Ideias de personagens criados para viver muitos ou poucos textos. Formas e formatos distintos, experiências ímpares. Não importa quem seja, ouviremos com mesma intensidade.
25 de janeiro de 2012
Retórica dos Namorados
Porque amar-te é mais do que querer-te por perto e ter-te por perto para proteção. Proteção do mundo lá fora. Porque amar-te é mais do que sentir aquela coceirinha que chega de leve quando tu falas que me amas. Amar-te é mais do que isso. Porque amar-te é perceber que as estrelas se alinham melhor quando meu mundo te tem. Porque amar-te é perceber a simetria que é formada nas figuras geométricas espalhadas pela cidade e vê-las totalmente perfeitas. Porque amar-te é notar que o sol pode brilhar mais forte a cada dia, a cada nascer.
Entretanto, não pretendo aqui justificar o fato de escrever este texto. Escrevo para tentar exteriorizar o que se passa aqui dentro. Escrevo puramente porque pretendo mostrar que sou a pessoa mais feliz do mundo e, é bem verdade, permaneço assim desde que te conheci. Desde que tudo principiou. Desde que reparei nos teus olhos de cão carente. Desde que reparei nos teus olhos de... Nos teus olhos de...
Creio que não me sinto totalmente pronto para expressar-me bem com relação aos olhos. Retórica dos namorados... Não, não funciona assim comigo. Talvez eu entenda que o homem não tem domínio de seu sistema linguístico o suficiente para nomear tamanha perfeição. Eu posso te desenhar por completo, aqui na minha cabecinha esquecida. Talvez eu seja mesmo um pouco bobo por pensar que um amor pode salvar o mundo todo, assim, como nas histórias em quadrinhos. Talvez eu esteja caindo em meu próprio pesadelo de achar que as coisas devem permanecer intactas, de que amores perfeitos existem, mas patologias não podem me ser colocadas. Ninguém me pode dizer que estou errado porque eu sei que, aqui dentro, terei sempre comigo esse teu sorriso de me tirar o ar, esse teu sorriso de me fazer sentar e tentar manifestar o que em mim manifestas. Esse teu sorriso que me faz perder a ordem do tamanho de meus parágrafos e a ortograifia das palavras, de tanto que me prende, de tanto que me embarca.
Não, não pretendo aqui dizer o tamanho de meu amor, não pretendo aqui discutir contigo sobre quem ama mais e tudo aquilo que fazemos em nossas deliciosas conversas intermináveis e termináveis, lamentavelmente. Não pretendo aqui buscar adjetivos ou metáforas perfeitas para ti. Meu amor por ti é sincero, mas pobre. Ele não pensa nas coisas de maneira muito grandiosa. Ele pensa nas coisas em seus sentidos mais puros e simples. Ele só te quer mais e mais. Ele só toma espaço na cabeça, no coração e na alma a cada minuto que passo com ou sem te ter a meu lado.
Ofereço-te flores e poemas toscos, mas meu coração, na verdade, pretende demonstrar os aspectos que foi moldando para caber tanto sentimento por uma só pessoa. Meu coração só te quer sempre mais, meu coração só quer poder mostrar que tu tens mais importância para minha vida anteriormente vazia do que qualquer poema ou flores podem expressar. Ele só quer um pouco de palavras novas. Um dia desses, se encontrasse as tais palavras, com plena certeza, as dedicaria a ti.
O céu se misturando ao mar, o sol se destacando por entre as montanhas. O sussurro antes do beijo, suspiro depois do beijo. A alegria ansiosa antes de conversar, a tristeza ansiosa antes de despedir. Hoje eu me sentei e tentei, em vão, expressar o quanto te quero bem. Talvez algum dia possa extrapolar um beijo terno ou um carinho feito com todo o meu coração para poder-te dizer que tu, em verdade, és tudo o que um dia desejei para mim e que, agora que estás no mundo, posso dizer-me preenchido com a felicidade que todos procuram. Eu a encontrei. Eu te encontrei.
Capadócio.
20 de janeiro de 2012
O Plano
Você precisa de fé, acho que falta isso em você. Fé.
Num piscar de olhos a vida faz mais sentido. Aquela metáfora pobre que me havia vindo há um tempo me volta à memória. Eu precisava encontrar dentro de mim a resposta para tanta repetição. Precisava buscar em mim a resposta de todas as perguntas do mundo. Talvez eu precisasse de fé. Talvez chegasse, enfim, o momento do juízo final. E a sentença é deliberada por mim mesmo.
Pretendo aqui colocar um fim nessa história de que devo acreditar nisso e não naquilo, de que devo me portar assim e não assado. Devo, primeiramente, deixar em mim as palavras entrarem, mas elas não entram. Não facilmente. Na verdade elas vêm e vão de maneira tão rápida que não posso sequer tateá-las. Só sei que precisava escrever e não sei exatamente que título dar a este texto que nem sequer está pronto em minha mente. As palavras vão. Ficam as palavras vãs.
O inimigo se aproxima, talvez você devesse mesmo combatê-lo. Há planos?
Não havia planos. Eu o combateria e veria até aonde meus músculos me levariam. De alguma forma, sentia que não viveria muito tempo dessa forma. Preciso pensar. Por exemplo, se o exercito oponente vier com armas de fogo, precisarei de um colete à prova de balas. Mas não basta apenas me defender, eu devo atacar juntamente. E é aí que eu me perco. Tomar as rédeas desse cavalo que nunca pára de andar para que pensemos no caminho a percorrer. Nunca pára. E eu penso e nunca saio do mesmo lugar. Enquanto isso, o cavalo me movimenta o corpo aleatoriamente nos espaços espaciais.
É pouco redundante botar à prova meus sentimentos e crenças acerca de um deus. Na verdade é necessário. Eu preciso acreditar que acredito em algo. Preciso saber que há uma proteção mínima e que não dependo somente de meu planejamento e de meu colete à prova de balas. Mas o inimigo se aproxima e ele tem um canhão. E eu me arrependo de não me haver preparado para esse tipo de imprevisto. De qualquer forma, vou ao ataque, sabendo, ainda assim, que não durarei mais que dois minutos.
Mas Deus não está aqui essa noite, padre. Deus está nos céus cuidando de assuntos dos céus. Vire-se e descubra como matar seu oponente.
Dois minutos depois, não tenho estratégia, mas tenho vida ainda. De uma forma que não sei nem saberia explicar, posso dizer que me vi vencer. Como quem vê de longe, vi o maior guerreiro do campo de batalha. E eu sobrevivi. É claro que meus oponentes permanecem intactos. É claro, ainda, que há ferimentos em minha armadura feita de pele, de minha própria pele. O sangue escorre e uma lágrima se seca. Eu continuo vivo, apesar de não ter planos. Os planos agora são: um, manter-me vivo, e, dois, bolar um plano.
João Hernesto.
16 de janeiro de 2012
A Noite da Insônia e o Dia da Evacuação
O relógio marcava nada. O sol não brilhava. As pessoas na rua, de lá de baixo, não emitiam som algum. Lá de baixo elas nada enxergavam. Lá de baixo, ninguém me via. Aqui de cima era eu e as flores, que já estavam morrendo. Bem, as flores morriam mais rápido em minha casa. Morriam porque não sabiam sobreviver em meio ao meu próprio caos. Morriam porque não podiam dormir. A noite foi terrível também para as flores de meu quarto. Meu quarto gritava e pedia que o ajudassem. Ninguém o fez. Éramos eu e as flores objetos inanimados, seres mortos, natureza morta. A noite foi terrível e era chegada a hora de evacuar o edifício. Ninguém se mexeu.
No alto desse morro chamado diversas vezes de edifício, as pessoas se trancafiavam e esperavam o sono bater. Só que o sono não vinha, era petulante. Era intransigente. O sono não vinha. O blues não mais acalmava. O rock’n roll chamava para dançar. O blues chamava para chorar. O rock’n roll chamava para badernar. Ninguém se mexeu. O sono não chegara. O edifício precisava ser evacuado. Ninguém se mexeu. Não por calor. Não por frio. Por não se mexer e só isso. Por não encontrar motivos. Por não haver razões para a evacuação. Ninguém ouviu nada naquela noite. Todos lutavam contra seus próprios quartos para que calassem. Os quartos gritavam. Era chegada a hora.
Levantei-me, preparei um chá mate. Não quis fazer café e não tive coragem de largar a cafeína. Ainda assim, chegara a hora. Debrucei-me o corpo na janela e observei as pessoas passando em silêncio. A dona Maria passava com seu carrinho de compra porque era dia de feira. Silenciosa. O poeta declamava suas poesias porque era dia de palavras ao vento. Silencioso. A dama do cachorrinho passava com o cachorrinho porque era dia de cachorrinho. Silenciosos. As amigas passavam fofocando porque era dia de passar. Silenciosas. O dono do prédio gritava a evacuação porque era chegada a hora. Silencioso. Ninguém se mexeu. Todos reclamávamos a noite de sono perdida. O sono não chegava. A cafeína entrava. O quarto gritava. Eu observava.
Era dia, mas o sol não brilhava. Era uma tarde ensolarada de noite. A noite permanecia aqui. Todos do prédio a sentíamos. Não havia estrelas e também não havia nuvens. Não havia raios de sol e também não havia sol. Não havia lua e também não havia luar. Não havia eu e também não havia tu. Não havia a gramática e também não havia a língua. Não havia. Não existia. A existência tornara-se contestável, apesar de ninguém a contestar. Contestávamos, sim, o quarto e o barulho que nos causava aos tímpanos. Todos acordados. Todos com uma insônia terrível. Tive uma noite horrível. É chegada a hora de evacuar o edifício.
João Hernesto.
13 de janeiro de 2012
Leia as Notícias sobre seu Paradeiro
Ele lia com jeito de quem não entendeu a piada. Palavras novas, léxico avantajado para o lado esquerdo, ou teria sido o direito? As pessoas perguntavam-lhe coisas e nada ele respondia. Só estagnava a mesma pergunta. O mesmo questionamento. As mesmas ideias lhe ocorriam.
- Então, o que é que vai ser?
Enquanto tomava um gole de sua água, porque não podia tomar café nem chá e nunca gostou de refrigerante ou suco, pensou no que interpretar dessas coisas. Pensou e pensou. Decidiu que não faria absolutamente nada, como antes. Ficaria sentado desfrutando a água, que, por essas horas já estava acabando.
- Então, o que é que vai ser?
O que seria é que ele tentaria caminhar. Não quis mais levar a vida dessa forma. Decidiu-se e levantou. O mundo rodou um pouco, talvez. Ou talvez sua cabeça estivesse rodando no mesmo lugar. Não podia distinguir aonde, do caos, começava a confusão e aonde começava o caos da confusão. Sabia que vivia entre os dois. Chegara a hora de escolher qual lado seguir.
- Então, o que é que vai ser?
Foi assim como... Foi de um jeito torto. Cambaleou. Não, tropeçou e cambaleou para se levantar. Trocou as pernas de lugar com os braços e caminhou, apenas caminhou. Não caminhou, pensou ter caminhado. Quando deu por si, estava exatamente no mesmo lugar. E não se movimentou. E nada fez. E nada pensou. Assim como antigamente. Do mesmo jeito de antes. Parado. Pausado. Interrompido. Pontuado. Ponto final.
- Então, o que é que vai ser?
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Adélia.
10 de janeiro de 2012
Seis
Eu tinha acabado de tomar banho. Antes ainda, tinha encontrado um disco do Gardel que estava desaparecido. Coloquei para tocar e tomar banho. Quando saí do banho, o lado A já havia sido tocado, o que me fez pensar que o banho teria sido muito longo. De qualquer forma, troquei o lado do disco e me dei por satisfeito pelo relaxante banho que acabara de tomar. Fui arrumar-me com calma, pensei que não tinha porque correr se quem me esperava poderia esperar mais alguns minutos.
