música o soa até o caminho para casa. Ao mesmo tempo que está feliz, não demonstra por uma segurança especial que se instaurou dentro dele.

*

Ele se deita e pensa na chuva negra. Mas não é ela quem encontra. Debaixo de sua cama algo sai. E ele acredita ser uma minhoca grande, e ela vai saindo aos pouquinhos, mostrando aos pouquinhos que seu corpo não é tão anelado assim. Mostra também um aumento do diâmetro no mesmo corpo. Sai bem devagarzinho e ele só pensa que poderia ser a chuva negra voltando. Alegra-se. Porque, de alguma forma, sente aquela presença amiga e familiar a se aproximar.

Depois de um tempo considerado por ele grande que um orifício acompanha essa minhoca. Ela é marrom, cor de minhoca mesmo. Um orifício com pregas que apertam a passagem de qualquer coisa. A minhoca a se mexer. O orifício se mostra um ânus, e logo pode perceber se tratar não de uma minhoca, mas de uma calda pequena e espessa conforme vai se juntando ao corpo.

Eis que surge uma perna, magra e musculosa. Marrom. Joelhos marrons e bem destacados, como se estivessem em relevo em relação ao resto do corpo. Ele ouve o som de um piano ao fundo. O piano toca bem de leve, como se fosse uma progressão para um ápice musical. O pé é grande, e mais se assemelha a pé de ave pois tem uma dobra ao chegar nas unhas grandes e pontudas. Garras, não unhas. A perna se movimenta conforme a música vai progredindo.

A música do piano começa a aumentar seu tom, não intensidade, ainda. E a cada tom que se alcança, uma outra perna de mostra. A perna se estica, o que mostrava que não é uma ave. São pernas de gente. Gente de verdade. Ele começa a ter medo.

O ânus se abre conforme a música aumenta o tom. E se fecha rapidamente quando a música repentinamente para de tocar.

Rápido. Intenso. Fortemente. O piano começa a tocar uma melodia tocante. O corpo se movimenta mais rapidamente, conforme o ritmo. Costas finas e musculosas começam a aparecer. Ele está chorando. A calda pequena se meche como a de um cachorro feliz ao ver o dono. Ele ri disso. E, como que por aceitação do riso dele, o corpo se mostra por inteiro, de costas, deitado no chão.

Chifres de búfalo, cabeça de bode, narinas de dragão. Aquela cabeça marrom estava de boca fechada e olhos também fechados. Ele não consegue se mover. Não sente mais medo. Os braços da criatura são finos e musculosos. As mãos são de menina pequena. Unhas pequenas e sujas de algo vermelho. Em meio a tantas cores e se pergunta aonde está a água negra. Não sente mais medo.

A criatura dorme, mas a calda balança. Ele se deita confortavelmente e espera o próximo acontecimento. Ele não chega tão cedo. Não sente medo algum, mas quer que a chuva volte. Uma nuvem pequena se mostra no canto do teto de seu quarto. Pequena e negra. Adormece junto com a criatura. O piano toca suave, como se o ninasse.

João Hernesto

15 de abril de 2010

Concordância é Whisk and Bowl! *

Nóis podi falá tudu u qui nóis quisé, du geitu qui nóis quisé. Tendeu? I téim mais: eu possu iscrevê assim purquê eu posso i quéim é qui vai mi impedí?
Surpreende-me muito que as pessoas ainda toquem no assunto língua tratando-a como modalidade certa ou errada. Que fique claro que o propósito deste texto não é – de modo algum – o de demonstrar como sei de Sociolinguística e como sou um imparcial estudante de Letras. Porém, convém escrever, até porquê eu não ligo muito para o que pessoas vão comentar, ninguém comenta meus textos mesmo. Ninguém tá nem aí se eu vou fazer a concordância ou não.
Mas que eu fico puto, eu fico. E “puto” entra aqui só porque eu uso a língua que eu quiser usar, eu falo o vernáculo que melhor se adaptar às circunstâncias, eu escrevo da forma como meu lado cognitivo pensar que devo escrever. E não cabe a absolutamente ninguém julgar.
O primeiro argumento é bem simples: quando se estuda cultura de alguma sociedade, não costuma-se dizer (espero que não mais) que tal obra de arte é melhor que a outra, ou que Picasso é mais artista que um tatuador. E alguém pode me falar que é língua senão aspecto cultural? Alguém, por favor?
Ainda nessa linha de raciocínio, a cultura pode se dividir em pontos regionais e históricos. Regionalismo é um termo tão negativo, por seu sufixismo arraigado de negativismo. O falar de uma região é marca de determinada cultura, e ela deve, sim, ser levada em consideração. Ela deve ser vista como uma das muitas variedades linguística que um território demarcado traz. É isso que mostra peculiaridade em cada falar. Quem há de negar isso?! Alguém, por favor?
E sob a perspectiva histórica, ninguém há de dizer que vossa mercê é errado e você é certo – ou o contrário. A língua muda, sim. Querendo ou não. Nossos próprios falares mudam. E isso vai bem para aquele lado da vida das línguas. As línguas vivas mudam, elas se desenvolvem, positivamente e negativamente. Mas quem somos nós para dizer o que é negativo e o que é positivo?! É um relativismo (com sufixo mesmo) tão grande que me dá nos nervos.
E tem mais!
Ora, que é o português senão uma “modernização” (bem entre aspas) do latim vulgar?! Ou você acha mesmo que nossa língua vem do latim bonitão e visto como “culto” no Império Romano?! Bem ingênuo pensar isso, não?
E, afinal de contas, que é culto mesmo?! Voltemos ao relativismo.
Quem concordar comigo, leia Bagno (mas só um poquinho, porque ele é bem perigoso). Quem não concordar, que fique com seu pensamento tradicionalista e com sua Gramática Tradicional e saia julgando, prepotentemente, o primeiro parágrafo desse texto. A solução é bem simples. Só vê quem quer.
Leandro Augusto

*http://www.dicionarioinformal.com.br/definicao.php?palavra=escambau&id=6344

7 de abril de 2010

O conto fantástico

- Quero escrever um conto fantástico.
- Que bom.
- Quero dicas...
- Bem, já tentou ler Allan Poe?
- Estou a ler.
- Pronto.
- Isso não me trouxe inspiração o bastante.
- Você não é de peixes?
- Sim.
- Não entendo.
- Acho que prefiro viajar sobriamente, sabe?
- Mais ou menos.
- Enfim.
- É...
- Acho que terei que ter um cinco-minutos...
- Use drogas.
- É uma boa saída. Mas... sei lá... é tão...
- Tão o que?
- Óbvio. Além do mais, VOCÊ é o mais velho aqui. Ensina-me coisas que mais velhos ensinam.
- Como o que?
- Como NÃO usar drogas.
- Tá. Você está proibido de usar drogas!
- Obrigado. Mas e o meu conto fantástico?
- Allan Poe.
- Vou terminar o livro.
- Ótimo.
- Ótimo.

João Hernesto

(para saber de onde vem essa cobrança por dicas de como se escrever bem, leia o texto "A doença e a consonância", é só procurar nas antiguidades deste blog)

23 de março de 2010

Rato

E aquele sentimento de negatividade, de olhar negativo em relação às coisas ao meu redor, aquele sentimento de que nada podia estar certo, de que eu não podia estar certo perdurava por mais aquele terceiro dia.
De qualquer forma eu precisava ir, sair, ver o mundo e sua engrenagem ainda em movimento. E saí. E vi, e me irritei. Quando pisei com o primeiro dos pés direitos na calçada, notei que não deveria tê-lo feito, não deveria ter sequer pensado em sair, sequer ter pensado que o mundo ainda pudesse me oferecer uma coisa que prestasse, uma coisa que não fosse podre, que não fosse contra minhas éticas pessoais.
Andei na sombra, não andei na luz. Não só porque era uma tarde muitíssimo calorosa – para facilitar a irritação – , mas também porque eu precisava da escuridão, por menor que fosse. Precisava passar desapercebido, como um rato que só passa pelo esgoto e sai à luz quando se encontra numa situação de desespero. Como um rato que se esconde por não ser visto muito bem aos olhos dos diferentes, eu me escondia e não aparecia para os que me cercam, para que eles não vissem como não me encaixo aos planos para um bom cidadão latino-americano. Para que não vissem que não sou capaz de agir como eles, pondo a mentira à frente do cinismo.
No caminho de volta, havia me cansado ver todas aquelas pessoas, que, pelo calor, estavam a andar na sombra, juntamente comigo. A solução era ser cegado por um instante. Como fazer isso, é bem simples num dia de sol amarelo e quente: deixar que seus raios penetrem nos olhos e enganem a retina, criando sombras psicodélicas de cores derivadas daquele mesmo amarelo de sua essência. Consegui o que queria. Não via ninguém, e deixava-me guiar pela memória de aonde havia um poste, ou uma irregularidade no chão de paralelepípedos, e, às vezes, de pedras imensas.
Durante todo o percurso, anda devagar, como quem não demonstra pressa nem raiva. Era um jeito de mostrar a realidade paralela em que me encontrava. E a mulher que estava atrás de mim bufava por provavelmente estar atrasada para uma responsabilidade marcada, ou nem isso, corria por força do hábito, simplesmente. E ela me ultrapassou como um carro que ultrapassa outro que anda devagar na mão da esquerda. Era como se eu andasse devagar sem ser permitido de fazer tal façanha.
E as pessoas que encontrava, eram todas surpreendidas com minha rara expressão de tensão e raiva. E, ao invés do sorriso, recebiam um olá burocrático. Ao invés de sorriso fingido, recebiam qualquer coisa que fizesse diferente o bom humor que sentiam.
E àquele que perguntara sobre a cara que eu tinha, a reposta foi dissilábica: sono. Mas você não disse que dormiria ontem bem cedinho. Não é sono fisiológico, do corpo, é sono da alma, é canseira de ver as coisas caminhando no sentido em que estão caminhando, é preguiça de pessoas.
João Hernesto

21 de março de 2010

Abstinência

Eu sei que é bem clichê da parte de um escritor screver sobre abstinência e sobre os amores impossível. Bem, este texto fala sobre ambos assuntos, mas quem é que se importa? Não sou escritor, sou só um eterno adolescente com seus medos e imperfeições. Com seus hábitos e vícios. Escrevê-los-ei.
Aí eu comecei a ter aquela coisa que o povo gosta de chamar de ansiedade. Mas bem depois me veio aquela angústia e aquela saudade do que se foi. Vício, os antepassados gostam de chamar. Eu chamo de hábito. Ou falta de. O fato é que a angústia não passou, mesmo depois de tanta conceitualização.
Desci no bar que costumo ir quando quero ouvir jazz. E ouvi. Curei-me (ou saciei-me) de três hábitos.
A garrafa estava com micro-pedrinhas de gelo em sua volta. Vi que seu preço tivera aumentado. Daí eu pensei, essa vai valer muitíssimo a pena. E valeu.
Acendi o cigarro que comprara. A fumaça entrava no pulmão de não-mais-fumante e pedia licença, mas o coração permitia. Ela invadia cada espaço que havia entre a boca e o pulmão. Ela entrava devagar e saía depressa porque o esôfago queimava. Queimou e saiu. Saiu dizendo, causar-te-ei câncer. Tanto quanto os raios solares, ou todo o resto de coisas que costumam fazer matar. Nesse sentido ela e essas outras coisas eram vilãs. Na verdade eu era o vilão de eu mesmo.
Depois da primeira, forte e malvada tragada, a cerveja fora servida no copo, que já formava as tais micro-pedrinhas de gelo com cor de desespero. O brinde foi dito por mim, e brindado comigo mesmo. À fonte, e que ela não seque nunca.
Num gole grande, descia pela garganta o álcool, substância que continha função anestésica às dores do coração. O gás descia lento e sutil, porém invasivo. Era possível sentir aquele gole descer gostoso até o estômago. E, bem no fundinho, eu sentia aquele amargo da cerveja. E ele era tão bom...
Depois de meia garrafa, veio a última das abstinências: o maldito do amor. E a outra maldita: a distância. E aquela vontade de que aquela cerveja e aquelas duas cigarrilhas fizessem a dor diminuir. E não é que o fez?!
Daí eu voltei para casa e escrevi um texto sem desfecho, porque a dor era forte e me fazia perder a imaginação e a inspiração. Ta aí um remédio que podiam inventar: um para a loucura minha. E não é que inventaram?!

Leandro Augusto

Jazz e jornais

Eu cheguei, lá estava ele, lendo o jornal do dia.
- O que te atrai nesses jornais? Eu costumo ver as imagens e ler apenas o começo da parte cultural.
- Eu nem gosto de todas as áreas.
Eu fiquei sem resposta, pois o que ele havia dito não fazia sentido. Ele continuou:
- Bem, você gosta que ninguém leia o que você escreve?
- Mais ou menos...
- Eu leio tudo o que há de escrito nos jornais para que a expectativa de alguém não vá para o lixo.
Nisso eu me sentei e pedi a Heineken que ele não havia pedido.
- O que te seduziu o bastante a ponto de não chegar na hora?
- É assim que você questiona meu atraso de meia hora?
Ele não disse nada.
- Gosto da sua sutileza.
- Os jornais são bem interessantes, sempre acrescentam algo em meu conhecimento. E esse, especificamente, traz um artigo sobre Mariana. Diz o quanto essa cidade é importante culturalmente nos dias de hoje e trouxe riqueza na época da mineração do ouro.
- Acho que eles esqueceram de dizer como é charmosa.
- Mencionam, não com essas palavras.
Ele pediu dois cigarros que adora fumar naquele bar, que traz uma decoração colonial e alguns jornais para os solitários. O som ao fundo era de jazz. Perfeito para uma pacata noite de Domingo.
- Estive aqui ontem, com meus amigos. E é interessante observar como esse bar muda o ambiente de acordo com a companhia.
- Faz um tempo que não venho aqui.
Silêncio constrangedor.
- Sabia que meu aniversário está chegando?
- Como posso me esquecer?
- É mesmo, você sempre guarda as datas.
- E como vai o seu preparo para a vigésima década de sua vida?
- Normal, sei lá. É mais um ano de minha vida. Esse é o jeito como eu divido minhas fases.
- Mas eu diria que é mais um ano de uma mesma fase, certo?
- Sim. E eu estive pensando... Quando será que foi a última vez que morri?
- Você já morreu?
- Algumas vezes, é assim que divido as fases de minha vida.
- É a sua vida, a sua metáfora. Mas acho que a pergunta mais exata seria quando será que vai ser sua próxima morte, ou então o que precisará acontecer para a sua próxima morte.
- Pois é... Essa minha fase está bem ligada ao misticismo e à filosofia. Antes eu dividia em fatos a minha vida, acho que agora eu divido em conhecimento.
- Conhecimento? É uma boa escolha. Mas o que você tem estudado?
- Então, comecei a abrir meus poros para a Natureza e sua divindade disfarçada. Depois passei a estudar a história da filosofia, isso foi nessas férias.
- Isso parece um pouco paradoxal.
- Por que?!
- Só porque os filósofos não suportam ver sua imagem refletida no plano esotérico, apesar de ser um pouco filosofal esse último.
- É assim que penso. Mas o que me levou a atrasar hoje foi a busca pelo conhecimento. Estava procurando mais sobre o Xamanismo.
- Desculpado.
O silêncio se estabeleceu entre nós.
- Você já reparou como os jovens são diferentes de você?
- Talvez eu busque ser diferente deles.
- Só de olhar pela janela deste bar, podemos vê-los gritando e azarando suas garotas com o plano de fundo de duas igrejas barrocas.
- Isso é bem esquisito. E eles não aparentam buscar conhecimento.
- Você não pode julgá-los por um ato, apenas. Eles estão num momento de descontração; você mesmo saiu ontem com seus amigos e deve ter aparentado essa mesma percepção de velhos, como nós.
- E eu também tenho meus momentos de vazio, momentos em que me esqueço da pesquisa e só quero saber de gandaiar.
João riu.
- Essa palavra, sim, é bem esquisita.
Nós rimos mais um pouco. Depois comentamos a moça de costas de fora e a marca de lingerie. Falamos mais sobre morrer, mas dessa vez falamos sobre como nossas fases são introduzidas nas outras, sem nem percebermos. Falamos sobre o jazz que tocava no fundo e sobre os funcionários do bar. Até que ele trouxe à tona um assunto mais sério e, de novo, constrangedor:
- Não entendo por quê você reserva nosso encontros em momentos ébrios seus.
- É mesmo?! Nunca reparei nisso. Desculpe. Deve ser porque são nesses momentos que eu me encontro comigo mesmo, quer dizer, com você.
- Você está muito bem vestido hoje. Esse cavanhaque te deu um ar mais velho e sofisticado.
- Obrigado.
- Depois pagamos a conta e esticamos papo com o dono do bar. Elogiamos, bêbados, seu estabelecimento.
Depois de nos despedirmos, pensei que talvez ele tivesse razão. E talvez eu tivesse tirado férias, também, dele na minha vida. Precisava encontrar um jeito de remediar isso, ou pelo menos deixá-lo mais feliz.
Pensei, também, que eu deveria começar a comprar o jornal nos dias de Domingo.

João Augusto

Não quero parecer desesperado

Já não sei mais escrever sobre dor em relacionamentos, sinto-me calejado. Não consigo chorar por mais de um minuto, não consigo mais soluçar e pensar que minha vida acabou por mais de 60 segundos. Não que o que eu sinto não seja forte, pelo contrário.
Eu te pendurei na minha parede para te ler e te ter sempre que eu puder. Eu li as letras de músicas e poemas que me mandou. Li suas cartas e isso me fez chorar, por exatos 60 segundos. Eu morri em um minuto. Depois levantei a cabeça e pensei como seria se eu conseguisse me apaixonar por outro alguém esse tanto que me sinto com você.
Eu te ergui ao mais alto patamar dos namorados que já tive, eu chego mesmo a acreditar em amor para a vida toda com você. Cada regra que eu quebrei para estar com você, cada aspecto e hábito que mudei sem pestanejar não deve ter sido válido. E hoje eu choro o que um dia fiz alguém chorar. Hoje você me vem com indecisões e crises que um dia eu tive e levei para quem eu não devia.
Tem umas duas horas que eu me culpei por isso tudo. Eu e minha boca grande. Para que discutir religião. Para que falar sobre hipocrisia. Ao mesmo tempo não me tiro a razão, de forma alguma. Não consigo segurar, e nem devo. Você é mesmo hipócrita, acredita em coisas que vão contra os seus atos. Você realmente me lembra a mim com dezesseis.
Não sei se foi realmente isso mesmo que te deixou assim.
Eu queria muito me ajoelhar e dizer, não pensa, só fica comigo. Queria dizer, não me deixe.
“Não me deixeEu inventareiPalavras sem sentidoQue tu compreenderásEu te falareiSobre os amantesQue viram duplamenteSeus corações incendiarem-seEu te contareiA história deste reiMorto por não poderTe reencontrarNão me deixe”
Te amo.

Leandro Augusto

II

1.
E conforme eu andava, corria para encontrar a razão pela qual aquele homem chorava atrás das moitas de aquela montanha, mais ouvia o barulho dos tambores de forma audaciosa. E era como se eles me chamassem, sendo as súplicas de um ser coitado no mundo, um ser que sofre por não ser querido aonde quer que vá.
Eu, primeiro, avistei esse homem deitado com a cabeça virada para o abismo que aquela paisagem continha. E o abismo era tão grande, que eu podia ver o moço do tamanho de uma formiga lá de baixo. O corpo estava apoiado no chão de cima. E as moitas escondiam parte da cena do crime. Os tambores tocavam tunc bats pift. O tambores diziam “socorro”.
À medida que corria, eu conseguia ver aquele jovem trajando uma jeans suja. Ele parou de chorar por um momento e fixou olhar em um ponto em a sua frente. Assim que virei o rosto avistei um rochedo que desenhavam perfeitamente uma imagem que me botava medo: um rosto masculino. Este rosto mostrava um nariz grande e quebrado, olhos fechados, lábios grandes e carnudos, um queixo reto e angular. Acima daquela cabeça, cabelos cacheados que pareciam dançar com o vento que batia contra as rochas. Entre os cabelos, havia dois pedaços de rocha larga em forma de cone. Eles situavam-se um em cada lado da cabeça, como dois chifres. A expressão do homem era forte, e me amedrontava.
O coral cantou, interrompendo, assim, os tambores que tocavam. O ar cheirava a capim molhado misturado a alecrim fresco.
Andei mais um pouquinho e podia ver, ao lado de aquele jovem de jeans suja, uma fogueira que aumentava. A fogueira dizia algo para ele, mas eu não conseguia ouvir o que era. Os violinos tocavam tão alto quanto o coral gritava.
Quando me virei para ver o que o rochedo mostrava, ouço um barulho vindo de um lugar próximo a o que me encontrava. O homem não estava mais lá em cima. E a primeira coisa que me vem à cabeça é a de procurar por seu corpo estirado em o chão próximo. E eu quase sentia cheiro de sangue jovem.


2.
Era passada a segunda hora do início do ritual. E eu ouvia os tambores que vinham do centro da terra cantarem o milagre da natureza. A fogueira ao meu lado crescia, e eu sentia só pelo calor que quase encostava minhas pernas.
Meu olhar era de um mundo ao contrário. Olhava acima de minha cabeça e via um outro chão que não era o que apoiava meu corpo. E aquele chão me chamava, dizendo tunc bats pift. Era como se eu precisasse me deixar cair.
Nenhuma experiência que eu tenha vivenciado nessa vida pequena que levei até agora se equipara a essa. E eu estava pronto para a morte, para o nascimento de minha alma renovada.
Do outro lado, avisto o rosto de quem está entre minha alma e meu corpo e órgãos. Ele habita cada pequeno espaço de mim. E ele é quem me chama para a vida nova. Quase posso ouvir o corão divino que me chama.
Foi aí que meu corpo se deixa dominar. A fogueira esquenta e quase me queima a coxa. Minha cabeça pesa, como se todo o meu preenchimento do corpo todo tivesse migrado para a cabeça. E então eu sinto que ela é o centro de minhas energias. O corão e os violinos disputam atenção minha, mas eu só posso ouvir as notas que me convidam para a nova experiência.
A cabeça pesa mais e mais. Ela está tão pesada que já nem sinto mais a quentura na coxa. Ela pesa mais para o lado direito, e pesa até cair no chão, desmantelada. Ela cai e quica uma única vez. Assim, jorra um pouco de sangue a uns poucos metros. E eu sinto uma dor tão grande, sinto a cabeça inteira se abrindo e deixando à mostra meu cérebro de menino jovem. Apesar da dor e do peso que escapa conforme minha cabeça se abre no chão, eu estou tão feliz. É uma felicidade imensurável, é a felicidade de dar a luz a um bebê são. É a felicidade de eu mesmo renascer. De eu mesmo ser esse bebê sadio.
Depois disso eu só sinto a alma leve leve. Subindo e subindo leve.

João Hernesto

Jasmins

Eu olho para os objetos que recebi hoje e me lembro do título a mim concedido: o de cuidar de cada um deles. Cada objeto desses representa dias, atos, acontecimentos, sentimentos. Eles não são e nunca serão por mim vistos como objetos, simplesmente. Eles são memórias, e são daquelas que o cérebro não nos deixa apagar; são daquelas que vêm concretizadas e são totalmente palpáveis. Essas memórias vieram de alguém e eu, agora, tenho a missão de levá-las comigo. Tenho de trazer comigo essas histórias e saber contá-las a mim mesmo e me lembrar das palavras que ouvi, na melodia em que ouvi, da voz de quem ouvi. As memórias dos objetos são modificadas por mim a partir de agora. Hoje a perspectiva é a minha.
Essa manhã eu acordei e vesti minha sinceridade. Preparei-me para encontrar alguém muito amável. (lembro-me agora da música interpretada por Frank Sinatra denominada Unforgetable; é um bom adjetivo) Quando estava saindo de casa, envolvido num sentimento misto de nervosismo com alegria, eis que uma fragrância me vem às narinas: jasmim, um campo enorme e florido com centenas de jasmins.
O filme foi tão longo, e o silêncio que em nós existia me parecia gritar tão alto. Eu senti minha pele arrepiar a cada toque daquelas mãos macias. Eu desejei seus lábios, seu corpo. Eu desejei poder me lembrar do seu gosto, parte por parte dele. E desejei ter-lo uma noite. Desejei sentir seu calor corporal e sentir, ainda, sua energia tocar a minha. Desejei voltar no tempo e poder me esforçar para tocar-lo a alma. Desejei ter de novo uma companhia para deixar minha cama de solteiro com aparência de minúscula. O cheiro de jasmins permanecia.
No caminho para casa, a cabeça a mil pensando no dia incrível por que passara, vem-me novamente o cheiro do campo de jasmins. Não me contive e parei naquela rua, que faz esquina com a de minha casa, e olhei em volta. Bem atrás de mim avisto uma árvore com flores muito alegres. As flores pareciam expressar tudo o que eu sentia. Aquela árvore expressava tudo o que eu sentia. E ela estava tão florida e tão irresistivelmente cheirosa, que não me contive e tirei um punhado para mim. Obviamente não eram jasmins, mas era exatamente o cheiro que eu sentira pela manhã. E não estou fantasiando o perfume que um campo de jasmins traz, pois o conheço bem.
Essa noite meu quarto cheira a jasmins. Como um grande campo florido. A Lua existe brilhosa no céu. E eu não estou sozinho. Essa noite eu não durmo sozinho, tenho um perfume que me faz companhia. A vizinha que me perdoe, mas preciso me alegrar mais vezes. Preciso ter as memórias desse sentimento de hoje mais dias do mês. Para isso, algumas flores das dela sumirão.

Leandro Augusto

A poética e sua licença

Só parece que a sua luz está mais baixa hoje. Como se eu visse em você o que eu vejo em todos. De repente “eu não consigo ver o que ninguém consegue ver em ninguém mais, que não seja você” não faz o mesmo sentido.
Eu tento olhar nos seus olhos, em vão. Gostaria de disfarçar meus sentimentos. Gostaria de aplicar a lei da mentira, mas não vou conseguir tão cedo. Gostaria de não eternizar e santificar o amor, agora eu volto a acreditar em sua enganação. Parto a não acreditar nessa ilusão.
Não quero te assombrar, continuo tentando acreditar nos teus olhos. Eu só esperava que o amor verdadeiro fosse mais constante e racional. Vejo que é igual a todas as outras paixões, não crer que volto àquele velho ciclo de conversas e discussões.
Por outro lado eu resolvi mesmo apostar em você, o que eu tenho com você, eu não tenho mesmo em mais ninguém. De repente “eu não consigo ver o que ninguém consegue ver em ninguém mais, que não seja você” volta a fazer sentido.
Nada do que eu disse foi por beleza da poética. Aristóteles já dizia que a retórica e a poética andam de mãos dadas, dividindo os dois lados da tênue linha chamada persuasão para um e licença poética para o outro.
Mas até quando sou poeta? Até quando minha licença poética permanece intacta? Até quando minhas metáforas fazem sentido?
O dia em que eu parar te sentir, terei parado de amar você. Espero que esse dia não chegue, mas, ao mesmo tempo, busco por ele, só para ser mais feliz.
Não espere sensatez vinda de mim, isso eu posso afirmar.

Leandro Augusto

A vida imita a vida real, ou será o contrário?

O problema real aconteceu quando a TV roubou da vida real a realidade. E aí quando a intimidade de poucos pobres miseráveis é atingida, temos a dúvida: até quando vai a ética humana? Talvez Montesquieu estava bem errado quando disse algo como “ao passo que sou francês por mera casualidade”.
Ontem não tinha absolutamente nada para ouvir, ler, rir de, transar com. A minha opção: acabar-me embriagado na frente da velha televisão que guardara depois da última mudança (seis anos atrás). Liguei aquele botãozinho com algo escrito em uma língua estrangeira – minha intuição me dizia que era aquele mesmo o responsável pelo funcionamento daquele objeto ligado à tomada, pois ele era verde e aquilo me parecia bem obvio.
Eis que vejo um pequeno homem em cores na escala de cinza. Esse homem era narigudo e jovem. Narigudo e bondoso com os seres de sua espécie pois a plateia, que estava atrás dele, olhava-o de um jeito tão amável. O nariz o atrapalhava de ver o quanto era amado, mas ele sabia provavelmente porque alguém o havia falado. Ele ajudava uma mulher que pedia ajuda. Pelo quê percebi ela precisava de uma casa reformada, e ele possuía o dinheiro necessário para a tal da reforma. Caramba, preciso muito conhecer esse homem!, pensei.
A câmera mostrava a plateia chorando de emoção pela reforma, que nem tinha sido tanta coisa assim, quer dizer, qualquer pessoa com o dinheiro necessário faria aquilo. Talvez a pegada esteja nisto: o dinheiro. E, é claro, o jeito como a câmera é capaz de mostrar a bondade daquele nariz.
Mudando de canal (eu preciso me levantar para fazê-lo), vejo uma mulher muito bonita. Loura. Gostosa, como a juventude diz. Ela estava fazendo uma “transformação” no visual de mulheres feias que estavam prestes a perder os maridos e precisavam daquilo para aumentar a estima que já era alta. (péssimo trocadilho, desculpem-me). Pessoas chorando, pessoas rindo e gargalhando. Todos diziam “ela, a apresentadora, é tão boa!”.
Juro que não entendia o porquê de as pessoas divinizarem pessoas que são boas. O mundo está cheio de pessoas boas que ajudam pessoas de verdade. Digo, são pessoas de mentira, não são? E não é que são vidas de verdade? E não é que a ficção já não faz mais sucesso como antigamente? E não é que a vida real é aproveitada?
A televisão, que no passado trazia a realidade da arte (que imitada pela vida real), estava invadindo a vida real para mostrar problemas reais, e isso fazia muito sucesso! Isso divinizava pessoas que eram as aproveitadoras! Será que ninguém via isso? Aonde foi que a ética do homem chegou? Certo, agora eu estou indignado.
Leia de novo, caro leitor, o primeiro parágrafo. Ele serve tanto de introdução quanto de conclusão. O mais legal é que, depois que eu apresentei minha indignação, pode-se lê-lo com outros olhos e interpretação. Assim, com uma ferramenta muito moderna de o editor deste texto, ele transcreverá esse trecho para o final que segue.
Ctrl + C / Ctrl + D
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João Hernesto