2 de novembro de 2010

Bento

Acordou sem ar. Soluço de choro. Lágrimas molhando seu rosto sonolento. Virou-se e viu o sonho deitado na mesma cama em que estava. Desejou ter mesmo acordado. Sentiu uma mão o acariciando. Sentiu vontade de cortar essa mão fora. Cortou. Levantou-se, porque aquela cama o matava. A mão a dormir.

Eu preciso de paz, pensou. Eu preciso de alguém que me faça sentí-la. Mas talvez nem eu mesmo a possa proporcionar a alguém. Cansei de me martirizar. Cansei de sofrer e perdoar logo em seguida. Cansei de me preocupar se vou sentir falta de algo. A essas alturas percebeu que a dor da perda, na verdade, já tinha chegado.

Pra quê atrasar? Pra quê empurrar para frente algo que vai vir à tona muitas e muitas vezes. Seja em sonhos sofríveis, seja em uma mente insegura. Não vou mudar, não vou tentar ser melhor. Não vou procurar prendê-lo junto a mim 24 horas por dia. Se quiser outro, procurará.

Acordou a mão. Não posso aguentar sua presença hoje; vá. E foi. E, no fundo, sabia que aquela dor passaria, para depois voltar de novo. E vai vivendo essa inconstância de sentimentos que implodem vez em quando. O que mantém à mente é: qual a frequência desses pensamentos? Será que suporto viver nesse caos?

Acho que não.

João Hernesto.

17 de outubro de 2010

Pseudo-eruditismo


A fila era grande. Todos buscavam, unidos, uma apreciação do conhecimento de outrem. Estavam todos muito ansiosos para ver o que os esperava lá dentro.

A fila começa a andar. Pessoas pulam de alegria. Aquele museu deveria ser a coisa mais importante da vida de alguém. A casa era simples, mas continha muita informação.

Entravam e só vinham o que uma casa comum tem a mostrar: uma sala com TV e sofás confortáveis, um pequeno corredor com duas portas, e uma cozinha branca e irritante.

Uma das portas era a entrada para a biblioteca. Lá estava o dono do quarto, de pijamas, escrevendo alguma coisa em seu computador antiquado. A estante de livros existia.

Bem vindos ao meu portal do conhecimento, disse o anfitrião. Livros de autores famosos. Autores brasileiros e autores internacionais.

Literatura consagrada. Filosofia e teologia consagradas. Livros de estudo científico e acadêmicos consagrados. Revistas consagradas. Arrumação desgraçada.

Era possível ouvir algumas interjeições de espanto e admiração. Todos gostariam de ter um arsenal bibliográfico como aquele: pequeno, entretanto bem pouco vazio.

Pensavam, ele deve ter lido cada um desses livros com grande afinco. Talvez alguns deles tivessem sido lidos mais de uma vez. Ele nem deve ter lido todos, outros pensavam.

Um em meio à multidão pegou um livro para folhear. Havia uma dedicatória na primeira página. O autor era famoso e consagrado. A arrumação, desgraçada.

Os outros olhavam com medo; não sabiam se podiam tocar em alguma coisa. O dono dos livros só escrevia e não se sentia incomodado. Todos pegaram um livro para folhear.

Liam em voz alta e, às vezes gritavam. Berravam e gargalhavam. Todos se divertiam com os livros comprados aos poucos. Os livros comprados e os livros roubados.

Posso pegar emprestado?, um deles disse. Não houve resposta. Ele só escrevia e se gabava por dentro por ser tão admirado.

Abriu a mochila e pegou o livro. Mês que vem eu devolvo, tá? Nada de resposta. Foi embora, deixando a multidão um pouco menor.

Barulho de pessoas abrindo bolsas, mochilas, sacolas e colocando livros e mais livros para pegar emprestado. Ele se gabava por dentro, afinal fazia sucesso seu gosto.

Quando todos já tinham ido embora, ele se levantou para fazer um café. Viu que a estante estava vazia. Nem um único livro restou. Sorriu. Gargalhou depois.

Lembrou-se que a grande maioria não havia sido lida depois da segunda página. Muitos deles tinham sido comprados só para mostrar mesmo.

Ele sorriu. A arrumação era desgraçada, mas os livros eram consagrados, a multidão espalhou aos quatro cantos.

No dia seguinte, uma fila se formava. Eram as mesmas pessoas para devolver os livros. Muito boa a primeira página desse aqui, comentavam.

João Hernesto.

3 de outubro de 2010

Náuseas

Tenho tido muitos sonhos eróticos. Com homens, com mulheres. Posso dizer que todos eles me fizeram muito feliz em minha fantasia. Durmo pensando em alguém específico – e nem sei em qual dos dois deixo-me pensar mais – e acordo com a cueca molhada. O pênis pede mais na realidade, a cabeça está exatamente satisfeita.

Tive uma terrível semana.

Na segunda, tive vontade de me envolver numa bola de energia lilás e sentir-me protegido. Não me senti. Bem, eu só senti peso nas minhas costas, sobrancelhas tensas e nunca relaxadas, cabeça a mil.

Na terça, a dor era um pouco menor. A bola de energia lilás me envolvia lentamente. Eu a deixava envolver-me lentamente. Primeiro os pés, depois as pernas; ela parava um pouco no quadril, e, de súbito, um impulso a empurrava para cima de novo; continuava a subir: envolvia minha barriga, meu tórax, meus ombros, braços e mãos. Quando chegava ao pescoço, prestes a envolver minha cabeça, ela parou. Não conseguiu, pois uma outra energia a puxava de volta. Era uma briga bem competitiva. A energia que já me habitava o pensamento ganhou. A bola de energia lilás desistiu e foi embora. Dormi com o corpo todo pesado.

Quarta-feira eu acordei com uma felicidade tão grande no coração. Bem, meu dia foi ótimo. Bebi sozinho nesse dia. Voltei para casa ébrio. Mandei uma mensagem ébria. Dormi ébrio.

Acordei na quinta míope. Não conseguia ver um palmo à minha frente. Não podia tomar decisão alguma. Uma ligação. Confusão. Doía aqui dentro. Vamos tomar vinho barato na São Pedro? Aceitei. Confusão. Sintomas de paixão súbita.

Na sexta, havia alguém do meu lado na cama. Uma felicidade inconsequente. Passei a manhã estudando coisas não-acadêmicas. Pela tarde, dormi. Meu primeiro sonho erótico da semana, que foi mais pro romântico que erótico. Mãos entrelaçadas, carinho no rosto. Olhos verdes. Suspiros apaixonados. Órgãos sexuais se cruzando. Ato sexual sem culpa, pela primeira vez. Situação nem um pouco reiterada. Acordei me lembrando de um compromisso no qual não compareci. Fui dormir me sentindo mal.

Acordei com alguns raios de sol penetrando minha janela. Ânsia me abatia. Posso suportar. Não posso suportar. Corri ao banheiro e vomitei a janta de ontem. Durante a aula da manhã, pedi licença aos meus alunos e vomitei toda a água que havia tomado. Pressão baixou. Tempo insuportável. Eu suava frio, sentia ânsia, mal me suportava de pé. Coloquei sal debaixo da língua. Senti-me bem melhor. Voltei para casa e dormi a tarde toda. Acordei com vontade de vomitar. Acordei com vontade de um carinho dos novos, não me sentia mais apaixonado pelo carinho antigo. Vontade de sair, vontade de encontrar os olhos verdes. Fiquei em casa procurando algo que comesse e não me despertasse ânsia. Comi.

Nessa noite, dormi feito um anjo. Fiz sexo com alguém com quem já havia feito nos sonhos. Foi ótimo. Tinha um gosto de segredo. Foi muito bom mesmo. Acordei melecado. Preciso comer um sanduíche natural feito por mim mesmo. Comi e tomei um café bem forte.

Estou me sentindo bem melhor. Quero os olhos verdes agora.

Leandro Augusto.

28 de setembro de 2010

Sociopatismo


O suicídio é uma saída. Narcolepsia social também. Essa chuva batendo no telhado de casa. Esse brilho que a água faz quando cai na minha mochila. Essa preguiça de sair de casa. Esse medo de sair de casa. Esse medo de se machucar. Esse medo de cair no chão assim que pisar o pé direito na calçada. Esse medo de sair de casa.

Vontade de cometer um crime hediondo. Vontade de assistir a Vincent. Vontade de ler Poe. Vontade de explodir meus miolos na praça mais frequentada da cidade.

E essas palavras que não saem. Esses pensamentos não concretos que só vivem no plano das ideias. Essas ideias que viram ideais. Essas fantasias postas na realidade. E na fantasia eu sou feliz. E na fantasia eu também posso ser triste. Mas não sou o meio-termo, sou muito triste ou sou muito feliz. Ultimamente ser muito triste tem-me atraído mais.

Música calma. Voz aguda rouca. Voz que dá sono. Chuva que dá sono. Narcolepsia social me vem à mente e não sai. Idealizações minhas que só minhas são. Idealizações minhas.

Colo.

Pedido desesperado. Férias. Dezembro gelado. Chuva para lavar a calçada. Alagamento.

Quando a chuva começa a alagar, bem antes de ser prejudicial às pessoas, eu quero ver o caminho que ela percorre. Quero ver as imperfeições das construções pouco niveladas dos homens. Gosto de ouvir o barulho da chuva correndo pelas calçadas caladas. Gosto de ficar calado de vez em quando. Gosto de mostrar-me feliz quando estou triste. Gosto de gritar e só gargalhar. Mas hoje não. Nem ontem. Nem amanhã.

Hoje é narcolepsia social, porque Narciso não me deixa trilhar a opção de um suicídio. Mas quem sabe um assassinato. E será que eu estou mais para o neurótico ou para o psicótico?

Sociopatismo.

Leandro Augusto.

19 de setembro de 2010

Vide


Lá estava ela. Deitada. Linda. Belíssima. Estava ouvindo música e eu imaginava que música estaria a ouvir. Sei lá, não importa. Ou importa tanto que eu talvez queira saber que música é.

- O que você ouve?

- Ouço o que me agrada.

- Você é muito bonita. Não pude deixar de te notar no dia em que te vi pela primeira vez.

- Obrigada. Você também é linda. Seus seios devem ser lindos fora do sutiã.

- Quer ver?

- Sim.

Depois de imaginar um diálogo, voltei a pensar o que ela estaria ouvindo. O que ela estaria pensando. Em quem ela estaria pensando. E aquelas pernas grossas de quem mata qualquer um na hora do sexo. E aqueles seios voluptuosos que pareciam ser mais macios que qualquer um que meus lábios já provaram. Os lábios eram carnudos, mas pareciam ser um pouco flácidos. Lábios flácidos, isso é engraçado. Cabelos jogados no chão onde estava deitada. Madeixas loiras. Não gosto de loiras, mas aquela loira alta me chama atenção desde que a vi.

Ela se sentou. Seus olhos se voltaram para mim no mesmo instante. Uma distância de alguns poucos metros nos distanciavam. Eu tomava café. Ela tirava os fones de ouvido enquanto eu dava um gole no café fraco que eu comprei há poucos minutos, mas já estava frio. Nós nos olhávamos sem parar. Nós estávamos sozinhas e o barulho dos gritos das pessoas felizes não nos atrapalhava nem um pouco.

Permaneceu sentada e observando que não havia ninguém do meu lado, como costumava acontecer sempre que nos encontrávamos. Ela estava desacompanhada também. Era o momento preciso para conversarmos. Vou me levantar e ir a sua direção.

Levantei-me. Joguei fora o copo descartável sujo de resto de café açucarado. Voltei-me a ela e não encontrei coragem para seguir em frente. Voltei ao lugar onde me encontrava. Ainda estava quentinho. Ela olhava. Eu olhava para o chão, envergonhada.

Quem se levantou agora foi ela. Veio em minha direção e perguntou que horas eram. Disse que era hora de nós conversarmos. Tudo bem, disse ela. Conversamos a tarde toda e, no fim, demos um caloroso beijo.

Bem, ela, na verdade, levantou-se e foi em direção ao bebedouro encher a garrafinha de água que tinha em sua mochila. O bebedouro a tomou um tempo razoável para se decidir vir conversar comigo ou não. Vou conversar com ela, pensou.

Veio em minha direção, eu olhava o chão. Ela é ainda mais bonita envergonhada, pensou. Enquanto chegava perto, transpirava. O coração batia forte. A curiosidade para saber o tom de minha voz tomou conta dela. Estava decidida.

Eu a olhei e arregalei os olhos. Ela sorriu. Olhou para o chão para ver se não iria cair, porque sempre achou que cair num primeiro encontro não era a coisa certa para se fazer. Reparou meu sorriso em recompensa ao dela. Meus dentes brancos e perfeitos. Viu meus olhos pequenos pelos óculos fundo de garrafa. Meus cabelos nos ombros que me faziam parecer mais lésbica que qualquer outra. Olhou para meus seios e reparou que meus mamilos estavam arrebitados. Ela está excitada comigo, pensou.

Quando chegou a pouco mais de dois metros perto de mim, eu disse oi. Ela se virou, arrependida e envergonhada. Sorriu, dizendo tudo bem depois. Foi em direção à sala de estudos. Não vou conseguir estudar, pensou.

Eu fiquei desapontada com a situação. Mas sorria sem poder me conter pela felicidade de ter trocado uma palavra com ela. Amanhã eu a chamo para conversar depois do bandejão, pensei eu. Amanhã a chamo para conversar no intervalo, pensou ela.

Leandro Augusto.

Reiterado


Andei lendo os dois últimos textos que escrevi e gostei mais do que quando os escrevi. Foram eles grandes vômitos do que eu não estava sentindo, mas do que eu queria que pensassem que estava acontecendo dentro de mim. Bem, hoje eles fizeram mais sentido que quando os escrevi – ou vomitei.

Um deles fala sobre um término de relacionamento repentino, o outro é pequeno e simplesmente fala de estereótipos colocados por razões não-verbais, mas visuais óbvias. Ora, que mais eu estava sentindo senão isso. As coisas aconteceram e esses textos, na verdade, falavam o que eu sentia. Por mais que doa.

As coisas estão todas se reiterando de forma tão clara para mim que chega a doer. Mas dói no primeiro segundo de pensamento; no segundo elas vêm de forma natural. Natural mesmo. E esse período de mudanças tem se revelado bem mais fácil que nunca se revelaria. Isso é bem esquisito, só não sei se mais para o lado positivo ou para o negativo da palavra.

Pele, sexo, respiração, dor, prazer, arrepio interior, vontade, querer, desejo, repelente, suavidade, voz, chocolate, presente, filme, não assistir, pipoca, refrigerante, cerveja boa, cerveja não tão boa, cigarro, trago, respiração, dor, prazer, arrependimento, pudor, nem um pingo de pudor, pele. Tudo volta como se fosse normal. Tudo volta como as estações do ano voltam e nós sabemos que voltam. Mas essa metáfora eu já usei em outro texto.

Sinto falta de escrever assim. Mas acho que já me cansei de escrever assim. Vou correndo escrever meu próximo conto.

João Hernesto.

5 de setembro de 2010

Eu-lírico: eu mesmo

O cigarro está acabando. Melhor eu descer para comprar mais. Mas, antes, preciso falar com você sobre nós dois. Pra falar a verdade, nem sei como começar. Gosto de grandes discursos, com introdução, desenvolvimento de ideia, argumentação e conclusão, mas acho que vou começar da conclusão. Não quero mais esse casamento. Ele me faz mal. A cidade me faz mal por causa desse casamento. Eu já perdi um irmão aqui por simples injustiça dos limitantes, e eu nem me lembro mais dessa história porque perdi o texto que escrevi sobre isso. Mas eu não acho que não goste mais de São Paulo por causa disso. Não gosto de São Paulo porque passo por todos os lugares em que fomos felizes juntos e me lembro que não te amo mais. E não te amar mais me faz mal. Não sou insensível, mas não quero mais ser tão sensível. Preciso pensar em mim mesmo, preciso de um egocentrismo que só eu posso conceder a mim mesmo. E eu realmente não sei por que não te amo mais, só deixei de te amar, porque não quero mais levar essa vida que tenho levado. Já não me dá mais prazer ensinar o português para crianças retardadas, não aguento mais preencher diários de sala, fazer reunião de pais, não gosto mais de linguística. Achava que fosse uma grande crise se passando dentro de mim, mas isso vem me matando nos últimos 3 anos. E você? Bem, você já não me excita mais e eu já não aguento mais te ouvir gemer e fingir um orgasmo porque você não faz isso bem. Não quero mais te ver reclamando que tem que lavar, passar, enxugar, cozinhar e tantas coisas mais. Não quero mais ter que chegar em casa e me deparar com um lugar irritantemente limpo e uma esposa morta no sofá da sala assistindo à novela. Não quero mais isso para mim. Acabo de pedir demissão e deixar a escola pelos ares por não ter ninguém para me substituir. Não vou receber o salário desse mês, porque estou de saída, aliás, estou de mudança permanente. Vou para as Minas Gerais encontrar paz, se é que elas me vão oferecer isso. Você pode ir buscar o dinheiro amanhã na escola, com a Vânia. Diz para ela que não tem notícia de mim. Vou descer e comprar um cigarro, não volto mais. Não preciso de roupas limpas, obrigado. Comprarei qualquer coisa que me sirva. Adeus.

Não comprei cigarro algum, porque, naquele dia, eu parei de fumar.

João Hernesto.

O menino de volume avantajado nas calças e a menina com o cigarro nas mãos

E ela olhou para o menino de volume avantajado nas calças e pensou “poxa vida, mas que volume avantajado em suas calças”. E ele olhou para a menina com um cigarro nas mãos e pensou “seus pais nem devem desconfiar que ela fuma sem ao menos tragar”.

João Hernesto

29 de agosto de 2010

Café açucarado com açúcar amargo


Uma coisa que me deixa muito feliz é café. Café forte, não café de roça. Café fraquinho, dizem eles. Ora, café é amargo mesmo, deixemo-lo ser. Mas o açúcar eu não consigo dispensar. De amargo já basta a vida, dizem eles. Minha vida é amarga e faço questão que o café também o seja. Mas açúcar, por favor.

Outro dia ela me chegou e disse que meu café era muito amargo, que ela não gostava dele assim. Não tome, respondi. Simples assim. E não me palpite o café. Depois disso, beijou-me com gosto de café forte. Sexo com gosto de café, e posso dizer que o café me satisfez mais. Não que não goste de sexo, mas café é mais amargo, e, meu amigo, de coisas melosas já me basta o amor.

Você não consegue me amar, disse ela. Não, respondi. Enquanto tiver meu café não precisarei de você. Por hoje você está liberada. Ela chorou uma lágrima silenciosa do lado direito. E sorri - achei graça, sei lá. Foi-se sem gosto de café na boca. Eu fiquei, com gosto de café adoçado na boca. Gargalhei de modo que ela me sorriu lá fora, fechando o portão.

Um dia eu tomei tanto café que meu mijo ficou com cheiro de café. Aí eu tomei meu próprio mijo. Mentira. Gargalhei agora imaginando a expressão chocada de meu leitor. Deixo essa parte nojenta para o João Hernesto.

Uma semana eu comecei a acostumar meu paladar para tomar café só sem açúcar. Não durei mais do que na quarta-feira. Gosto de amargo, mas de amargo já basta a vida.

Tive uma namorada por um dia. Terminei na hora em que descobri que ela tomava café sem açúcar; não pude suportar o fato de que ela era mais corajosa e apreciadora de bom café que eu. Uma outra com quem nem cheguei a dar uma lambidinha tomava café com adoçante. É para emagrecer, dizia. Pois emagreça longe de mim, sua piranha fútil, respondi. Ela se foi dizendo palavras de baixíssimo calão, como desgraçado, filho de uma égua, vai se foder, viadinho da porra. Gargalhei para ela ouvir do portão.

Hoje de manhã fui surpreendido com um café da manhã na cama. Não havia café, havia chá. Ela dizia que estávamos na Inglaterra, deveríamos tomar mais chá. Virei a bandeja em cima dela. Chá é para maricas londrinos, não sou marica nem londrino. Sou é macho. Mas, um momento, eu sou de Londres!

É por isso que gosto de Paris.

Leandro Augusto.

24 de agosto de 2010

Podridão (não) assistida


E de alguma forma aquilo me lembrava aquele tempo de tristeza. Aquele tempo de podridão. O cachorro se contorcia no chão, deixando, dessa forma, comprometidos seus ossos sobressaindo à pele. Mijo, bosta, baba, vômito e muita vontade de interromper de uma só vez aquele sofrimento.

Ele estava morrendo enquanto uma plateia o observava como que fugindo do dia-dia, da rotina e dos compromissos. Não é todo dia que passo no centro da cidade pela manhã e encontro um cachorro a morrer, diziam. O cachorro se contorcia. A plateia observava atenta.

Sangue vermelho. Muito sangue. Sua boca já não mais mostrava os dentes quase brancos de nada comer. O sangue tapava qualquer branquidão que pudesse ser aparente. Os corajosos ficaram.

O cheiro ruim subia mais tarde do que esperavam. Eu observava atento. Sentia nojo daquele cachorro. Não tinha vontade alguma de ajudar, chamando algum especialista. Queria vê-lo morto com a língua para fora. Infelizmente demorava mais do que eu pensava que fosse demorar.

Alguns começavam a ir, não só pela demora, mas pelo grande tempo que aquele cachorro os tomara e ainda poderia tomar naquele dia. As desculpas aos chefes começavam a ser planejadas.

Ele morreu, alguém disse. A multidão aumentou desproporcionalmente. O cachorro estava de língua de fora, como muitos presumiam. Um grande silêncio se instaurou por um longo minuto. Pobrezinho, uma dona de casa deve ter falado. Eu não mexia um músculo.

Quando todos já tinham ido embora, somente eu continuava lá, pois havia me esquecido de qualquer compromisso ou horário. Não havia nada a ser feito o dia todo, eu poderia fitar o cachorro quanto quisesse. Pessoas passavam rapidamente à minha volta. Alguns olhavam, outros conversavam ao telefone. Alguns falavam baixinho, alguns berravam exigindo relatórios.

O mau cheiro só aumentava. Ninguém me parou para perguntar nada o dia todo. Eu não chorava. Eu só fitava. Quando o mesmo povo voltava do trabalho para casa, eu continuava ao lado do cachorro, fiel como só.

Agora já era tarde e a rua estava bem vazia. Tudo bem, pode se levantar, eu disse para o cachorro. Bom show, completei. Mas o cachorro não se levantou. O cheiro se tornava insuportável à medida que minha paciência ia se esgotando.

Cansei de esperar. Fui embora logo depois, pois aquela cena era bastante perturbadora.

Pouco tempo depois, o cachorro se levantou, limpou as excreções liberadas durante o show e foi para debaixo da ponte. Preciso de um filé, pensou.

João Hernesto.

20 de agosto de 2010

Evil I

Há coisas que não precisam ser ditas. Há coisas que são ditas no silêncio. Não digo de frases ditas no silêncio de um olhar, isso me soa deveras piegas. Digo de coisas que são ditas nas entrelinhas, daquelas coisas que são óbvias demais para serem ditas. Acho que a gente acabou por aprender a ser claro demais, deixamos de ser interessantes. Sim, porque o que é interessante é aquilo que nunca mostra tudo, é aquilo que sempre vai deixar um mínimo de curiosidade. Mas aí já acho que fugi do assunto.

E por algum motivo que não sei dizer, uma frase me vem a mente: “Matei um velho”. Edgar Alan Poe disse isso, mas não disse exatamente isso. O fato é, o moço matou o velho do Evil Eye (ou seria Evil “I”?) só por causa dos olhos. Ele não aguentava viver com aqueles olhos malignos – como aparece na tradução para o português. Então, matou o velho, que não tinha nada a ver com a história.

Eu já cometi um assassinato uma vez. Foi bem legal. Uma experiência que eu tenho vontade de repetir. Mas isso não vem ao caso.

O que eu realmente tenho vontade de fazer é explodir um prédio inteiro com pessoas dentro. Só que eu queria que essas pessoas tivessem a ver com a história só para provar para os alheios o meu ódio por elas. Só para provar o gosto de matar um inimigo oculto. Eu daria um jeito de organizar todos eles numa grande festa, uma festa à fantasia – porque é a minha predileta. Daí eles entrariam num grande salão que traria uma bomba escondida. Beberiam muito, comeriam muito. Seria uma orgia: nos banheiros, um homem e uma mulher para chupar os convidados. E esses chupadores seriam escolhidos a dedo. Teria a melhor música tocando. Quando todos estivessem bêbados e cansados de gozar, a bomba explodiria seus miolos ébrios. Que divertido!

Mas aí eu já mudei de assunto.

Como eu dizia, o silêncio é a melhor saída, sem dúvida nenhuma. Agora vocês provavelmente pensem que sou um louco sociopata que fica na espreita a montar um plano maléfico. Além do mais, não é preciso dizer isso pois é o que acontece, de fato. Que ótimo, agora ninguém mais vai querer participar da festa de encerramento.

João Hernesto

28 de junho de 2010

O anjo barroco de traços fortes

Hoje eu acordei de um sonho gostoso. Sonhei com meu cachorrinho que fugiu de casa. Sonhei que abraçava-o , beijava seu focinho, apertava seu corpinho até que ele resmungava algo como “isto doi”. Foi aí que eu acordei.

Bem, eu acordei. Acordei, mas o sonho ainda estava ali. Aquele cachorrinho tinha ficado maior, mas eu ainda era impulsionado a apertá-lo e beijar-lhe o focinho. Aquele cachorrinho com bafo matinal me dizendo palavras como “Bom dia”, “Eu te amo” num tom de voz tão suave que quase me desmantelava o corpo.

E a meia luz que da janela vinha anunciava o dia que estava por vir. E essa mesma me insistia em lembrar dos muitos afazeres objetivados para o presente dia. Então eu virava meu rosto só um pouquinho e via o paraíso, assim, como se fosse uma tentação infernal – chamando-me para permanecer deitado para sempre.

E os olhos puxados, e a pele branca e macia. E o destaque de lábios desenhados como numa pintura. E o destaque de um nariz de traços fortes, como a arte barroca. E o destaque mais que presente de um corpo coberto por um cobertor transparente, que deixava escapar um corpo tão fino e quebrável que chegava a dar-me a impressão de eu mesmo ser tão grande e robusto. Delicadeza. “Prometo não quebrar-te”, disse para mim mesmo, tomando cuidado para não acordar o cachorrinho que voltara a dormir.

E dormia meu anjo. E dormia respirando rapidamente e profundo bem nos meus cabelos. Meu anjo respira encostado em mim, respira ar quente como um cachorrinho filhote. E meu sorriso que não queria cessar de modo algum. E meus olhos que não queriam conter as lágrimas.

E foi quando eu realmente acordei que eu pude ver que aquela passagem do sono para o despertar fora a delícia mais metafórica que pude ter. E foi quando eu realmente acordei que eu pude dizer para mim mesmo: “Quero ficar assim para sempre”.

E foi quando eu realmente acordei que pude ao menos expressar uma frase em meio a tanto engasgo: “Bom dia.”

Leandro Augusto.

2 de junho de 2010

Chegou o inverno

Uma pessoa muito minha amiga sempre lê meus textos e acha erros de ortografia. Poderia pensar, que coisa mais chata. De fato, é chato. Mas ora, é para isto que servem os amigos: para serem revisores dos textos alheios. Leitor, pesso descupa por eventoais erros gramaticais e/ou ortografícos.

Ontem a noite foi fria. Ontem eu re-descobri o maior vilão de todos! O amor. E isto é bem não-coeso de minha parte, já que estou apaixonado neste instante. Já que ouço os sininhos, já que minha barriga sente uma dor interminável, já que meu coração vai a mil quando simplesmente sinto os lábios amados encontrarem com os meus.

O problema é que, mesmo sentindo tudo isso, não posso me deixar enganar: o amor é, sim, com toda certeza, uma obra ruim. Um sentimento ruim. Um ato ruim. Uma escolha péssima.

Ouvi uma frase (que, na verdade, são quatro) hoje que me coube tão bem no presente texto. Terei de transcrevê-la, desculpe-me.

“A vida seria tão cheia de paz sem o amor. Tão segura. Tão tranqüila.”

Na realidade essa não é a frase inteira. Desmembremos essa por enquanto. Afinal de contas, esse é o trecho que não faz meu discurso incoerente.

A vida tem exatamente tudo a ver com o amor. Na verdade a recíproca é bem mais verdadeira, no sentido de que não deixa espaços de dúvida para ninguém. Mas talvez essa primeira frase seja um pouco aceitável, pelo fato de a vida ser composta por amor e seus muitos outros sentimentos que em nós são despertados; sejam eles mais para o ódio ou para o amor em si.

O verbo ser é empregado no futuro do pretérito, do modo indicativo. A concordância é feita de acordo com o sujeito da oração. Tá certo. Até aonde eu sei, o futuro do pretérito é um tempo verbal que sustenta hipóteses, que estão mais certas de que não são certas. Transpondo para a frase em questão, a vida não é concebida sem o amor – o que serve de argumento para o parágrafo acima – e a escolha desse tempo verbal mostra que o autor está colocando uma situação puramente hipotética, haja vista que pensar vida sem pensar amor é altamente tolo.

A vida seria, pois, pacífica, tranqüila e segura sem o amor. Mas isso é muito claro para mim. Simplesmente porque o amor é como se fosse um furacão – dos grandes, diga-se de passagem. Ele chega quando não esperamos, muda a cor do nosso mundo, e sai deixando rastros e feridas quase irrecuperáveis. A única diferença entre os dois é que o amor é muito do esperto. Sim, porque ele, antes de passar por nós, anestesia-nos. Aí ninguém nem sente ele passando, ou sente uma sensação muito gostosa, que não é gostosa, mas nula. Nula porque ele só nos dá a alegria de não sentir toda aquela dor.

Mas o resto da frase (que, como dito, não é uma só) está por vir: “E tão monótona.” Dispenso comentários acerca dessa aqui.

Mesmo assim, o inverno chegou. E chegou forte. Cadê as minhas meias?

João Hernesto

23 de maio de 2010

Brincar de ler

Para o presente texto, precisarei, ou melhor, implorarei a tua ajuda, nobre leitor. Isso porque este aqui nada mais é que uma brincadeira, e eu garanto – como quem faz propaganda de um produto – que não permitirei que não te divirtas. As regras serão explicadas assim que a necessidade surgir, mas não te preocupes pois qualquer um que é minimamente alfabetizado pode brincar.

Primeiramente façamos leves reflexões acerca da leitura. Quer dizer, não é pelo menos insano tu estares a olhar para uma tela branca cheia de manchas pretas? Digo, tu atribuis sentido a borrões pretos. Teu cérebro simplesmente aceita que um alfabeto – seja lá o que for isso – exista. E mais acima na hierarquia do sentido morfológico, és estranho por estar acreditar que essas letras juntas de forma não casual possam formar signos, com imagem própria.

No plano das ideias, é óbvio que tenhas todas essas palavrinhas e palavrões desenhados em mente assim que produz ou recebe um novo conjunto de borrões. Pois para mim não passam disso. Borrões, isso mesmo! Borrões estúpidos que de nada servem. Pensa, esses borrões só servem para adquirirmos conhecimento. E isso na mão de poucos, é uma verdadeira arma.

Com base nesse ato chamado de leitura, podes revolucionar tua sociedade inteira. Podes formular teses religiosas, podes chocar com uma notícia ou com uma narração absolutamente grotesca. Podes matar, mandar matar. Podes morrer, mandar morrer. Podes brincar, até mesmo, de ler como este texto idiota.

Tá certo, aceitamos o fato de que vamos ler e atribuir sentido a essas coisinhas pretas. Isso só porque nós queremos muitíssimo brincar, não queremos?

O primeiro passo é pensar: tu estás a ler em voz baixa? Ora, isso te faz ainda mais estúpido porque estás a atribuir sentido a uma coisa de que sentes vergonha de falar em voz alta. Como podes ler “O Relógio” de Vinícius em voz baixa? Como ler o tique-taque com todo seu ritmo em voz baixa? Pois este é o primeiro passo para brincarmos: leia tique-taque em voz baixa. Aumenta o tom conforme vai terminando a última sílaba, até gritar. Vamos, começa:

tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque.

O que achares da experiência ? Alguém veio perguntar se está tudo bem com você ou se foi o relógio que precisa de um concerto? Não há problema. Essa brincadeira fica ainda mais divertida em grupo, chama qualquer um que te ache peculiar para participar.

Agora façamos o mesmo, mas dessa vez tu não pronunciarás uma só palavra que possa ser ouvida por alguém que esteja a teu lado, que seja. Gritarás em pensamento.

tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque, tique-taque.

Difícil, não? Imagino.

Agora imagina alguém lendo o mesmo trecho. Multiplica esse indivíduo por um número exorbitante. Todos num mesmo ritmo, começando juntamente, como num coro belo e sincronizado. Imagina que alguém tenha saído do ritmo, e só se ouve uma voz sobressaindo do coro. E se todos saíssem do tal ritmo?, cada um por si. Imagina isso, então.

É um coro de relógios numa oficina que precisam de concerto. Um concerto que só é tido como concerto no momento em que o silêncio se instaurar. Então imagina muitos relógios – dessa vez relógios mesmo – em um ritmo altamente díspar e não-sincronizado. Um por um pára, até que um só grite por uma última vez. O silêncio se faz novamente.

Para terminar, teremos um exercício que eu tenho certeza que fará muitas pessoas pararem de ler o texto ou dizerem: mas que cara chato! Mesmo assim, farás comigo, correto?

Ok, levante a mão quem nunca atribuiu sentido a algo totalmente obsceno ou obscuro em nossa mente insana e nojenta. Sim nojenta. Pois lê isto aqui:

ONTEM EU LEVANTEI MEU BRAÇOS E SENTI O CHEIRO DO MEU SUVACO.

ERA MUITO GOSTOSO, ME DEU TESÃO. ENTÃO EU RESOLVI ME MASTURBAR

E PENSAR NAQUELE/NAQUELA PROFESSOR(A) QUE TANTO ESCITA OS ALUNOS.

E olha que nem foi tão forte assim. E então? Conseguiste fazê-lo? Aposto que sim, afinal de contas não queres que este texto tão dinâmico perca esse aspecto tão divertido – porque as brincadeiras são feitas disso: diversão!

Agora mudaremos o foco: escreve tu uma frase muito feia que eu lerei em voz altíssima! Far-lo-ei com vontade, assim como fizeres.

Leandro Augusto

7 de maio de 2010

Esquisito


Então ele acordou. E pensou naquele sonho esquisito. Mas esquisito é um termo muito banal. Quer dizer, em inglês, o seu cognato é um termo positivo. E no português, minha língua materna, vemos tal signo linguístico como algo minimamente negativo. Os outros falantes de português que contestem-me!

Mas a necessidade dessa explicação comparativa entre ambas as línguas se faz presente só porque ele não conseguia julgar o que foi sentido no sonho. Ora, não se pode julgar como negativo o que não foi sentido como tal. E a progressão era o que mais o deixava intrigado. Sim, porque tudo começou tão pequeno, pequenos rastros de uma presença que aquele quarto mantinha. E agora... agora era como se ele já tivesse aceitado e até mesmo convidado sua nova amiga para habitar sua consciência e inconsciência.

*

Tudo começou num dia chuvoso. Claro, tudo de ruim acontece nos dias chuvosos. E acredito ser pertinente para um texto que pretende amedrontar seus leitores. Ele acabara de sair do trabalho – era assistente em um posto de gasolina.

Estava exausto, e triste por uma breve, porém intensa, crise que teve. A questão que lhe bateu bateu porque uma cliente parou com seu belo carro do ano no lugar aonde estava a esperar o primeiro cliente do dia. E assim o vendo com uniforme mais simples, a perua chamou algum dos frentistas para a ajudar. E esperou mais tempo, mas esperou.

Ou seja, ele não tinha nem mesmo capacidade de ser frentista! Desistira da escola, desistira da família pois sua mãe só enchia o saco com perguntas impertinentes. A única coisa de lhe sobrara era assistente de posto de gasolina. Trabalhava o mesmo que qualquer frentista, mas usava um uniforme mais simples. Se eu apenas pudesse ter um uniforme de frentista, pensava.

Voltou para casa e deixou que a chuva o molhasse por completo. Esperava algum tipo de purificação, mas tudo o que conseguia sentir era uma eterna ânsia de vômito (e sabia que não vinha para purificar nada). Ele se sentia cheio de emoções, saindo-lhe a boca.

Chegou em casa, mas não adentrou o portão. Deitou-se na calçada e sentiu mais um pouco a chuva bater em seu corpo. Ela era uma chuva fria e tinha gosto. Tinha gosto de dor. E não era transparente, era negra, mais negra que seus cabelos longos. Por esse motivo ele não era purificado, era contaminado por aquele esgoto vindo dos céus. Aquele esgoto, mais um esgoto mandado pelo seu velho amigo Deus.

Hoje eu morri, pensou. Hoje eu sou seco. Hoje eu sou vazio de qualquer tipo de fé. Só creio na chuva negra sob a qual se encontra meu corpo. Quando deu por si, estava gritando algo como “preencha-me, negra chuva!”.

Quando o sol já estava por nascer, entrou e foi dormir. Dormiu bem, como não fazia há tempos.

*

No dia seguinte trabalhou se sentindo um assistente de merda. Mas usou seu conhecimento para fazer um trabalho burocrático, apenas. Nada o fazia pensar em outra coisa que não fosse a chuva negra e como ela o preencheu.

Olhou para o céu, mas havia uma nuvem sequer.

- Marco, pode ir embora.

E foi. E olhou para o céu, e nada viu. Só viu um sol feliz e colorido. Conforme ia chegando em casa, planejava o que fazer se a chuva voltasse aquela noite. O que diria a ela. Como a pediria que não fosse embora.

Naquela noite a chuva voltou. Mas estava colorida. Tinha cores tão alegres e fortes que ele se trancou em seu quarto sem janela. Botou um roque para tocar e só ouviu. Ouviu tanto que no dia seguinte acordou com o toca-discos riscando um som mecânico, pois o disco havia de estar gasto.

*

E era uma dor tão grande de ter sido esquecido que ele não conseguia forças para se levantar da cama. E tentava, e não conseguia. Ele só ouvia aquele barulho irritante, mas achava ritmado. Achava que era uma ótima música.

Levantou-se e dançou o dia todo. Tanto que se esqueceu-se que um dia quis ser frentista. Tanto que esqueceu-se que tinha que ter saído há algumas horas. Dançou e nada comeu. Também não fumou. Até que o disco já não tinha nada mais para tocar. Então ele parou e se jogou no chão, cansado.

Até que um barulho conhecido tomara conta do quarto. Na verdade tomava conta da casa toda. Não, tomava conta da cidade inteira! E era um barulho tão familiar que ele tinha vontade de dar gargalhadas altíssimas. E gargalhou muito. Até que ficasse sem voz. Mas o barulho não iria embora.

Saiu para ver o que tomava conta da cidade. E era uma voz que gritava seu nome, conforme gotas de água escura caíam no chão. Era a chuva negra! Ela voltara! Ele dançou e gargalhou, porque conseguiu forças extra-corpóreas para assim o fazer. E o fez, até que o próximo dia raiasse com o sol.

Deitou-se quando a chuva se foi. Dormir por duas horas. Acordou na hora em que costumava para trabalhar. E o deu uma vontade incontrolável de trabalhar. E trabalhou, e foi elogiado por seu chefe. E recebeu gorjetas que nenhum frentista tinha jamais recebido.

*

Acordou raivoso. Sentia uma esperança inútil. Há duas semanas a chuva não vinha. Era domingo, e seu dia de folga chegara. Folga, essa, que serviria de palco para mágoa e tristeza. Ele queria ser preenchido novamente. Ele queria muito.

Deitou-se depois de tomar café velho. Café sem açúcar, para enfatizar a amargura em seu coração. Deitou-se e sentiu o gosto incomodando na boca. Mas ele não afirmaria ser o gosto do café. Era um gosto mais amargo, e era um amargo jamais provado antes. Era um amargo com gosto de náusea. Era náusea de tudo. Náusea de ser assistente de posto de gasolina. Náusea de não ganhar mais gorjetas estupendas. Náusea de ser nada na vida. Náusea de solteiro acabado. Náusea de roque. Mais, acima de tudo, náusea de saudade. Era náusea de vômito algum. Vômito de vazio, de nada fazendo digestão. Vômito do que não vinha há duas longas semanas de depressão.

Vomitou.

Levantou-se. Dançou. Colocou um roque no toca-discos e dançou balé. Dançou e se cansou de dançar.

Saiu de casa e esperou a chuva negra chegar. Esperou até que a noite chegasse. Ela não veio.

*

No dia seguinte, acordou pronto para mais um dia de trabalho. Ele tinha muita fome, mas não havia o que comer. Abriu a geladeira e constatou que realmente nada havia para comer.

Foi ao banheiro e forçou urina. Não saiu. Forçou mais um pouco e não saiu. Ele chorou e implorou a seu membro que liberasse uma gota sequer. Nada saiu. Olhou ao redor, e sentiu fome. Viu o papel higiênico; parecia tão suculento. Comeu.

Botou o primeiro pé para portão afora. E notou o chão revestido de líquido gosmento e negro. Ela veio ontem pela noite, lamentou. E aquela vontade de mijar lhe veio. Antes mesmo de entrar de novo, mijou-se inteiro. Mijou negro, manchando, assim seu uniforme branco e amarelo.

*

Quando voltou para casa, bem de noite, ouviu seu nome vindo do quarto. Entrou correndo. O quarto estava escuro, com uma incrível nuvem negra por escapar o cômodo. Ela voltou! A chuva negra voltou! E gritou “preencha-me de novo”, e implorou, e chorou, até que o convite fosse aceito.

Naquela noite ele não dormiu, só sentia a água adentrar os orifícios de seu corpo: boca, olhos, narinas, orelhas, pênis e ânus. Quando deu por si, já era claro e a nuvem havia ido. Mas aparentemente deixara algo em seu quarto. Uma presença tão confortável e também assustadora. Sentia seu dormitório mais claro em uma aresta. Era uma presença feminina que o lembrava a mãe. Deixou o branco à vontade, servindo-lhe todo o papel higiênico que lhe restara.

Estou com fome, pensou. Preciso comprar mais papel.

*

Então ele acordou. E pensou naquele sonho esquisito. Mas esquisito é um termo muito banal. Quer dizer, em inglês, o seu cognato é um termo positivo. E no português, minha língua materna, vemos tal signo linguístico como algo minimamente negativo. Os outros falantes de português que contestem-me!

Mas a necessidade dessa explicação comparativa entre ambas as línguas se faz presente só porque ele não conseguia julgar o que foi sentido no sonho. Ora, não se pode julgar como negativo o que não foi sentido como tal. E a progressão era o que mais o deixava intrigado. Sim, porque tudo começou tão pequeno, pequenos rastros de uma presença que aquele quarto mantinha. E agora... agora era como se ele já tivesse aceitado e até mesmo convidado sua nova amiga para habitar sua consciência e inconsciência.

No sonho, ele sentiu a água negra adentrar seus orifícios. Foi depois de um tempo que o líquido começou a entrar mais fortemente. E entrava numa velocidade que doía por dentro. Era como se uma correnteza estivesse sendo instalando-se dentro de seu corpo. Não soube delimitar o espaço e o lugar em que seu corpo estava, mas conseguia se ver, como se fosse um terceiro. E viu-se sofrendo e gritando “preencha-me”. Chorou de fora.

O céu começou a brilhar mais forte, mas a água enegrecia a paisagem. Era como se fosse uma disputa, mas a decisão de que lado tomar já tinha sido tomada. Quando tudo parou, e enegreceu por completo, ele estava sozinho. Sozinho num parque de diversões. Um parque de diversões abandonado. Mas os brinquedos funcionavam e brilhavam a mesmas cores: vermelho e cinza.

Da roda gigante, que ocupava a maior parte do espaço em que estava inserido, alguém o chamou. Era uma garota de branco. Sua pele era branca e pálida demais para que fosse possível um contato visual efetivo. Conseguiu ver que sua expressão era tão macia, que a vontade que tinha era de se juntar a ela. Juntou-se. E depois disso não soltou mais.

*

Seus companheiros de trabalho estão acertando as contas. Hoje é dia de pagamento?, pergunta. Não, eles estão a sair do posto de gasolina. Reclamam de estarem muito cansados. Por um motivo qualquer, ele se sente totalmente disposto. Trabalha duro.

No fim do dia, seu chefe o chama e o elogia. Você está sendo promovido para frentista. Aquela música o soa até o caminho para casa. Ao mesmo tempo que está feliz, não demonstra por uma segurança especial que se instaurou dentro dele.

*

Ele se deita e pensa na chuva negra. Mas não é ela quem encontra. Debaixo de sua cama algo sai. E ele acredita ser uma minhoca grande, e ela vai saindo aos pouquinhos, mostrando aos pouquinhos que seu corpo não é tão anelado assim. Mostra também um aumento do diâmetro no mesmo corpo. Sai bem devagarzinho e ele só pensa que poderia ser a chuva negra voltando. Alegra-se. Porque, de alguma forma, sente aquela presença amiga e familiar a se aproximar.

Depois de um tempo considerado por ele grande que um orifício acompanha essa minhoca. Ela é marrom, cor de minhoca mesmo. Um orifício com pregas que apertam a passagem de qualquer coisa. A minhoca a se mexer. O orifício se mostra um ânus, e logo pode perceber se tratar não de uma minhoca, mas de uma calda pequena e espessa conforme vai se juntando ao corpo.

Eis que surge uma perna, magra e musculosa. Marrom. Joelhos marrons e bem destacados, como se estivessem em relevo em relação ao resto do corpo. Ele ouve o som de um piano ao fundo. O piano toca bem de leve, como se fosse uma progressão para um ápice musical. O pé é grande, e mais se assemelha a pé de ave pois tem uma dobra ao chegar nas unhas grandes e pontudas. Garras, não unhas. A perna se movimenta conforme a música vai progredindo.

A música do piano começa a aumentar seu tom, não intensidade, ainda. E a cada tom que se alcança, uma outra perna de mostra. A perna se estica, o que mostrava que não é uma ave. São pernas de gente. Gente de verdade. Ele começa a ter medo.

O ânus se abre conforme a música aumenta o tom. E se fecha rapidamente quando a música repentinamente para de tocar.

Rápido. Intenso. Fortemente. O piano começa a tocar uma melodia tocante. O corpo se movimenta mais rapidamente, conforme o ritmo. Costas finas e musculosas começam a aparecer. Ele está chorando. A calda pequena se meche como a de um cachorro feliz ao ver o dono. Ele ri disso. E, como que por aceitação do riso dele, o corpo se mostra por inteiro, de costas, deitado no chão.

Chifres de búfalo, cabeça de bode, narinas de dragão. Aquela cabeça marrom estava de boca fechada e olhos também fechados. Ele não consegue se mover. Não sente mais medo. Os braços da criatura são finos e musculosos. As mãos são de menina pequena. Unhas pequenas e sujas de algo vermelho. Em meio a tantas cores e se pergunta aonde está a água negra. Não sente mais medo.

A criatura dorme, mas a calda balança. Ele se deita confortavelmente e espera o próximo acontecimento. Ele não chega tão cedo. Não sente medo algum, mas quer que a chuva volte. Uma nuvem pequena se mostra no canto do teto de seu quarto. Pequena e negra. Adormece junto com a criatura. O piano toca suave, como se o ninasse.

João Hernesto