Enquanto me arrumava, percebi como o disco dos Beatles que estava pensando em ouvir depois tinha dois lados distintos: o primeiro deles era de um estilo mais roque, tinha uma quedinha para o início da carreira do grupo; o segundo lado começava com sítaras e batidas em tambores psicodélicos, dignos de um psicodélico de plantão. Imaginava o que se passou na cabeça deles e ri com meu pensamento tolo. Escolhi minha gravata favorita e desejei ser apropriada, apesar de sempre achá-la apropriada.
Enquanto saía de casa e trancava a porta, o vento batia para o leste e o sol brilhava para o oeste, mas isso não me chamou tanto a atenção quanto as seis linhas de cada parágrafo deste meu novo texto. Pensei se havia um propósito e disse para mim mesmo: “há tanto propósito em escrever um texto que contenha parágrafos de seis linhas quanto usar minha gravata favorita num dia especial e nos dias normais e persistir em achar que ela é especial”. E foi aí que percebi que ultrapassara uma linha das minhas seis.
Mas depois notei que não havia linha alguma ultrapassada. Ri sozinho na rua, enquanto pessoas passavam para trabalhar e crianças – que são pessoas igualmente, apesar de minha estranha construção – iam para a escola com seus pais – que se admitem como pessoas, ainda. A vizinhança de minha casa era bastante tranquila, mas somente enquanto ainda estava na minha rua. A partir do momento em que se ultrapassava a linha da próxima esquina, perdia-se a paz e o sossego. Mas eu não ultrapassei as seis aqui.
Havia comerciantes na rua e eles queriam vender alguma nova bugiganga para mim. Mas eu não queria bugiganga, queria apressar-me para pegar o próximo trem para o Braz. No trem, não há nada para contar que seja pertinente aqui colocar. Na verdade, há tanta importância em contar o que aconteceu no trem quanto usar minha gravata de todo dia numa data especial. Era uma segunda colorida e o vento se misturava às gotículas de chuva, já que no caminho de trem começara a chover e eu nem percebera.
Ainda sobre o vento, a luz, a chuva, o arco-íris que eu desejei ver, notei que o mundo estava se esvaziando por causa da chuva. Notei um carro de polícia e notei também que o trem estava mais lotado que o normal. Aquele mesmo trem que pego desde criança e que peguei ainda agora estava lotado de policiais e pessoas curiosas. Ele estava parado. Eu também estava parado. Só que, dessa vez eu estava no galpão da ferrovia e era feliz com minha xícara de café.
Seria este mais um conto fantástico? Creio que não. Ou será que sim? Afinal de contas, que problema há em contos fantásticos? O coração do homem é fantástico. A mente humana é fantástica e nos pega mentindo para a realidade. A gravata era fantástica com aquelas novas cores de tom avermelhado que adquiriu. A viagem de trem mais longa era fantástica por ser longa e ter-me mudado para sempre. Fantásticos eram os olhos dos psicopatas que olhavam suas vítimas. Fantástico era o olhar daquela gente para o corpo estirado no vagão. Mas acredito que esse último parágrafo já ficou maior do que o esperado. Bem, continuarei o processo como quem quer aumentar as linhas e fazer um número que seja múltiplo de seis. Tolo meu pensamento, mas a ideia aqui é permanecer nesse padrão, que eu acabo de quebrar. Nesse caso, um novo padrão é posto e o tradicional é questionado. Isso acontece a todo momento, sabe. Na realidade, isso me aconteceu no trem. O padrão de viver. O padrão de ter o livre arbítrio dos vivos. Mas agora estou morto e meu assassino acaba de sair como quem nada fez. Os policiais nada fizeram. Eles não fizeram nada. Só chamaram a ambulância e recolheram meu corpo. Mas eu não queria mais um corpo, agora tinha meu espírito e minha gravata vermelha de sangue. Na verdade, há tanta importância em contar o que aconteceu no trem quanto usar minha gravata de todo dia numa data especial. Só mais uma linha e um cigarro e posso desviar-me para o que aconteceu depois disso.
Bem, quando terminei meu cigarro de fantasma, percebi que deveria escrever o que me havia acontecido. E foi aí e só aí que percebi que ainda estava atrasado para meu encontro. Como não sabia o que os deuses pensavam sobre tempo e o que os fantasmas percebiam como tempo, pensei em pentear meu cabelo, limpar a mancha de sangue em meu braço e seguir meu caminho de volta para casa. Embarquei no próximo trem ao centro e me sentei no próximo assento vago.
Cheguei em casa, liguei a vitrola e ouvi o segundo lado do Sargent Peppers. Disfrutei da sítara e dos tambores. Percebi que os céus se esqueceram de me avisar da sentença, mas permaneci esperando que ela chegasse, porque tinha de chegar, sabe. Sentei-me no chão como não fazia há tempos e desejei tomar um whiskey. Coloquei muito gelo no copo e tomei whiskey com a água que derretia do gelo. Percebi que o número seis estampado naquele trem me fez escrever. E me deu mais um personagem.
Sargent Peppers.
3 de janeiro de 2012
Intenso
Querido,
O motivo pelo qual escrevo-lhe é somente meu. Não sei exatamente se lerá ou se este texto nunca chegará a seu contato. Fato é que sinto nossa situação ainda pendente. Aquela velha frase de "tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas" me vem à mente num momento como este. De alguma forma, parece-me que um desejo de bom ano novo resolva minha coceira, minha gagueira, meu engasgo.
Gostaria que soubesse que pensei em te ligar antes que saísse do Brasil. Pensei ainda em te mandar um e-mail ou uma mensagem na rede social. Pensei em escrever muitos agradescimentos ou muitos desejos. Pensei em não passar do "um bom ano novo". Todas as possibilidades eram tolas e plausíveis ao mesmo tempo. Ao final, escrevo em silêncio, como resolvi guardar meu amor por você, silenciado.
Os dias têm sido muito bons e a ordem tem sido estabelecida novamente desde que você se foi. Acho que você estava certo, doía em mim porque eu não aceitava perder-lhe. Doía em mim porque eu desconhecia o mundo sem você. O sol foi brilhando por entre as nuvens aos poucos e a temporada de chuvas passou, enfim. Na realidade, está passando. Algumas vezes me dói demasiado, mas silencio a dor e me faço capaz de suportá-la para depois esquecê-la. Calejei-me por sentir falta.
Pela primeira vez desde você, esse texto sobre você me vem pensado. Não é uma náusea incontrolável como os outros. É cauteloso, realista, discursivo - não enunciativo por si próprio. Deixa-me muito contente saber que você me já não faz parte do que eu mesmo construi, a minha armadura (in)destrutível. Dessa vez, você não é o que minha imaginação constrói, você é o que, de fato, é.
De qualquer forma, é maravilhoso enxergar-lhe assim: real. Dessa maneira, faz sentido a separação assim como o faz a união, a eterna união. Guardo comigo todos os momentos maravilhosos que dividi com você, esperando que haja muitos também para você. Guardo como que contadas as vezes em que nos chamamos de "morrzão" e todos os almoços, filmes, cócegas, transas, brigas que tivemos. Guardo com muito carinho sua imagem e faço questão de mantê-la sempre acesa, entretanto, silenciada.
Desejo sinceramente que tenha um ano muitíssimo produtivo em todos os setores de sua vida. Todos mesmo. Desejo que sua virada seja melhor que a virada desse ano de 2011, em que brigamos um com o outro sem sentido, sem razão. De qualquer forma, para mim, foi a melhor virada de ano que tive só porque eu estava com você. Agora, terei muitas outras e elas tomarão o primeiro lugar. Espero que nossos momentos sejam por você guardados e que os que lhe ocupam primeiro lugar deixem de ocupar sem que percam sua intensidade.
Um forte abraço,
Leandro Augusto.
31 de dezembro de 2011
Vermelho na Virada do Ano
Esse ano foi repleto de infelicidades e frustrações minhas. Acadêmicas, profissionais, amorosas e familiares. