4 de julho de 2011

"Jesus de Nazaré e os Tambores do Candomblé"

Não, obrigado. Recuso o que me oferecem. Sinto minha barriga cheia. Cheia de nada. Cheia de ideias caóticas. Cheia de eco. Sinto meus ouvidos recusando o som que emana do exterior. Sinto o exterior implodir meu corpo. Sinto o corpo de outrem se afastar. Sinto-o entrar. Sinto-o sair. Sinto-o explodir. Não o sinto.

Parece-me que tem pelo menos duas épocas ao ano em que o humor das pessoas se altera. E se altera muito bruscamente. Provas finais, entrega de relatórios. É tanta coisa. E isso vai se misturando com nossos problemas pessoais. Vai nos deixando meio sem força. Parece-me que ficamos sem força em meio ao caos. É como se o caos fosse algum tipo de Criptonita.

Ataque de lobo mau. Frases curtas. Ideias longas. Frases conteudística. Conteudístico é meu coração. Mas aí me bate uma coisa aqui dentro. Aí eu tento olhar lá dentro. Aí eu não consigo ver lá dentro. Aí eu fico mais vazio ainda.

Aí vem aquele monte de cobrança. Leandro, quando você vai montar as provas Quando você vai ter uma data de quando vem me visitar? Quando você vai me ligar? Quando você vai me falar quem são essas pessoas na sua rede social? Quando você vai parar de responder? Quando você vai entrar em colapso.

E eu fico só imaginando quando eu vou entrar em colapso. Digo, quanto mais consigo aguentar em pé, sem ter de pedir trégua? Nem sei. Só preciso de uma noite de sono. Muito sono. Sono profundo. Nenhum sonho. Só sono. O bom e velho amigo sono. Aquele que vem e repõe as energias, ainda que por uma só manhã. Aquele que vem e cala o exterior por uma noite.

E é aí que eu acordo. Tomo meu café forte. Olho minha agenda. Atendo meu celular. Vou às minhas reuniões. Preparo o almoço. Respondo mais alguns pedidos. Anro meu e-mail e a caixa de entrada está vazia. Estranho o fato de estar vazia. Dou aula. Dou aula. Grito com um aluno que pratica bullying. Dou aula. Vou à aula. Faço prova. Volto para dormir. Durmo.

E aí minha engrenagem volta a funcionar. Até que eu peça ajuda ao sono de novo.

Na Bíblia usam o verbo ser sem predicativo. Parece que deus é o único que é (ponto final). Deus é. Eu não sou. Sou o cachorro que toma chuva na rua. Sou a lua dos amantes e dos góticos. Sou os psicóticos. Sou os andróginos. Não sou.

Leandro Augusto.

11 de abril de 2011

Era uma vez um eu qualquer

E acabou. Acabou desse jeito torto, sem nexo, sem um registro discursivo de despedida. Acabou num “tá bom”. Morre aqui mais um entre os outros. Morre aqui aquele por quem sofria uma horrível dor só de imaginar-me sem. Morre aqui minha alma, morre nossa alma. Morre aqui o mundo para mim.

Uns gritos, uns rancores. Uns sonos, uns estresses. Tudo isso junto. Só faltou o amor. Só faltou olharmos para dentro e termos vontade ainda. Faltou querermos não escrever este texto. Faltou matar deste texto, toda a fúria, toda a mágoa. Faltou arrancar deste texto sua existência.

Não faltou nada. Tá bom assim. Morro um pouco a cada dia, mas afinal de contas, já morri tantas vezes. Vai ver agora nem vai ser tão doloroso assim. Vai ver, eu me depreciei. Vai ver eu já havia me matado enquanto me envolvia na maravilha que é pensar em você.

O mundo perdeu sua cor. Perdeu seu carisma. As pessoas não são mais interessantes, ou eu não o sou a elas. Eu não sou interessante para você. A vida perde, neste ponto em que me encontro, todo o seu sabor, toda a sua mistura de sabores. Perde aqui, você. E é como se sem você, não tivesse mais nada agradável, nada atraente.

O texto em questão só me faz ver o que eu não quero ver. Só me faz chorar do mais profundo que posso atingir de mim mesmo. Só me faz pensar em nada de bom, em nada de saudável. Só me faz pensar que agora, não faz sentido. Que agora, eu não conseguiria – mesmo que forçosamente – ver essa sinestesia poética que é viver e ser eu mesmo.

Estou morrendo agora. Não me procurem. Eu não me procuraria. Não se preocupem, eu não me preocuparia. Não me salvem, eu não quero ser salvado. E não quero me salvar. Quero a morte, no sentido mais profundo e confortante que me traz essa palavra. Não quero a comida, quero a fome. “Não quero que ignorem meus gritos de dor, e quero que eles sejam ouvidos.” Quero ouví-los uma última vez, para nunca mais abrir os olhos. Quero a morte real, não quero a morte poética.

Leandro Augusto.

8 de abril de 2011

Tchekhov

Foi escurecendo a vista. E foi ficando cada vez mais difícil ver um palmo que a sua frente estivesse. Foi caindo no chão sem nem perbeber. Quando viu, estava morto.

No primeiro dia, sentia seu coração bater forte e rápido. Desritmado. Analógico. Anatômico. Anômalo. Perceber que alguma coisa estava por vir. Nesse dia, não saiu de casa. Não tomou banho. Nem sequer escovou os dentes. Olhou para suas conquistas aristocráticas e aristotélicas e sentiu ínfimo nojo. Sentiu asco de ser o que pensou em ser.

No segundo dia, acordou numa angústia que consumia seus orgãos por completo. Começava no cérebro e ia descendo até atingir o pé. Vinha de dentro para fora. Vinha do interior para o exterior. Soube que algo deveria ser feito. Olhou mais uma vez para suas conquistas e lembrou-se que não só era gostoso ter tido a experiência a que cada um de seus afetivos objetos lhe remetia, como era necessário mantê-los sempre ávidos em sua mente e em seu cômodo. Materialismo o consumia.

No terceiro dia, era como se lhe tivessem tirado o coração. Era como se tivessem lhe tirado o coração e não tivessem deixado nada além de sua mente. Como se tivessem lhe tirado o coração e não tivessem deixado nada além de sua mente cheia de pensamentos díspares e dicotômicos. Se tivessem lhe tirado o coração. Entrou em um ciclo e não conseguia pensar sistematicamente. Dormiu o dia todo.

No quarto dia chorou. Chorou tanto que tossia intensamente. Sua tosse vinha acompanhada de catarro e sangue. Seu sangue tinha gosto de sangue e catarro. Tinha gosto de ainda preciso disso e de não preciso mais disso. Chorou e tossiu por algum tempo. Depois, saiu de casa e comeu qualquer coisa na rua. Voltou para casa. Chorou em casa. Morou em casa. Não habitou sua casa. Quis ter uma casa.

Passou o quinto dia lendo. Leu Allan Poe: “Eu me tornei insano com longos intervalos de horrível sanidade.” Leu ainda Tchekhov: “Chegou maquinalmente em casa, deitou-se no divã sem tirar o uniforme e... morreu.” Passou para Fernando Abreu: “Absolutamente calmo, absolutamente claro, absolutamente só enquanto considerava atento, observando os canteiros de cimento: será possível plantar morangos aqui?” No fim do dia, leu Mautner, que lhe pareceu bastante apropriado: “Ele deve ter beijado a lama, bebido a chuva, dormido profundamente com o corpo deitado em cima da terra. Foi naquele dia que ele morreu.”

O sexto dia foi um ótimo dia. Acordou e o sol brilhava claro. Acendia seu quarto com uma estranha luz de outono. Abriu a janela e observou o desenho que as folhas secas faziam no chão. Abriu a janela e observou o desenho que as folhas secas faziam quando contornavam o ar ao cair incessantemente. Comeu alguma coisa para dizer que matou a fome. Bebeu alguma coisa para dizer que matou a sede. Embriagou-se para dizer que não se importava. Embriagou-se e dormiu feito pedra.

O sexto dia continuou por muito tempo e acabou por ser o maior dia de sua vida. Acabou por ser o sexto dia o último de sua vida. Ainda naquela tarde, acordou de um sonho real. Acordou tossindo um pouco. Chorando um pouco. Sorrindo um pouco. Olhando um pouco. Resolveu escrever.

“Não aceito mais viver esse tormento. Não aceito mais me esconder. Não posso aguentar um dia a mais tendo que fingir a mim mesmo que minha vida é boa. Minha vida é satisfatória. Minha vida passou como passa o outono: deixando rastros. Minha vida vai passar, passou, está indo e ninguém está nem aí. Eu vou morrer agora e sei que ninguém vai me procurar tão cedo.

É bastante provável que meu corpo seja consumido pelos vermes e insetos que habitam meu chão forrado de madeira importada. Mas quem é que liga em ter um chão com madeira europeia, em ter pinturas raras pelas paredes da casa, em ter livros de gente maluca e reverenciada? Eu não sei porque aceitei viver esse mundo imaginário por tanto tempo. Não posso mais aguentar.

Deixem essa casa à venda, com tudo o que há dentro. Não deem a ninguém de minha família. Deixem que meu cachorro morra sufocado na corrente, sem comida, sem água, sem companhia. Deixem que as coisas se ajeitem. Deixe tudo à deriva, como sempre esteve. Deixem de acreditar em mentiras convencionadas. Não posso mais ser escravo desse sistema.

Adeus.

Carlos Roche”

Levantou-se e sorriu. Abriu a janela para ver as folhas e o desenho que compunham quando caíam das árvores. O outono já passara. Passaram-se também meses, mas os meses eram como dias. As folhas já foram recolhidas. O inverno já chegara. Deu uma última olhadela ao redor de sua casa e destravou as portas e janelas, deixando, assim, a casa toda exposta aos seres vivos que de seu corpo se alimentariam alguns minutos depois. Foi escurecendo a vista. E foi ficando cada vez mais difícil ver um palmo que a sua frente estivesse. Foi caindo no chão sem nem perbeber. Quando viu, estava morto.

João Hernesto

26 de março de 2011

Psicótico, Neurótico, Todo errado

Olhou para a cama. Pensou em todas as coisas que aconteceram em cima dela. Pensou que aquela cama poderia guardar ainda aquela intensidade para sempre. Que para sempre é esse? Pensou que estava enlouquecendo. Tomou mais um gole de vinho.

Costumava sentir um diferente grau de ebriedade com o vinho. Era como se a bebida trouxesse uma solução em meio ao caos. Um caos que, inclusive, era proporcionado pela própria bebida. Um caos que vinha de dentro que o fazia pensar que era ainda mais caótico seu pensamento.

Tomou um gole grande e esperou o efeito chegar.Tomou mais alguns e esperou que o outro chegasse. Chegou. Chegou. Não chegou.

Era inútil tentar acreditar que nunca mais veria aquele rosto. Era inacreditável que não conseguissem lutar contra as barreiras. Era impossível que se amassem tanto e se odiassem tanto. Era incompreensível aquele relacionamento. Era inverossímil aquele conto de fadas ao contrário. Era incoerente a sistematicidade daquela peça teatral.

Sentiu uma dor dentro do peito. Pensou em sofrer sozinho. Pensou ser boa a dor. Pensou ser parte de um processo de desapego. Pensou em morrer. Pensou e viver ainda mais. Sabia que não podia nenhum dos dois. Porque era como se não tivesse inspiração para morrer. E era como se não tivesse inspiração para viver.

Resolveu nada. Só chorou e pensou numa saída. Pensou numa saída que sabia que não acharia sozinho. Sabia que não podia ficar sozinho. Sabia que não podia ficar acompanhado. Sabia que deveria ficar acompanhado.

Entrou naquele jogo de tabuleiro ao contrário em sua mente. Entrou e lembrou-se de que não sabia jogar. Lembrou-se que ninguém o tentara ensinar. Mas era como se ele estivesse por perto, era como se os dois ficassem perdidos juntos. Era como se fosse gostoso ficar perdido juntos. Era como se perdido juntos, os dois constituíam uma só mente caótica. Era como se uma só mente caótica fosse melhor que uma só mente caótica.

E ele acabou por se perder naquele monte de informação nas entrelinhas. Precisava dormir, mas precisava dormir junto. Precisava comer, mas precisava comer junto. Precisava se exercitar, mas precisava fazê-lo com um propósito. Precisava trabalhar, estudar, mas perdera sua fonte de coragem.

Perdera seu escudo líquido. Perdera sua falsa solidez. Perdera seu conhecimento. Perdera seu controle. Perdera a capacidade de lidar com as situações. Perdera a capacidade de sair com os amigos e conversar sobre o preço da cerveja. Perdera a capacidade de acabar com o próprio corpo. Perdera a vontade de tomar aquele vinho.

João Hernesto

1 de março de 2011

Não sou poeta

“Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.
É quando de um pássaro
suas raízes no ar.
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem).”

João Cabral de Melo Neto

Não sou poeta. Não sei escrever. Não sei descrever sentimentos. Sei sentí-los tocar meu interior. Não sei demonstrar afeição quando devo, não sei demonstrar tristeza quando devo. Sei disfarçar. Sei me mostrar quando escrevo. Sei demonstrar quem eu relalmente sou. Sei demonstrar nada do que eu deva ser.

Não sou demônio nem sou deus. Sou o que há entre os dois. Sou a divergência de opiniões. Sou o badulaque de um maracatu argumentativo. Sou o argumento e o contra-argumento. Sou o argumento ponta-pé inicial. Sou o ínicio do pensamento. Sou a quebra do ócio. Sou a ansiedade da criação. Sou a confusão depois da criação.

Sou a coceira. Sou o intrigado. Sou a gagueira de não saber explicar. Sou o gago que pensa saber explicar, mas não consegue transformar em comunicação o que se passa em sua mente. Sou a máquina mental e colapso. Sou a mente em colapso. Sou o caos. Sou o apocalipse. Sou a bomba que vai estourar, mas acaba falhando.

Sou poeta porque tenho sede da vida. Sou poeta porque não consigo passar abatido o movimento que a chuva faz quando toca meus membros. Sou poeta porque não sei explicar e descrevê-la. Sou impotente. Sou não-dotado de suficiência para traduzir o que minha mente anda sempre matutando. O que minha mente anda sempre tentando descobrir a relação entre os extremos da vida.

Sou poeta porque amo e odeio a vida. Mas não sou poeta porque não consigo nem ao menos terminar esse texto com uma boa solução. A solução inexiste. A solução não me é intrínseca. Eu não sou intríseco à solução. Ela cava tão fundo, até o que não tem. Sou o cão sem plumas. Sou a paisagem do Capibaribe. Sou João Cabral de Melo Neto.

João Hernesto

22 de fevereiro de 2011

O Labirinto do Minotauro

A primeira coisa que ela fez foi se aquecer e estender seus músculos e tendões: sua primeira professora de balé clássico a ensinou a fazer isso. Ela dizia que o balé doía. Mas a prática tornava o ato muito mais prazeroso. Olhou para suas sapatilhas e reparou que estavam gastas e deformadas. O que ela não coseguia ver é que, na realidade, o que estavam gastos e deformados eram seus pés calejados. A sapatilha não passava de um modo de escoder a parte do corpo de uma bailarina cuja vergonha mais se alastrava.

Depois de se preparar fisiologicamente, pensou em preparar-se psicologicamente. Eu não preciso fazer isso. Eu só faço para provar a mim mesma que meus pés dão conta de qualquer labirinto, por mais que ela encontrasse centenas de minotauros horrendos e as pedras fossem duras o bastante para ferir seus pés já calejados. Lembrou-se de novo de sua professora. Tenho a cabeça raciocinante, não preciso me preocupar. É só montar o labirinto em minha cabeça conforme entro em seus escombros. Daí é só imaginá-lo de cima e armar minha estratégia.

Estou pronta.

E foi. E entrou. E admirou a paisagem por um instante. E quis não voltar. E pensou, isso aqui é bem mais simples do que eu imaginava. Em apenas um dia eu consigo cumprir a tarefa. Em apenas algumas horas eu já saberei aonde estou. Além do mais, tenho comida na mochila. Água na mochila. Energia no corpo. Um depósito inteiro de preparo na cabeça. E foi. E entrou.

No princípio era muito claro. Ela conseguia pensar nas fórmulas matemáticas e objetivas para sair daquele labirinto. Lembrou-se de uma história de quem ela nem recordava. A história dizia que o real problema dos labirintos não é o labirinto em sí; é a pessoa que está dentro dele. O labirinto é perfeito, desenvolvido de forma impecável. Desenvolvido de forma que as pessoas não pudessem se peder. O que as faz se perderem é elas mesmas. Conforme o tempo vai passando, conforme as paredes vão se estreitando, conforme a comida vai acabando, conforme os dedos não lhes suporta. Com tudo isso, uma engrenagem matemática começa a pifar. E o que é um labirinto senão a vida e suas patologias freudianas?

É tudo psicológico. Não há o que temer.

E foi. E entrou mais um pouco.

Ai, que fome. Melhor deixar para mais tarde esse lanche. Pensou que, no meio do caminho, talvez pudesse encontrar frutas e flores comestíveis. Sua avó a tinha ensinado a ver se uma flor é venenosa. Talvez haja, ainda, um lago com peixes gordos. Posso pegá-los e fazer um grande banquete. Mas não houve nada disso.

E o tempo foi passando e a luz se apagou. E não houve nada de nada. Só paredes cheias de verde e verde. Nada de flores comestíveis. Nada lagos azuis. Nada de peixes prateados. Nada de nada. E a comida se acabando. E ela pensando que haveria, em algum lugar aquele paraíso particular por ela idealizado. E a estrada tinha muitas pedras. E tinha tantas pedras que seus pés de bailarina se cansaram. Ela olhou pra lua, do pouquinho que ainda podia enxergar. Olhou para as paredes que davam seis dela. Olhou para o horizonte e viu nenhum horizonte. Vou dormir.

E dormiu.

Acordou com um focinho gelado a molhando. Sentiu frio. Foi acordando aos pouquinhos. Até que se viu num lindo jardim, cheio de flores comestíveis. Cheio de lagos e peixes dourados. Cheio de nenhuma parede. Cheio de mochilas e elas cheias de sanduíches. Esse focinho era de seu cachorrinho, que já havia morrido há algum tempo. Estou sonhando, pensou na mesma hora. Preciso acordar e achar meu caminho de volta pra casa. E se beliscou. E não acordou. Fui levada de onde estava por alguém e nunca mais saberei qual a lógica deste labirinto.

Havia uma festa. Mas a festa não era pra ela. A festa era para alguma vitória que parecia ser a de uma guerra muito antiga. Havia pessoas fantasiadas de época medieval. Não havia permissão para comer ou beber do que lá havia. Não havia ninguém que não a chamasse de algo que ela pudesse entender. Mas ela sabia que não era coisa boa. Não havia ninguém que falasse sua língua. Ela se perdera e nem sabia se estava no labirinto ainda.

Resolveu partir, faminta. Andou por um tempo e não viu nada que não fosse campos e mais campos. Viu um pântano e no pântano ela viu um crocodilo sorridente. Não deu conversa e foi embora, certa de que logo acharia o labirinto de novo. Viu um escritor perambulando pelos cantos para ter uma ideia. Viu uma tribo de índios comendo um ser humano. Viu uma alcateia comendo índios. Viu índios comendo lobos. Viu lobos comendo labirintos. Viu labirintos comendo faunos. Viu faunos sendo devorados por minotauros. Pensou que os faunos, no mundo dos labirintos, estavam na base da cadeia alimentar. E rui disso.

Espere aí! Minotauro?!

Saiu correndo, sem pensar para onde estava indo. Sem nem pensar qual o formato daquele labirinto. Sem nem pensar na lógica, na matemática, na objetividade. Correu por entre aquelas paredes estreitas e engolidoras.

Ela sentou-se e chorou. E pediu a um deus que ela nem sequer conhecia por proteção. Ela chorou e chorou. E nada mais fez. As paredes eram todas iguais, ela não conseguiria achar a saída. Tentou bolar um plano, mas não conseguia bolar nada; ela só chorava. Ela lembrava de sua cama, de seu cachorro falecido, de sua mãe trazendo remédio quando estava doente. Ela se lembrou de seu primeiro namorado. Ela se lembrou de seu primeiro dia de aula. Ela se lembrou do balé. Ela se lembrou do dia em que tirou a sapatilha e seus pés sangravam. Ela se lembrou de cada calo que fez durante sua carreira de bailarina enquanto os tocava. Ela se lembrou de sua primeira professora. Ela se lembrou de seus ensinamentos e de sua prática. Ela se lembrou de cada lágrima que chorou e que nunca mais derramou pela mesma causa.

Levantou-se e buscou a saída. E ela não chorou mais.

João Hernesto

21 de fevereiro de 2011

Lesão por Movimento Repetitivo

Sinto minhas mãos tremerem e essa tremedeira vem de dentro. É como se fosse alguma coisa de pressão, do coração, da cabeça. É como se eu quisesse sair de onde estou e desistir de tudo o que eu já conquistei. Começar tudo de novo. É como se eu me encontrasse numa repetição insuportável. É como num labirinto que eu já não quero mais conseguir achar a saída. É como se eu já não tivesse mais satisfação nas coisas que antes eu tinha. É como se eu quisesse me jogar e deixar o vento me guiar para onde ele apontasse.

Leandro Augusto

13 de fevereiro de 2011

A Novela das Seis e Aquele Final Esquisito

Não chove tem um tempo bom. E ela se sentia tão mal por dentro, que, aparentemente, só mesmo a chuva pra molhar seu corpo velho cheio de rugas para fazê-la desistir desse rancor que, de si, tomava conta.

Essa noite, ela sonhou que encontrava sua filha. Ela estava no caixão – aquele caixão cor de rosa que havia comprado com tanta dor no coração. Elas se olhavam e a mãe só podia pensar que aquele caixão era pequeno demais para uma pessoa adulta. Ao mesmo tempo, grande demais para um bebê.

O sonho não passou disso. A filha, de olhos abertos –na verdade, arregalados. A mãe, terna e pensativa, fitava e mais nada. Ela reparou que a menina não piscava. Ela não piscou uma única vez! Ela era uma defunta, mas a fitava com tanta vivacidade.

Mas o sonho não passou disso.

Depois, preparou um chá, porque o médico a proibira de tomar café. Estava se sentindo ressacada, como na época em que dançava nos bailes até tarde. Como no dia em que conheceu seu único marido, o homem de sua vida, o única feito para ela e mais ninguém.

Seu marido morreu ontem. O enterro deveria ser essa tarde. Mas ela não quer se preocupar com isso. Não avisou ninguém. Nenhum vizinho escutou seus sussurros solitários e depressivos. Nenhum familiar a ligou, porque ninguém nunca ligava mesmo. Nem mesmo deus a viu chorar ao lado da cama, onde o marido se estirava, morto e pálido. Frio. Fúnebre. Cadaverístico.

Olhava para o corpo e pensava em como permanecê-lo por mais tempo, de modo que pudesse levar para frente a data de anunciar a viuvez. Olhava suas pernas e imaginava os pés que já não estavam mais lá. Olhava seu peito nu e repleto de pelos brancos totalmente branco. Olhava para o seu rosto e via o homem que sorriu para ela no baile, numa quente noite de verão seco que fazia comumente em sua cidade pequena. Conseguia ver os olhos daquela noite, cheios de vida, cheios de tesão, cheios de paixão.

Lembrou que, uma vez, uma vizinha a falou que a novela das seis tivera um final bem parecido com o de Romeu e Julieta. Só que, no livro, o homem morria e depois acordava, só que a mulher se matou junto e ela não se lembra muito bem. Será que posso fazer isso?, pensou. Mas, e se ele acordar?, desistiu.

Sentiu um cheiro de queimado, mistura ao barulho da água que já havia evaporado. Não quero mais tomar chá, pensou. Mesmo assim, tomou cinco minutos depois. De um jeito que ela não entendia ao certo, reparou que as coisas caminhavam. Que a engrenagem continuava a trabalhar, como técnica demais, como burocrática demais. E ela se viu forçada a prosseguir.

Olhou as contas a serem pagas e escreveu num papel que estava dentro da gaveta ao lado do morto os números de uma velha que não escreve desde os nove anos de idade. A aposentadoria não seria suficiente. Desejou voltar a ser criança. Desejou ser protegida e nada mais. Escorreu uma lágrima sobre o rosto e gritou “Meu marido morreu”, torcendo para, mesmo assim, não ser escutada pelos vizinhos.

João Hernesto

19 de janeiro de 2011

Assassinato no 33

- Tu passas por esta porta sobre meu corpo morto. Estirado e ensanguentado. Caso contrário, fica e termina esse cigarro que está quase terminando.

Ele olhou e sentiu um ódio que quase tirava o controle emocional que ainda o restava. Sentiu vontade de pegar a arma em cima da mesa e terminar com aquilo. E assim o fez. Mas não chegou a atirar: apontou a arma para aquele com quem tinha trocado palavras de amor há alguns minutos.

- Suas palavras de amor não me valem porra nenhuma. Eu não posso permitir que meu corpo deseje alguém que me ama superficialmente. Quero dizer, eu preciso que você me diga que morreria por mim agora, que mataria-me e, logo depois, matarias a ti mesmo.

- Eu não me mataria por minha mãe. Eu te amo desse jeito, esteja satisfeito com o que tenho a oferecer-te.

Mas parecia que para o outro não valia de nada ser infeliz com um relacionamento e terminá-lo. Ele precisava terminar com a própria vida. De alguma forma, aquilo o parecia nada doentio e perfeitamente plausível. Era romântico e não suportava o fato de viver sem o homem que amava.

O ambiente ficava cada vez mais escuro com o Sol indo embora. A sala tinha uma única luz, que funcionava como um holofote: era a lua cheia, que começara hoje e iria até sexta. Sexta era o aniversário de namoro dos dois. Mas os dois sabiam que não chegariam até ele. E o outro sabia que não chegaria nem até amanhã vivo. Havia, ainda, uma pequena luminária que piscava vez em quando. Ela ligava e desligava, como o amor que ele sentia pelo outro.

- Não quero que tenhas pena de mim. Não sou nem quero ser algum tipo de sujeito patético. Se não for te ter, não há problema algum em matar-me. Se você não atirar, como eu seria capaz de segurar a arma?

Os gatos vagabundos já miavam nas ruas daquela cidade barulhenta e noturna. Barulhenta e soturna. Noturna e triste. Soturna e vazia. Vazio como o coração de um homem. Esfarelante como a farofa das ceias de natal das famílias. Tão palpável quanto a fé.

- O coração de um homem é capaz das maiores bondades e das piores violências. O coração de um homem fede. Fede mais do que esse seu cigarro, que está no filtro e você nem mexe nele. Fede mais que bosta de neném. Fede mais que a minha mente insana e insegura. Se não pode me amar até o último momento de nossas vidas, então deixa-me amar-te até o último segunda da minha própria.

- Vou ligar uma música. O que você tem para ouvir?

- Pode colocar esse disco de capa vermelha. Não tem o nome da banda, mas me parece muito apropriado.

A música começou. Na verdade, a música invadiu o barulho que aquele velho apartamento no centro da cidade fazia. As guitarras com sonoridade estridente e perturbadora. Aquela bateria que batia à maneira do coração daqueles dois rapazes. Daqueles dois que seria capaz de se amar e se odiar de um minuto para o outro.

E o barulho lhes preenchia, como um demônio que entra repentinamente na alma de sua vítima. O barulho lhes fazia mais agressivos e depressivos. Mais agressivos e cheios de raiva e ansiedade para o desfecho daquela história. Agora era tudo ou nada. Agora era a hora de escolher a vida ou a prova de amor doentia. Ou a prova de um amor doentio.

E o barulho impregnava no ouvido dos dois. E o barulho lhes fazia contorcer de prazer e dor. Uma dor que lhes tomava conta. E a dor ficava cada vez mais insuportável. Os dois sentiam ânsia e vontade de soltar excrementos por todo o corpo. Eles queriam matar-se com aquela música. E o barulho aumentava.

BARULHO BARULHO BARULHO BARULHO BARUYHLSO AHV=ELKBNIU AZNABULEOR BAULEIRAGO BARULHO.

PUM.

Ele deixou a arma cair. Vestiu-se. Fumou o resto de cigarro que tinha. Deixou a música a tocar. Passou por cima do corpo do outro. Tocou o sangue. Abriu a porta e trancou. Trancou e jogou escada abaixo. Partiu vivo e olhou a Lua por uns três segundos. Deu em cima do primeiro rapaz que lhe cruzou o caminho.

Leandro Augusto.

13 de dezembro de 2010

Freud explica

Metas, metas, metas. Planejamento para o ano que está chegando. Ora, que baboseira é essa de ano novo? Quem é que inventou tudo isso? Quem é que acredita em tudo isso? Porque eu não posso planejar minha vida sem pensar nesse tempo imperfeito feito por homens imperfeitos e feitos de mar?

Bem, eu não sei vocês, mas EU estou fazendo meu planejamento e meu balanço anual. Isso porque o homem precisa de algum motivo para ter esperança. Ela sempre existiu e nós sempre seremos suas vítimas. Não vou sair falando que não é necessário ter metas de fim de ano – ou serão elas de começo de ano? – porque eu mesmo as faço. E por escrito, ainda por cima!

Nós estamos condenados a imaginar o emprego perfeito, o sorteio da Tele Sena, a promoção daquela loja, o passar de ano, a outra metade da laranja, e o que mais for preciso. Nós nunca seremos totalmente realizados e é de nosso feitio sempre querer mais e sempre batalhar por isso; e quem é que nega que isso é certo? Quem é que não anseia novos planos e novas conquistas? Bem, quem não o faz, pode-se dizer triste.

Porque planejar um dia que vem já é gostoso. Deitar a cabeça no travesseiro e se sentir aliviado por um dia com tarefas que passou e planejar, como que logo em seguida e automaticamente, o dia que está por vir. Porque é nossa segurança acordar e saber o que há para fazer.

Hoje eu acordei de férias. E aí eu pensei: que tem para fazer? Foi aí que eu entrei em pane, porque descobri que meu dia estava altamente vazio e sem grandes compromissos. O que foi que eu fiz? Planejei e busquei o que fazer, pois, mesmo de férias, nossa cabeça está a mil pensando no que vamos almoçar, para quem vamos ligar, o que vamos beber e todas essas coisas triviais que nos fazem bem.

Atire a primeira pedra quem não planeja uma hora sequer do dia. Quem dirá um ano inteiro. Porque esse calendário relativo é o que nos move todos os seus 365 dias e algumas horinhas a mais. É ele que nos faz abrir os e-mails e sentir contente de ter recebido uma mensagem marcando algo para o futuro.

E os historiadores que me perdoem, mas eu acho que o ser humano – no auge de sua insegurança – é o que é graças ao seu futuro e seus planos para o mesmo, não por seu passado. Porque é como o vizinho velho fala: o passado já passou. E eu quero mais é saber de pegar um papel e fazer a listinha de presentes-metas que vou pedir para o Papai Noel.

João Hernesto

9 de dezembro de 2010

Trânsito astrológico

Já me deixei cair em tentação e não me culpo. Ontem eu senti aquele gosto de café açucarado com gosto amargo insuportável no fundo. E, por alguma razão ilógica, aquilo me doeu por dentro. Você foi e sempre será esse gosto amargo depois do doce. Você sempre será esse sabor doce e inconfundível nos meus lábios. Sabor, esse, que me faz sempre sentir falta e que me faz saber que nunca encontrarei igual.

Mariazinha andava feliz em sua calçada. A calçada não era propriamente dela, mas as pessoas costumam colocar os fatos possessivos assim em sua língua. Bem, a vizinha estava a molhar as plantas. Mariazinha se molhou ao passar na frente da casa da moça e ficou feliz por causa disso. Sentiu um imenso prazer e viu que nunca o havia sentido antes, com nenhuma água, de nenhuma praia, cachoeira ou chuveiro. Depois começou a esfriar e Mariazinha se perdeu na rua em que morava – vê se pode. Mariazinha pegou uma gripe muito forte e não conseguiu mais voltar. Morreu na rua, sozinha.

João uma vez disse para sua namorada que a amava, mas ela não acreditava nele. Então ele comprou um lindo buquê com o dinheiro de seu salário mínimo que acabara de receber. É uma prova do meu amor, disse. Mas ela persistiu sem acreditar, porque, para ela, amor não tem nada a ver com o dinheiro que se gasta. Mesmo assim, João persistiu em amá-la, quase em segredo.

Antônio sempre caçoava de sua irmã, que lia seu trânsito astrológico de tempos em tempos. Ele sempre achou baboseira esse negócio de mudança de humor por causa de planetas inúteis. Achava que estava tudo no psicológico: se lá tá falando que você vai ficar triste hoje, você passa acreditar que está triste, e fica, dizia. Um dia ele aceitou um impulso e montou seu plano astrológico escondido. No dia passado havia infrentado uma crise pessoal, e o trânsito - que começara ontem dia – descrevia como se sentira.

José sempre foi um menino forte e nunca chorava quando caía no chão, muito diferente dos outros meninos de 8 anos. Ele sempre caía e caía feio, mas nunca chorava porque sentía-se sempre envolto num escudo, que o protegia. É tudo sempre igual, nunca vai mudar. Eu posso viver e tocar a vida para frente sem me deixar abater por essas feridas bestas. Ele até gostava de comer a casquinha dos machucados. Um dia ele caiu, e não foi feio. Aí ele chorou de soluçar.

Leandro gostava de ler seu trânsito astrológico todos os segundos dias em que eles começavam. Achava que era tudo psicológico se lesse no dia em que começavam. Aí ele comprou um buquê para provar o amor que sentia, mas não foi o suficiente. Ele se molhou e gostou disso, mas depois pegou uma gripe. Um dia ele caiu, e não foi feio, mas chorou de soluçar. Depois ele bebeu café para acalmar os nervos. Café bem docinho, mas o gosto de amargo no final o doeu. Daí ele chorou de novo.

João Hernesto

19 de novembro de 2010

Este texto não vale a pena ser lido porque é clichê

E foi aí que ele sentiu uma alegria tão imensa vindo de dentro. Sentiu uma vasta experiência de vida, um cidadão do mundo que conhecia quaisquer surpresas que este o pudesse tentar pregar.

Pensou que os poetas tinham razão quando falavam das flores, dos campos, das cores, da profusão de sentimentos. Olhou à sua volta e viu cores. Cores e mais cores. Cores brancas, cores leves, cores pesadas, cores tristes, cores alegres, cores vestidas, cores desnudas, cores coloridas. Mais coloridas que ultimamente.

Cheirou diferente. Paladar diferente. Cheiro de campos de morangos bons para comer e cheiro de morangos ruins para comer. Gosto de chocolate amargo. Gosto de água, das que mata a sede. Gosto de água, das que só fica na imaginação.

E assim pensando, saiu sinesteseando o mundo. E o mundo conversava com ele. Era como se uma única energia movesse tudo, numa sincronia adequada e magnífica. Divina. Sincronia quase aterrorizante, de tão perfeita.

Bom dia, meu amor. Bom dia, dona Maria. Bom dia, moça do pão. Bom dia, senhor de begala. Bom dia, menina indo para a escola. Bom dia, pessoal do serviço. Boa tarde, pessoal do serviço. Boa noite, casa. Boa noite, meu amor.

Beijo nos olhos.

Levantou-se um pouco e olhou nos olhos do outro bem profundo. Fez cara de bobo e voltou a beijá-lo. As mãos entrelaçadas durante todo o ato. O gozo entrando. Gemeu de prazer. Gemeu de paixão. Gemeu de vontade de gozar. Gozou. Deitou-se exausto e quis nunca se levantar. Desejou estar sempre ali, naquela companhia, sentindo aquela sensação.

Você me cativou, dizia a todo momento para si mesmo. Às vezes quase chegava a sussurrar, mas não tinha coragem de dizer em voz alta para não soar tolo. Se eu te falar que morreria o homem mais feliz de todos se morresse agora, você acreditaria? Foi beijado.

Passou a Primavera. Pablo Neruda o dizia.

Passou o Verão.

Passou o Outono.

Não passou o Inverno. Ele nunca chegou. O Inverno veio e ele se foi no primeiro dia. Dia vinte e um de junho, se ele não se enganava.

O café ficou amargo e frio. A barba ficou por fazer. Ficou por fazer por alguns meses. Os bons dias não eram mais bons.

Bom dia, solidão. Bom dia, dona Maria. Bom dia, moça do pão. Bom dia, senhor de begala. Bom dia, menina indo para a escola. Bom dia, pessoal do serviço. Boa tarde pessoal do serviço. Boa noite, casa. Boa noite, solidão. Boa noite tortura.

Passou mais uma noite em claro. Dessa vez nem se importou com as olheiras que isso o faria no dia seguinte. Só se deitou e esperou a dor passar. E não passou. Então desistiu da dor. Mas ele descobriu que não podia desistir.

Começou a conviver consigo mesmo. Mas o sigo mesmo não era tão bom. Não chorou. Não riu, também. Bem, ele riu para os bons dias, doas tardes e boas noites. Mas por dentro ele tentava sicratrizar machudados que não paravam de sangrar.

Ele voltou a ver o mundo como qualquer outro. Passou a não acreditar nos malditos dos poetas. Passou a ouvir críticas políticas. Viu jornais sensacionalistas e viu pobreza. Mas nada o atingia. Nada era pior do que sentir a carência de algo que ele sabia o que era.

Depois ele andou pensando que nada era suficiente. Que nenhum sentimento era ideal o bastante quanto aquele que idealizava. Pensou que, na verdade, a vida não é boa. Se eu morresse agora, seria o homem mais triste do mundo. Porque ele queria uma coisa que parecia nunca chegar: a Primavera.

Mas no dia vinte e três de setembro ela voltou. Neruda voltou a dizê-lo. O inverno se foi, ele voltou. A primavera está de volta. Até o próximo Inverno de café amargo e frio voltar. Mas quem é que se importava?

Ele se importava. Ainda assim, quem se importa? Os bons dias ainda serão dados, ainda que não sejam bons. Ora, deixe que o Inverno chegue. E ele vai mesmo chegar.

João Hernesto

5 de novembro de 2010

Mulher barriguda que vai ter menino


Para Alice

Secos e Molhados gritando no rádio à pilha. Ela acordou e sentiu-se especial, pela primeira vez. Sentiu-se acompanhada pela presença mais especial que pode haver em sua vida. Feliz aniversário, amor. Ela agradeceu. Sentiu-se radiante. Não por ser seu aniversário.

Entre os dentes, segura a primavera.

Andou descalça em uma casa que podia chamar de sua. Em um lar que era só seu, de contrução só sua e de seu marido. Foi recebida pelo dia com um beijo de uma boca com bafo matinal. Sentiu-se especial.

Andou por cada cômodo, sentindo seu. Pensou em tudo o que viveu para ter o que tem hoje. Pensou em sua trajetória, pensou nas pessoas que encontrou até hoje. Nas presenças que tocaram seu coração de leve. Pensou nas revoluções que certas pessoas a causaram. Pensou nas primaveras que tocaram sua pele de leve. Pensou nos invernos que tocaram sua pele e queimaram. Nos verões que um dia a fizeram ficar vermelha na praia. Pensou nos outonos que eram insignificantes num país como dela.

Sentiu os pés sujos e se lembrou que a casa devia ser limpa. Não vou limpar, decidiu.

Estou mais pesada que antes. Ao mesmo tempo, sinto-me leve, como leve pluma. Sintiu vontade de sair pulando pelas ruas.

Esse não era um aniversário como outro. Seu presente veio dos céus. Ela havia sido presenteada como ninguém nunca fora. Ela se sentiu única.

Isso porque ela não era só ela. Ela era dois, ou duas. Ela amava alguém que nem nome tinha. Amava carregar em si uma vida. Amava ter a companhia de alguém de que ela nunca vira os olhos, sentira o cheiro, vira a cor da pele, degustara a pele. Amava conhecer, entretanto, cada parte de seu corpo. Amava saber tudo o que poderia estar pensando. Amava o fato de ser alimentadora desse ser maravilhoso.

Olhou para o céu e viu um raio de sol tocar seus olhos, fazendo-a confundir a visão. Sentiu seu filho confundir a visão junto consigo.

Ela tocou o chão e sentiu que seu filho tocava o chão juntamente.

Saboreou um morango e sentiu seu filho fazendo careta do azedume da fruta.

Porque é como se toda sua vida só fizesse sentido agora. É como se ela tivesse, finalmente, entrado no ciclo da mãe natureza. É como se ela visse a verdade sobre o mundo.

E em seu lar, sentiu-se um lar. E em seu mundo, sentiu-se um mundo. E em seu olhar, sentiu-se olhar. E em seu coração palpitando, sentiu outro coração palpitando no mesmo ritmo. Na mesma intensidade. Na mesma sintonia.

E Secos e Molhados cantavam para os dois, com a primavera entre os dentes. E gritavam. E eles gritavam juntos.

E notou o ciclo e a passagem de uma vida. Notou a constância do mundo, e quis viver mais e mais. Sentiu alegria em acordar e ter tantos presentes.

Leandro Augusto.

2 de novembro de 2010

Bento

Acordou sem ar. Soluço de choro. Lágrimas molhando seu rosto sonolento. Virou-se e viu o sonho deitado na mesma cama em que estava. Desejou ter mesmo acordado. Sentiu uma mão o acariciando. Sentiu vontade de cortar essa mão fora. Cortou. Levantou-se, porque aquela cama o matava. A mão a dormir.

Eu preciso de paz, pensou. Eu preciso de alguém que me faça sentí-la. Mas talvez nem eu mesmo a possa proporcionar a alguém. Cansei de me martirizar. Cansei de sofrer e perdoar logo em seguida. Cansei de me preocupar se vou sentir falta de algo. A essas alturas percebeu que a dor da perda, na verdade, já tinha chegado.

Pra quê atrasar? Pra quê empurrar para frente algo que vai vir à tona muitas e muitas vezes. Seja em sonhos sofríveis, seja em uma mente insegura. Não vou mudar, não vou tentar ser melhor. Não vou procurar prendê-lo junto a mim 24 horas por dia. Se quiser outro, procurará.

Acordou a mão. Não posso aguentar sua presença hoje; vá. E foi. E, no fundo, sabia que aquela dor passaria, para depois voltar de novo. E vai vivendo essa inconstância de sentimentos que implodem vez em quando. O que mantém à mente é: qual a frequência desses pensamentos? Será que suporto viver nesse caos?

Acho que não.

João Hernesto.

17 de outubro de 2010

Pseudo-eruditismo


A fila era grande. Todos buscavam, unidos, uma apreciação do conhecimento de outrem. Estavam todos muito ansiosos para ver o que os esperava lá dentro.

A fila começa a andar. Pessoas pulam de alegria. Aquele museu deveria ser a coisa mais importante da vida de alguém. A casa era simples, mas continha muita informação.

Entravam e só vinham o que uma casa comum tem a mostrar: uma sala com TV e sofás confortáveis, um pequeno corredor com duas portas, e uma cozinha branca e irritante.

Uma das portas era a entrada para a biblioteca. Lá estava o dono do quarto, de pijamas, escrevendo alguma coisa em seu computador antiquado. A estante de livros existia.

Bem vindos ao meu portal do conhecimento, disse o anfitrião. Livros de autores famosos. Autores brasileiros e autores internacionais.

Literatura consagrada. Filosofia e teologia consagradas. Livros de estudo científico e acadêmicos consagrados. Revistas consagradas. Arrumação desgraçada.

Era possível ouvir algumas interjeições de espanto e admiração. Todos gostariam de ter um arsenal bibliográfico como aquele: pequeno, entretanto bem pouco vazio.

Pensavam, ele deve ter lido cada um desses livros com grande afinco. Talvez alguns deles tivessem sido lidos mais de uma vez. Ele nem deve ter lido todos, outros pensavam.

Um em meio à multidão pegou um livro para folhear. Havia uma dedicatória na primeira página. O autor era famoso e consagrado. A arrumação, desgraçada.

Os outros olhavam com medo; não sabiam se podiam tocar em alguma coisa. O dono dos livros só escrevia e não se sentia incomodado. Todos pegaram um livro para folhear.

Liam em voz alta e, às vezes gritavam. Berravam e gargalhavam. Todos se divertiam com os livros comprados aos poucos. Os livros comprados e os livros roubados.

Posso pegar emprestado?, um deles disse. Não houve resposta. Ele só escrevia e se gabava por dentro por ser tão admirado.

Abriu a mochila e pegou o livro. Mês que vem eu devolvo, tá? Nada de resposta. Foi embora, deixando a multidão um pouco menor.

Barulho de pessoas abrindo bolsas, mochilas, sacolas e colocando livros e mais livros para pegar emprestado. Ele se gabava por dentro, afinal fazia sucesso seu gosto.

Quando todos já tinham ido embora, ele se levantou para fazer um café. Viu que a estante estava vazia. Nem um único livro restou. Sorriu. Gargalhou depois.

Lembrou-se que a grande maioria não havia sido lida depois da segunda página. Muitos deles tinham sido comprados só para mostrar mesmo.

Ele sorriu. A arrumação era desgraçada, mas os livros eram consagrados, a multidão espalhou aos quatro cantos.

No dia seguinte, uma fila se formava. Eram as mesmas pessoas para devolver os livros. Muito boa a primeira página desse aqui, comentavam.

João Hernesto.