26 de novembro de 2009

Capítulo I


- Eu não sou louco, não sei o que faço aqui.

- Ninguém aqui é louco, realmente. A gente só tem mais coragem de fazer o que tem vontade. Pudor, é essa a palavra. A gente não tem pudor, sabe?

- Acho que foi isso o que nos distanciou da sociedade. Quem te trancou aqui?

- Eu vim por conta própria.

- Eu também – mas não era verdade.

Sua família o levou à um daqueles hospitais de gente maluca. Disseram que não podiam cuidar dele como ele tinha de ser cuidado. Ele precisava, disseram, de remédios. Naquela clínica ele conseguiria manter o uso e se viciar às novas drogas.

- Estou me sentindo um pouco mal. Vou para o meu quarto.

Desde quando louco se sente mal?, pensou Francisco. De todo modo, ele não se sentia muito bem em seu quarto. Mas, como mudara-se para lá a pouco, não conhecia muita gente. Resolveu voltar para o seu quarto também. Apesar de que seu quarto o enojava.

Era frio e o quarto estava quente por causa das cinzas de cigarro misturadas às excreções que mantinha durante todo o tempo em que esteve lá. Além disso, um aspecto psicológico afetava também o aquecimento do quarto. Seu corpo estava quente e com raiva. Ele não estava triste, ele estava queimando, tamanha intensidade de profusão de emoções que habitavam seu interior.

A privada não estava funcionando. Depois de três dias que estava lá, não podia se sentar para defecar, as fezes misturadas ao xixi estavam quase tocando suas nádegas.

- Por favor, gostaria de dois recipientes com tampa e mais um maço de cigarros.

A enfermeira rapidamente trouxe o seu pedido. Eram dois recipientes de cor quase marrom, um bege bem escuro. Francisco riu-se. Achou bem pertinente a escolha das cores pela enfermeira. Como não tinha nada para pegar a bosta que produzira esses três passados dias, pegou com a mão. Quase vomitou, mas depois de um tempo achou divertido sentir a maciez que ela tinha. Além do mais, ele estava a pegar o que era seu. Começou a achar injusto dar suas fezes para qualquer esgoto sujo, foram produzidas por ele, devem estar com ele. Os o recipiente não eram tão grandes, logo estariam cheios também. Aí ele teria de achar um outro lugar para esconder seu mais novo prazer: acariciar e modelar seu cocô.

O outro recipiente era para guardar as cinzas dos cigarros que fumava. Ele havia parado antes de entrar na clínica, mas pediu à sua mãe que comprasse um pacote grande de cigarros para que pudesse passar o tempo e rir com os diversos jeitos como soltava a fumaça pela boca e pelo nariz. Naquela manhã, ele tentara soltar pelos olhos, mas não conseguira. Decepção.

O quarto era bem clarinho, de um jeito que o incomodava. Quando sua mãe resolveu pintar a casa daquela mesma cor que chamava de gelo (ele não entendia o porquê do nome), argumentou e brigou até conseguir que ela pintasse de branco – que, para ele, era a mesma coisa. Aquele branco, ou gelo, o fazia sentir louco. Aquela monocromia toda era desgastantes, por isso queria sair e fazer amizade.

Sua cama tinha um colchão duro, o que o fazia por vezes escolher dormir no chão, perto de suas fezes.

Na manhã do dia passado ele havia pedido à mãe alguns livros e discos que ela costumava ler e ouvir quando era garoto. O sentimento nostálgico estava muito presente. La não tinha trazido, disse brava: “E você acha que está num acampamento de férias? Vai se curar e voltar para casa trabalhar e trazer dinheiro para a sua família!”

Mesmo assim, ele lembrava do tom da voz de sua mãe acompanhando Chico Buarque cantar. Ela era um pouco desafinada, e sua mente infantil o fazia rir de vez em quando. E aqueles livros traziam um cheiro muito específico. Eles cheiravam seu quarto e os ratos que, vez ou outra, passavam sobre eles. Era um cheio agradável.

Não havia pia nenhuma, somente um balde com água. Ele se lavava no banheiro coletivo do hospital. Lá, ele via muitos homens loucos. Era interessante imaginar que, se ele era louco, muitos eram mais que ele. Um dia, um dos loucos lavou seus olhos com sabão e gritava de dor. Mas era uma dor bonita, ele ria e gritava. Francisco aprendia a ver a dor como arte. No banheiro, a cor branca predominava. Mas com uma diferença, entre os azulejos havia mofo e cheiro ruim. Era como se aquele ambiente favorecesse a loucura alheia, o que parecia ser irônico.

Naquela noite, Francisco foi dormir cedo. Antes de escurecer. Ele podia ouvir o futebol dos malucos. Ele sonhou com o Chapeleiro Maluco da história de Lewis Carroll. Ele o oferecia uma xícara de chá. “Que sabor?”, perguntou. “Cocô”, respondeu o Chapeleiro. “O meu favorito”, pensou, mas não disse. O chá estava ótimo, e, para acompanhar, havia uns biscoitos de sabor diferente. “De que são feitos esses biscoitos, senhor?”. “São feitos de cinzas de cigarro!”, disse o Chapeleiro, soltando uma gargalhada gostosa. E os dois riram e se embebedaram de tanto cocô com cinzas de cigarro.

Quando acordou, ainda na mesma noite, Francisco olhou para o recipiente que continha as fezes e se sentiu faminto. Dormiu de novo e sonhou que comia sua própria bosta, servida com creme de aspargos e vinho tinto suave. Foi uma delícia.No sonho, os pratos eram brancos, branco gelo. Aquilo o incomodava, portanto resolveu acordar. E acordou.


João Hernesto

Poema Sem Título (2006)


Este poema foi escrito por mim na época em que eu ainda achava ser poeta.

Eu agora me sinto sozinho,
Tudo o que tenho são minhas memórias.
E eu ainda consigo me lembrar do andar,
Da expressão ao me ver
E do olhar dizendo adeus.

Mas logo essas lembranças vão escurecer
E elas vão me mostrar nada sobre você.
E vai ser aí que não terei outra saída,
Então serei forçado a te esquecer.
E minha vida vai ter que continuar.

Leandro Augusto

25 de novembro de 2009

Ah, o amor... (decida que entonação dar)


O objetivo deste texto é o de responder à pergunta: O que é o amor?

O amor é um cara mau, que tem ataques e gosta de fazer as pessoas de bobas. Ele se finge de bonzinho e nos desarma. Aí ele nos deixa entregues à sua magia inicial para depois destruir nossos corações. Ele faz com que a gente enxergue o mundo menos ingenuamente e mais maldosamente. Ninguém é bonito, ninguém quer o nosso bem.

O problema é exatamente este: ele assume uma identidade humana, o que nos faz achar que o mundo é cheio de gente ruim e, inclusive, que você é o errado da situação. Isso implica que você começa a achar que você não foi feito para amar, que o amor não coube em seu coração e etcétera e tal.

O problema é que ninguém consegue ver com outros olhos: quem não é bom é o amor. Ele é o maior vilão dessa estorinha chamada vida. Ele é o cara que não deveria existir, ele é que não foi feito para ser amado.

Não caio mais nessas garras. Gostaria que você verdade. Gostaria que o amor fosse verdade, e não só poesia...

Leandro Augusto

24 de novembro de 2009

Quando uma coisa satura o que já era saturado, essa coisa fica insaturadíssima. Normalmente eu não gosto dessa palavra, “coisa”, acontece que eu conheço tão pouco dessa coisa que prefiro tratar desse jeito. Eu realmente estou farto. E mais, prefiro não registrar esse momento com um texto. Portanto, fim.

Leandro Augusto

22 de novembro de 2009

A invenção de Leandro Augusto


Antes de começar este texto, gostaria de abrir um parêntese. Analisemos a frase acima sintaticamente: se o termo “de Leandro Augusto” é interpretado como ajunto nominal, tem-se o significado de que algo foi inventado por Leandro Augusto (neste caso, ele seria o agente); agora se o mesmo termo é tido como complemento nominal, Leandro Augusto foi inventado (ou seja, ele é objeto da oração “Inventaram Leandro Augusto”). Ao fim do texto, nobre leitor, terás a resposta a esta questão: Leandro Augusto foi inventado ou inventou algo?

Essa noite senti meu coração batendo forte por uma espera que não sabia o que era. Quando eu era jovem, meus professores (religiosos como só) diziam que essa ansiedade é a falta de Deus. Não o é. Tentei me sentar para ouvir Mozart, que costuma sempre me fazer acalmar. Nada aconteceu.

Sentia vontade de me animar e me tornar novamente vivo. De sair e paquerar novos rostos. De tomar vinho com uma nova namorada e prometer amor eterno. Precisava sair, respirar ar da juventude atual. Queria sentir seu cheiro de perfume barato comprado com o salário do bico que arranjou misturado a cigarro e álcool. Queria tomar cerveja barata, fumar cigarros que custam menos de dois reais o maço. Eu sentia de viver perigosamente.

Saí e o máximo que consegui fazer foi fumar dois dos cigarros baratos e ir ao bistrô que sempre estou acostumado a ir. É um ambiente agradabilíssimo com ótimo atendimento e vinho de qualidade. Costuma tocar jazz, meu preferida - lembra-me ares europeus.

Comi algo e, enquanto fumava o segundo cigarro refleti. Afinal de contas, o que faz um velho senão pensar e repensar o passado. Mas a verdade é que minha crise foi maior, abriu-se ao João Hernesto como pessoa (não como personagem). É que esse meu multi-facetamento me mata. Canso de ser velho e ter momentos jovens. E não pensa tu, meu caro interlocutor, que trata-se simplesmente de nostalgia idosa. Eu sinto que não nasci para ser velho, nasci para ser jovem. Deveria estar junto àqueles jovens belos e cheios de vida. A luxúria deveria percorrer meu sangue de forma insaciável. As crises deveriam ser frequentes.

Foi então que Leandro Augusto me veio à mente.

Tudo o que precisava era um personagem que escrevesse as coisas belas de ser novo. Alguém que diga o quanto a vida é bonita sobre a perspectiva de alguém que tenha menos de duas décadas primaveris. Alguém muito mais inconstante e mais corajoso. Por outro lado, eu precisava que esse alguém fosse infeliz com sua situação e idade. Eu quero o anacrônico e o bipolarismo. Quero alguém que ame fazer parte dos anos noventa, mas que às vezes queira ter participado dos amáveis sessenta. A minha invenção vai ser egocêntrica e convencida. Logo, escrever o pronome “eu” como sujeito será sua marca registrada.

E seria ótimo ter alguém para contar história que fantasio em meus momentos infelizes. Então, se eu quiser falar que saí por aí e bebi até cair no chão e depois transei com um mendigo, eu culparia outra mente, não a minha. Isso é incrível! Todos os meus desejos mais tenebrosos e vergonhosos são, na verdade de outra pessoa.

E esse meu pseudônimo vai criar alguém como eu, alguém que ele quer ser. Como ele quer ser mais velho e ter a sabedoria da idade em si, ele vai procurar alguém para botar a culpa quando resolver escapar do caos juvenil. Portanto, eu serei, é claro, uma criação igualmente. E ele escreverá minha vida toda, desejando ser a sua. Ele escreverá como João Hernesto sem usar o pronome “eu” como sujeito, porque o João Hernesto, para ele, é pouco egocêntrico.

Agora a dúvida me vem, quando chego em casa. Esse eu-lírico deve ser masculino ou feminino? Se for feminino, não poderá ter meu lado agressivo. Ele deverá ser poético e sensual. Ela chamará atenção de todos os homens por onde passa. Ela será a destruidora de corações. Mas quando se apaixona, ela cairia da megestosidade tronal, e se entregaria de corpo e alma. Por outro lado, se fosse homem ele pode ser bem mais inconstante e pode ter uma mente quase psicopática. Ele seria daqueles garotos introvertidos, cheios de sentimentos contidos. Ele escreveria sobre tudo o que o aflige. Ele não faria sucesso entre as mulheres, seria somente o lado inteligente e racional. Não se apaixonaria, pois não acredita em sentimentos que não oferecem futuro garantido, como uma universidade.

Ele tem que ser mulher, pois quero me relacionar com ela. Por outro lado, não saberia como descrever o prazer feminino, haja vista que nunca tive uma vagina. (ainda bem) Ele precisa ser homem, isso já é fato. E eu posso misturar pontos femininos e masculinos nele, para obter algo que me atraia mais para escrever. E eu vou me relacionar com ele, e será muito melhor do que com qualquer mulher que eu tiver, porque ele sou eu. Ele vai me fazer sentir em casa, vai me fazer gozar e querer mais do que me tem a oferecer.

E foi assim que Leandro Augusto virou minha invenção, e eu virei a dele.

João Hernesto

15 de novembro de 2009

O começo do fim ou o fim (escolha)


Este texto tem o propósito único de responder a um e-mail. Ele vai ser postado no blog, por motivos que desconheço. Não vai ser neste texto que usarei minha polidez, vomitarei, como tanto gosto.

Eu estou a me acostumar com a ideia de que eu tenho um poder, mínimo que seja. Hoje eu sonhei um sonho bem doido. Primeiramente, não foi o tipo de sonho que se sonha a noite, eu sonhei de dia, para repor o sonho da noite. Acordei sufocado.

Eu estava no instituto onde minha faculdade é lecionada. Você também. Estávamos com amigos nossos. Amigos meus, amigos seus. Os seus amigos me desviaram atenção de você – eu estava te mantendo por perto, porque sabia que você estava prestes a fugir, como um cão foge quando tem medo e ninguém é capaz de segurá-lo. Você sumiu naquele momento. Passei a te procurar e me encontrei, nessa busca, em uma terra estranha. Uma terra que me fornecia muita informação visual e sonora. Eram como disfarces, mas eu não desistia da ideia de te procurar. Na verdade eu não sabia o motivo pelo qual te queria comigo. Não me lembro se era ciúme, zelo, amor, necessidade ou todos esses. Eu só queria. Por fim, eu não te achei e fiquei com aquele sentimento de perda – perda no sentido de se perder uma batalha.

Não levei a sério, mas interpretei minimamente. Quer dizer, porque é que eu te queria por perto? Para que eu te amava, por capricho? Para poder dizer que tenho alguém do meu lado? Será que eu te amo mesmo? Será que vale a pena me casar com você todos os dias, mesmo querendo mesmo em somente metade deles?

Hoje você me mandou este e-mail. Maldito e-mail. Ele me faz ver coisas com clareza. Faz-me querer acabar logo com meu sofrimento, ou começar a sofrer para ser feliz de novo. Ele me fez querer chorar. ESSA MERDA DE E-MAIL, RICARDO, ME FEZ NÃO CONSEGUIR MAIS ESTUDAR. Eu preciso tanto... Sabia que não devia contar com esse tal de amor.

Leandro Augusto

2 de novembro de 2009

Desconexão de assuntos / Insanidade / Artaud

Este texto terá três títulos, podes escolher o de tua predileção. Não repara tamanho caos e multi-facetamento do mesmo, mas cada parte foi escrita em uma hora diferente. Por exemplo, o que estou-me a escrever, escrevo depois de escrever o antigo terceiro parágrafo.

Quando cheguei em casa, o sol estava a iluminar o telhado da vizinhança. Mas parecía-me tudo tão escuro. Eu sentia a velha febre a voltar. Era uma pena que não se tratava de uma febre qualquer, era a febre do desespero de ser adolescente por uma eternidade tão infinita...

Lembrei-me de quando tinha crises em que me achava incabível a este mundo, achava-me louco. Acho-me louco. Quase chego a crer ser um fato.

Há uns dias eu fiz um teste pela Internet. Desses que as garotinhas fazem em revistas teen. Sempre achei patético, mas adorava fazê-los com as revistas de minha irmã. De todo modo, uma amiga pediu-me que fizesse. “Que louco é você” era o nome-título, e confesso que me chamou muito a atenção.

Ontem eu andei feito cachorro de rua – não sei quanto cachorros de rua andam, mas imagino ser bastante, tanto quanto eu ontem. Senti-me louco e resolvi atravessar duas cidades usando meus pés e a chuva como atrito. Andei, chorei, cantei e me encontrei com minha verdadeira paixão: o verde das montanhas ouropretanas. Sei que é um assunto muito reiterado (diria redundante) falar sobre a natureza, mas é tudo o que me faz bem e mal ao mesmo tempo. Ela é minha filosofia, é só nela em quem acredito fielmente.

Quando era jovem, cume de meus dezesseis anos de América do Sul (como na canção de Belchior), dizia-me louco. Talvez por terem-me colocado à cabeça tal fato. Talvez por esconder o que sinto e resolver de uma vez vomitar pensamentos. Dizia-me bipolar. Na verdade, eu queria mesmo sê-lo. Louco, eu digo. Li que a esquizofrenia mostrava seus primeiros sintomas em pessoas de duas décadas. Sonhava com o dia em que chegasse minha vez de ir ao sanatório e me juntar àqueles que não veem mal nas coisas.

O teste revelou-me um nome próprio esquisito e uma frase que me atraiu. Vi-me lá, simplesmente senti-me aquele louco famoso não para mim. Para ser sincero, lembrei-me de minha adolescência, e como eu me tornara o que sou hoje. Acredito mesmo que tornei-me tudo isso graças à minhas crises existenciais, aos meus vômitos e às pessoas que me ouviram gritar. Eu era muito escandaloso, e queria mais. Queria atenção.

É engraçado eu lembrar de uma canção de Belchior agora, porque não foi ele quem sumiu?

Pois bem, eu queria fugir e me refugiar em qualquer lugar que me abrigasse as lágrimas. Eu digo porque ele sumiu, eu queria poder fazê-lo igual. Não pude. Hoje eu tinha marcado um encontro com alguma montanha ouropretana para ler, escrever, chorar e esquecer que há pessoas que me cercam. Não fui. Ainda não sei por quê, mudemos de assunto novamente.

A sociedade contida num sanatório é demente, óbvio. Mas exatamente por sê-lo que eu não seria. Ou seja, há uma sociedade que me aceita, porque ela aceita todos! Quanta comunhão, isso é maravilhoso. Se eu corresse gritando por ajuda pois Hannibal Lecter esta a me caçar com uma espingarda estilo desenhos da Warner Brothers, ninguém me iria impedir. Além do mais, as camisas de forças, particularmente, me interessam. Remédios fortíssimos também. Sei que parece muito desequilibrado de minha parte, mas sempre acreditei que em todos habita uma certa insanidade. O fato de eu escrever não me faz mais louco que tu. Vê bem, não quero parecer sensacionalista e queredor de atenção, só quero escrever sobre algo que sempre quis, mas sempre fui “polido” pelos próximos.

Dizem que quanto mais você segura um louco, mais você o deixa louco. Porque, quando tudo vem à tona, tudo vem de forma intensa. Talvez isto esteja acontecendo comigo. Talvez são meus primeiros sintomas de esquizofrenia. Que felicidade!

O problema é que aquele teste me deixou tão fascinado por aquela frase, que fez-me esquecer alguns dias depois. Ontem a frase me voltou. “Não quero que ignorem meus gritos de dor, e quero que me escutem.”, ou algo do tipo. A questão que ronda esta frase é que Antonin Artaud tomava ópio, droga na qual era viciado. Durante sua vida sofreu dores fortíssimas, e tomava o remédio para esquecer delas. Ele escreveu peças teatrais, ensaios, contos, crônicas, poemas e, suas favoritas, cartas. Dizem que ele sente-se mais à vontade com um interlocutor. Ele também foi ator. De certa forma, as pessoas não creditavam muito em seu dom, porque Artaud era louco, e, na sociedade dos normais, ninguém acredita no que um louco escreve ou faz. Ele morreu sentindo dor, ao pé de sua cama em um sanatório que provavelmente ficava na França. “Não quero que ignorem meus gritos de dor, e quero que eles sejam ouvidos.” Fazia sentido para mim antes, mas agora faz sentido na vida dele também.

Não tenho sentido facilidade em escrever este texto, confesso. Mas acredito nessa ideia louca que me deu. Acredito e confesso também que, primeiro tu deves estar a sentir dificuldade também para lê-lo, e segundamente que a intenção não é mesmo facilitar tua leitura. É claro.

Li uma história que já devo ter escrito em algum de meus textos. Quem conversa comigo já deve tê-la ouvido de meus lábios. Um rei e uma rainha eram respeitadíssimos em seu reino, seu pequeno reino, uma vila. Enfim, isso não interfere no destino das personagens. Na vila havia duas fontes d’água de onde os moradores tiravam água para suas necessidades: uma grande, que nutria a população e uma pequena, dentro do castelo, para o rei e sua esposa. Um dia, a água da grande fonte foi contaminada e isso tornou a população do reino louca. Louca no sentido de insanos mentalmente mesmo. Somente o rei e a rainha não haviam enlouquecido, por não terem bebido da fonte contaminada. A população fez uma caótica revolução para tirar a família real do poder já que não estava mais acontecendo entendimento entre ambas as partes. Imagina tu, os “não-loucos” foram considerados como “loucos” pelos “loucos” porque era minoria. Ninguém quer alguém para comandar uma sociedade sendo essa pessoa louca. A saída foi o rei e a rainha beberem da fonte contaminada e tornarem-se loucos juntamente. Todos foram felizes para sempre, pois trata-se de um quase-conto-de-fadas. Mas, afinal de contas, quem é louco e quem passou a ser? Relatividade, como dizia Einstein.

Então, eu resolvi me enclausurar, mas não cumpri minha própria promessa. Artaud me veio à cabeça e resolvi pesquisar sua vida e morte. Sua loucura me inspira gritar por aí dizendo que sinto dor e que sou louco também. Sua morte inspirou filósofos/sociólogos/antropólogos como Deleuze e Guattari e Foucault a escreverem textos como o Anti-Édipo e a História da Loucura. Artaud me inspirou a escrever este texto sem sentido e trazer um pouco de sua loucura, que agora é minha, para meus textos. Sua arte me inspirou a fazer arte.

Mais do que sua arte, minha dor. Minha dor me inspirou a fazer este texto que tu lês; não me inspirou a gritar, mas ainda vai.

Como trata-se de um texto louco, acabei de resolver usar qualquer dos parágrafos acima como conclusão. Cabe a tu descobrir se este já foi escrito ou será adicionado assim que terminar de escrever esta palavr

Leandro Augusto

26 de setembro de 2009

Das Crenças

Ele se sentou naquele chão por onde pés que habitaram a terra no século XVII haviam passado sobre. A noite estava um bocado fria, mas estava propícia para a filosofia e para religião. Ele já sabia que aquela velha história de “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança” era papo furado. O homem cria – não criou – seu próprio deus à sua imagem e semelhança; ninguém acredita no que não lhe faz sentido. Ninguém ora, reza, ritua sem acreditar que aquilo seja a escolha certa, que seja exatamente aquele deus que lhe cai bem.
Ele olhou à sua volta e enxergou, dessa vez ele enxergou. As folhas das árvores cantavam e faziam um som engraçado quando se misturavam ao coaxar dos sapos. Os pássaros não estavam lá, mas ele os via plenamente dormindo e descansando em seus ninhos construídos com natureza. Ele enxergou o verde brilhando, aquele mesmo verde de Jorge Mautner, só que agora fazia sentido aquela linguagem poética toda. Viu o sereno pedindo licença para entrar; a noite dizia: “seja bem-vindo”.
Ele enxergou a Lua. Lembrou do que tinha lido. A Lua é a deusa, ela é a responsável pela criação desses elementos que havia misturados naquela noite fria e confortável. Ela – a leitura, não a lua – o fez abrir os olhos para enxergar as salamandras e os duendes. Eles são os guardiões, eles são aquela energia negativa que alguns de nós sentimos quando gastamos horas no banho. Esses guardiões da natureza e dos quatro elementos são quem nos dão o remorso de usarmos a natureza como matéria-prima para sustentarmos nosso gozo de um mundo capitalista, para sustentarmos nosso vício de conforto – o caminho mais curto para ele.
Ele enxergou a Lua.
Ele enxergou o Sol, lá no fundo. Ele esperava na espreita a hora de se encontrar com sua amada; ele viu o sexo dos dois um pouco mais tarde, quando eles de encontraram. Ele viu a Lua prenha, ele viu o Sol a penetrando. Ele enxergou tudo isso.
Enxergou as estações do ano mentalmente. Porque a ciência nos faz pensar que tudo acontece por causa de sua explicação pautada no empirismo?, pensou. Porque os elementos não podem explicar? Porque a Lua e o Sol não podem ter relação direta com isso? Se eu quiser falar de Tor, com seu machado, eu posso? Se eu acreditar que não chove no inverno porque Tor está sem seu machado nessa época, eu posso? Permitir-me-ão?
Ele pensou tudo isso.
Quero fundamentar minha própria tese de vida. Minha religião, minha crença maior. Quero justificar a minha existência com mitos que fazem todo o sentido só para mim, para mais ninguém. Afinal, quem é que disse que a bíblia faz sentido? Nenhum para mim. Quem disse que o Corão é sensato, ou que Kardec tinha razão? Ninguém pode afirmar que sua religião é a certa, apesar de muitos o fazerem. O que importa é crer que há algo que é maior e que está por trás das coisas desse mundo. Espiritualização é a resposta.
Ele pensou em tudo isso.
Depois, ele enxergou a Lua e o Sol, numa penetração esplêndida.

João Hernesto

Secos e Molhados e sentimentos a que me remetem

Essa é a única frase, propriamente dita, deste texto!

Sono. Adormecer. Sonhar. Flautas. Vozes. Secos. Molhados. Alice. Imediatamente. Agudos. Gritos. Berros. Primaveras. Dentes. Alice.

Sono. Acordar. Berros. Primaveras. Alice. Imediatamente.

Alice. 2008/2. Calouro. Da vida. Alice. Mentora. Da vida. Música. De qualidade. Poesia. De sono

Acordar. Sono. Agudos. Alice. Mentora. Berros. Filosofia. Alice. Mentora. Sono.

Preciso. Acordar. Para. Escrever. Um. Texto.

Fim. Sono. Silêncio. Acordado.


Leandro Augusto

13 de agosto de 2009

Os sons de Mariana

Constato primeiramente a natureza e o propósito deste texto: poética, simples e puramente. Portanto não espere você, caro leitor, um texto jornalístico propriamente dito; espere, sim, um poema difícil de ser interpretado.Mariana é um lugar bem peculiar - falemos primeiro de um modo geral. Para as pessoas que não sabem, eu não sou daqui, e não tenho muito orgulho em falar que vim de uma cidade grande. Na minha cidade (não no sentido de posse) a característica mais marcante: caos. Há muito o que subentender à essa palavra, tal como pontualidade, esquema, horário, atraso, horário, encontros, trabalho, horário, escola, faculdade e horário. Já Mariana eu vejo uma palavra que também subentende muitas outras, mas deixo livre para o meu destinatário fazer sua interpretação à sua maneira: paz. (ponto)Se pensamos no caos de minha cidade, imaginamos logo de cara um só som: buzinas. Sim, basicamente. Acontece que esse som aliado a barulho de motores de automóveis e motocicletas remete-me a um cheiro específico: fumaça automobilística. Desculpe você a sinestesia.Agora analisemos paz. Você deve estar a pensar nalgum som da natureza e dos campos, também é uma visão certa. Mas para mim, aliado ao cheiro de verde (a boa e velha sinestesia), Mariana me vem com um som de maracatu. Mariana é ouvir as aves (dos galos que são meus vizinhos aos pássaros que cantam em meu telhado) e descansar. Mariana é andar pela rua sem pressa no caminhar e na expressão facial. É não franzir a sobrancelha por algo que não seja confusão por tentar decifrar algum som. Andar por Mariana é estar pronto para ouvir as aves que ouço em casa, é ouvir os macacos do jardim do ICHS, é ouvir o barulho do vento da Gomes Freire, é ouvir um ensaio de maracatu. Olhar para as montanhas que Mariana nos permite é estar pronto para ouvir maracatu de fundo. Não é maravilhoso?E falando em som saído dos humanos, andar por Mariana durante a noite é estar pronto para ouvir o som dos carros tocando funk e continuar andando para ouvir a musiquinha ao vivo de bar do Casarão e do Taberna. É andar mais um pouco e ouvir um blues no Scoth. É passar na praça Minas Gerais para assistir ao show da Fernanda Takai ou da orquestra da animada polícia da cidade no Festival da Vida. É querer ouvir Angu Feijão e Couve, é se permitir ouvir um samba e um axé no carnaval. É ouvir alegrias.Morar em Mariana é querer sinestesia.Espero que o leitor nativo tenha se encontrado nesse texto de um mero estudante vindo de uma cidade grande e acostumado com rotina caótica. Estudante esse que mora em Mariana por um ano, mas que já ama as sensações mistas que ela lhe propõe. “E quem há de negar que esta lhe é superior?”

Leandro Augusto

1 de agosto de 2009

Do crescimento pessoal e da interação com o mundo profissional

Eu não sei quem foi que disse que eu sou corajoso. Não o sou! Às vezes eu sinto vontade de voltar no tempo para ter 12 anos de novo. Naquele tempo eu não tinha preocupações, só devia fazer minha única obrigação: estudar.
Tem dia que eu sinto que preciso de colo. Tem dia que eu simplesmente quero deixar tudo na minha nova vida, na minha vida de gente grande, e só ser criança. Só chegar em casa e dizer: “Mãe, me dá dinheiro para eu comprar um doce na esquina?” Administrar o próprio dinheiro é muito difícil!
Crescer é bem difícil, aliás. Trabalhar e mudar de emprego é difícil. Não devo ter raciocínio lógico o suficiente para conseguir comparar a situação em que me encontro e a situação em que poderia me encontrar. Aquele clichê não me sai do pé do ouvido (não troque o certo pelo duvidoso), mas por quê?!
Hoje eu quero ser criança, isso é tudo. Há muita mensagem subentendida para mim por trás dessa frase.

Leandro Augusto

29 de julho de 2009

“(…) how much I love you.”


Então ele fechou os olhos.
Eles se deitaram na cama de solteiro, como costumavam fazer durante as noites e as manhãs que podiam passar juntos. “Eu senti sua falta”, disse. “O amor não se descreve, sente-se” o outro respondeu.
Eles deitaram-se um de frente para o outro e, como quem interrompe algo, suas pernas se encontraram, interrompendo, assim um olhar que parecia ter durado uma eternidade no relógio dos amantes.
Pernas, pés, mãos, braços, troncos, olhos, lábios, línguas, bochechas, dentes, unhas, barrigas, umbigos, pênis, nádegas eles eram. Toque eles eram.
O que estava à esquerda se levantou mostrando, assim, um corpo de praia. Um corpo de garoto crescido. Ele subiu em seu corpo, e manteve os lábios não muito longe dos outros lábios. Eles se olhavam, só queriam se olhar. Agradeciam por poderem se olhar naquele momento.
“Amo-te”, disse o de cima. E o de baixo não respondeu nada verbalmente. Ele disse com os olhos. Disse com um leve sorriso que deixou aparecer.
Uma lágrima caiu sobre seu rosto, de modo que ele não expressava dor alguma em sua face, não expressava força nem mesmo friccionava as maças do rosto ou as sobrancelhas. A lágrima simplesmente caiu, como cai um pássaro quando está a aprender a voar. Caiu assim como cai fruta madura do pé, pesada. Essa lágrima disse “Eu te amo”.
Pouco depois um som começava a sair sem muita força de sua boca emocionada: “Seu diabo”, sussurrou. O de cima sorriu e depois riu. “Eu senti sua falta”, “Eu também senti a sua”.
“A sua carta me fez chorar”, “Também me fez”.
Nesse momento ele abriu os olhos e notou estar sozinho novamente. Secou a lágrima que correra de seu rosto e ele não percebera. Aconchegou-se em sua cama de solteiro.

João Hernesto

24 de julho de 2009

Quem são os Beatles?


- Ainda bem que voltamos, que não entramos em casa. Pelo menos a inspiração veio que nem vem o cachorro quando seu dono chama – me pareceu um comentário totalmente inútil, mas foi pertinente, já que resultou nesse texto que o leitor (vossa senhoria) está prestes a ler.
As ruas estavam bem cheias. A praça da cidade nem se fala. Mal posso arriscar contar quantas pessoas estavam presentes naquele show de meia tigela. Nós havíamos acabado de deixar o teatro e resolvemos infiltramo-nos em meio à plateia assídua. Ele escutava com suas mãos na cintura. Prestem bem atenção, as mãos na cintura, mas os pés estavam acompanhando o ritmo. Um simples e mero estudo de linguagem corporal preveria que aquela cara de insatisfação e de blasé não era real, não expressava o sentimento contido em seu peito. Ele gostava daquela bandinha que fingia tocar Beatles. Quem são os Beatles para eles?! Aquele vocalista com pinta do que na minha época chamávamos de CDF, ele não devia conhecer música alguma que não fosse Twist and Shout.
- A próxima também é dos Beatles – ele disse. “Well, we danced through the night”, dizia. Na verdade, parecia ser o único verso que o panaquinha sabia cantar em inglês, e o Leandro cantava a música toda como se realmente conhecesse Beatles.
- Você não conhece realmente Beatles, certo?
- Mas é claro que sim. Adoro! Você não?
Os besouros, como gostávamos de chamar eu e meu irmão, eram tudo para nós. Eram a melhor banda, são os melhores em toda a minha vida. Eles me mostraram a atitude do bom e velho roque em rou. Eles e Mafalda cresceram comigo. Agora, quem são os Beatles para a geração dos 90 e do 00? Quem são os Beatles, se não forem quem eu sei que são? Que eram. Não, “que são” mesmo.
Depois de ele mostrar seus dotes linguisticos, que (diga-se de passagem) eram bem melhores do que os do vocalista, eis que reparo em uma garotinha, por assim dizer, a olhar o meu rapaz. Ela o olhava, e admirava seus dotes linguísticos, sua expressão blasé e ao mesmo tempo interessadíssima, e sua beleza, é claro. A sua beleza a inspirava o olhar. Franjinha batendo no olho, a ponto de prejudicar a visão. Além da bela franja, o cabelinho curto no pescoço, enroladinho para fora, só nas pontas. Ela era baixa, mas usava salto alto, para ficar mais baixa, obviamente – nenhum homem desiste da idéia de não reparar nas mais baixas que colocam salto estrategicamente para beijar algum pretendente. Ela o olhava e esperava olhar de volta, mas ele estava vidrado, de um jeito desinteressado, na banda medíocre a cantar Beatles mediocremente. Reparei que esse jeito desinteressado é a nova moda entre os novos seguidores do roque em rou.
- Vamos comer lanche de trailer?
- Claro, vamos também morrer de colesterol?
- E ainda pagar por isso! Quanto benefício, meu deus.
Resolvi aceitar, mas deixando claro que não havia-me esquecido do convite que o fiz para tomar vinho comigo. Ele não havia-se esquecido, ainda bem.
Quando saímos do teatro, resolvemos passar em sua casa para buscar uma blusa de frio. Mas não entramos, ele simplesmente não quis mais. Bem típica inconstância de meu amigo. Depois ele disse que serviu de inspiração. Não sei se acredito.
Depois de entupirmos as veias de óleo Liza, fomos finalmente para minha casa; ele cumprira a promessa depois de muito tempo! Na verdade já faz um tempo que o Leandro me deixa de lado para ficar com seu amigo novo, sua prioridade. Ele o chama de luz, desculpe, na verdade é Luz.
- Este vinho não é dos baratos, mas é muito bom também – senti sua cara de decepção.
Aliás, uma ótima qualidade dele é a expressão facial. Sempre me diz tudo o que preciso saber e ele não contaria por delicadeza e por cordialidade.
Depois de ele começar a embananar as palavras, resolvi colocá-lo contra a parede:
- Quem são os Beatles?
- Os Beatles? Porque essa pergunta agora? – ele fez silêncio a favor de que eu esquecesse a pergunta, como não esqueci ele prosseguiu - Bem, os Beatles são uns carinhas aí que tocaram nos anos 60, eu acho. Minha mãe sabe dizer exatamente. Ela adorava dançar ao som deles. Na verdade eu fui descobrir os Beatles além do Twist and Shout – eu sabia que era só isso o que ele conhecia! – aqui em Mariana. Um amigo estava ouvindo uma fita tape deles. Mas quem é que ouve fita tape em 2009? Era 2008 na época, para falar a verdade. Talvez faça mais sentido agora. A questão é que ele estava ouvindo e eu resolvi ouvir. Ouvi, gostei, e hoje eu sou fã!
- Fã?! Quem são os Beatles para você, menino?!
- Esse é do tipo de pergunta para não se responde, ?
Fiz que sim com a cabeça.
- Bem, está bem tarde e amanhã eu gostaria muito de acordar cedo.Vou caminhar com um pessoal em uma trilha aí... Vai ser bem legal, eu espero.
Eu abri a porta e despedimo-nos.
Depois que fechei a porta, liguei o toca-discos e botei um bolachão para tocar. O que é que era? Beatles!
Deixei o humor para o final do texto, caro leitor. Quando abri a porta no começo dessa noite era ele. “Vamos sair?”.
- Vamos! Claro! Vamos ao banco?!
- Na verdade eu estava pensando em um programa mais... interessante. Vamos ao teatro? Ouvi dizer que a peça é ótima!
- Vamos.
Ele me esperava buscar a carteira cantarolando uma música que me lembrava Twist and Shout, mas ele não devia conhecer essa música.
As ruas estavam bem cheias. A praça da cidade nem se fala. Mal posso arriscar contar quantas pessoas estavam presentes naquele show de meia tigela. Nós havíamos acabado de deixar o teatro e resolvemos infiltramo-nos em meio à plateia assídua.

(...)

João Hernesto

21 de julho de 2009

Filosofias acerca da Luz

Mariana, madrugada de vinte e dois do mês de Julho de 2009. Início: 01:01. Término: 01:46.
Gostaria de fazer uma carta grande e vistosa. Uma carta bonita, mas você pode não ler, não gostar e achar baboseira. Vou filosofar um pouco, espero chegar em algum lugar. Honestamente, não sei se você vai ler, não sei se vai gostar. Escrevo só como um mero protótipo de presente para esse dia que é para nós a celebração de um mês de namoro conceituado.
O amor. Já devo-lhe ter falado coisas do tipo. Visto que meu ponto de vista tem mudado bastante, quero deixar bem delimitado minhas crenças hoje. Sendo eu inconstante, elas podem mudar totalmente amanhã. Portanto, está escrito, está comprovado.
O amor. Eu acredito que nós viemos ao mundo com um intuito, o de tornarmo-nos espiritualizados. Ponto. Essa espiritualização (não confundamos espírito - obra etérea e concretizada da Grande Mãe e do Deus Tríplice - de alma - simples passagem de nossa existência minimalista por uma vida dentre muitas que temos. que passar) é atingida através do único sentimento (não estado emocional, o que é bem diferente, a meu ver) que os seres humanos sentem igualmente e de forma intensa homogeneamente: o Amor. Deixo o sentimento em letras maiúsculas a partir de agora em meus escritos com o intuito de santificar esse sentimento. Para mim, esse sentimento capacita-nos eternizar o amor divino. Esse sentimento é a eternidade de qualquer espírito. Ele é o propósito de nossa existência. Ele é o único caminho para nossa espiritualização.
Nós não somos epiderme, tecido ósseo, cartilaginoso, órgãos e sangue. Não somos cérebro, não somos sequer pensantes. Nós temos apenas um espírito que nos convida à busca constante desse Amor. Nós somos almas de um mundo animado e dotado de energia e devemos buscar outras almas. Nós não buscamos corpos físicos, buscamos almas. Buscamos nossos vestígios anteriormente tocados que ficaram em outras passagens pela Terra.
Nós passamos por aqui muitas vezes e, a cada passagem, cativamos almas novas e antigas. Em cada nova passagem, procuramos encontrar essas almas cativadas. Achamos, obviamente. Quando encontramos aquela pessoa que possui um círculo de energia brilhante, nós só achamos explicações em vidas passadas. Não vejo outra explicação que melhor denonime tal sensação. Não vejo outra explicação convincente que não seja supersticiosa.
Caminhei muito e perambulei muito até poder me ver livre de tudo o que já aprendi nessa minha imensa vida para acreditar que nós somos parte de um mesmo mundo. O Anima Mundi só nos é possível e aceitável quando acreditamos no Amor como grande e única virtude que nos é posta. Ele é como um presente dos deuses. Ele é o tudo e o nada. O verdadeiro Alfa e o verdadeiro Ômega. Eu persisti na ideia de simplesmente morrer e me encontrar com Deus para ele dizer que minha vida toda foi baseada numa dicotomia e num maniqueísmo imposto por parâmetros prescritos por alguém de péssimo gosto e de imaginação limitada.
O Amor é a busca. Não há outra palavra. Nós somos ansiosos por alguém que venha-nos completar. Não sei se acredito mais em almas gêmeas e em Outras Partes. Não sei se acredito em divisões espirituais no mundo das ideias ou na Summerland. Acredito no que me é palpável. O Amor me é. Ele é a razão pela qual eu escrevo tudo isso, que provavelmente, caro leitor, diga nada para você. Esse texto não é uma crônica nem é uma carta. Ele é uma organização de meus pensamentos. Eles estão sempre mudando, mas, hoje, resolvi tentar juntar o quebra-cabeças da minha cabeça.
O que eu quero usar como conclusão: essa Luz, eu vejo delimitada quando eu olho para você. Ela passa pela sua cabeça e te contorna o queixo e pescoço. Ela contorna o tronco, membros, e pés. Ele o contorna e me mostra que, não importa a explicação religiosa ou lógica que os homens tentem inventar. Ela é a razão de minha existência hoje. Ela é a minha família, ela é meu destino.
"Eis o segredo que ninguém sabe. Eis a raiz da raiz. O broto do broto, e o céu do céu de uma árvore chamada VIDA. Eis o milagre que mantém as estrelas à distância."
Já cheguei recitar-lhe parte desse poema de Cummings. Escondi, na verdade parte dele: esse trecho que acabei de escrever. Duas razões tive eu: 1) achei que não fosse entender a profundidade dessas expressões aparentemente tolas; 2) não me senti pronto para dizer esse versos que só ousei dizer à minha mãe.
Mas hoje eu senti a sua Luz. Precisamente e sinceramente, não cheguei a notá-la enquanto o tinha em meus braços. Senti sua alma, senti seu espírito, mas não pude identificar a luz. Hoje, quando eu ouvi sua voz rouca ao telefone, eu enxerguei perfeitamente essa Luz. E, lembrando dos momentos em que estive junto de você, sempre vi essa Luz. Só enxerga quem tem olhos. Isso faz muito sentido.
Na verdade, de modo geral, o texto não faz sentido algum. Mas acho que parei de acreditar em sentido, formulei e tenho formulado meu próprio jeito de ver a vida. Meus próprios parâmetros de verdade. Isso para mim é verdade. E poético, não acha?
Eu te amo não diz tudo. Eu te amo é uma expressão inventada pelos poetas para tentar dizer o que é a tal da Luz. Prefiro dizer: hoje, meu amor, você é a minha luz!
(a data como cabeçalho me serve para ler depois e ver quão insano estou sendo nessa noite, ou, entretanto, quão sensato estou tentando ser/parecer)

João Hernesto

15 de julho de 2009

Sentido

Estou em mais uma daquelas dores de conhecimento. Daquelas em que ouvi um simples verso sem sentido algum de Secos e Molhados e senti que deveria escrever. Hoje eu estou ouvindo um álbum chamado Stop Making Sense, de Talking Heads – hoje tentei encontrar a resposta para uma pergunta acerca dessa banda com um amiga.
Essa dor dói gostoso e desesperador. Estou faminto no sentido metafórico e no literal. Eu quero dividir essa insegurança com alguém. Quero olhos para me olharem daquele jeitinho que mãe dá.
Quero ler mais, entretanto sinto muito mais medo do que tinha antes de ler. Quero descobrir este mundo que parecia esperar por minha maturidade. Quero parar e voltar no tempo, no tempo em que eu não acreditava (isso foi há quase um dia). Gostaria de chorar, mas não posso, no sentido de habilidade. Quero que essas músicas não coubessem perfeitamente nesse momento sufocante.
Para começar, eu acordei e aceitei fiz uma proposta por transmissão de pensamento. Tomei um banho demorado - para que pudesse lavar todas as partes de meu corpo, ora ensaboando, ora perfumando e hidratando. Senti-me acordado. Comi bastante para continua a sentir satisfeito depois de quatro horas de trabalho. Senti vontade de alguma substância química que me era clara, e já não é mais.
Senti aquele impulso de procura, como um instinto sexual. Li sobre a religião da oração que fiz ontem, no sentido me ver adaptado em seus ensinamentos. Quanto tesão que senti. Como é bom descobrir e ser descoberto. Como é bom não saber o que encontrar e saber que vai gostar. Cheguei a pensar que não aconteceria esse sentimento de dor de conhecimento em mim.
Teoria do Caos, conhece?
Tudo o que li só me fez sentido aplicado à vida que vivo no momento em que vivi depois de conhecer aquilo, é muito claro. Era como se me dessem óculos super-mágicos através dos quais eu passasse a enxergar o mundo à minha volta – esse mundo que é sempre igualzinho – como um novo mundo.
Primeiro eu senti um aperto no coração porque senti que minha proposta não fora aceita, ou ainda pior, ela tivera sido esquecida. Dizem que o sentimento contrário ao amor é a indiferença. Isso é bem verdade. Porém agarrei-me à esperança da noite, afinal o dia não chegara ao seu fim.
Depois uma certa falta de consideração da parte de meus amigos no sentido de não me ouvirem as felicidades e medo em relação à descoberta. Além disso, aquela falta de paciência e tolerância dos mesmo para comigo. Isso dói não por causa de umas leituras, dói mais por causa delas, obviamente. Senti-me todo observado por estranhos e dilacerado pelas pessoas que mais amo.
Há vinte minutos (antes de começar a escrever este texto), eis que me bate a luz. “Hoje eu começo a estudar magia”, disse eu. Isso me faz contra a parede, é só por isso que eu não ganhei aquele sim que minha proposta estava a esperar. É claro! Maldita verdade. Isso me pareceu doer bem mais que a indiferença. Doeu também o ciúme que senti ao ler coisas que o outro escrevera. Desprezo aliado à traição é uma bosta, assim, no sentido de fezes mesmo...
Agora eu abro a caixa de meu e-mail. E não é que vejo três (não apenas um) e-mails?! Malditos que não me deixavam em paz o dia todo.
Agora eu estou feliz. Vou ler mais! Acenderei uma vela e mais outro incenso - dessa vez não um para calmaria, para proteção.
Hoje eu me descubro um pouco mais wiccan, e, obviamente, mais apaixonado. No sentido de mudança. No sentido do sentido.

Leandro Augusto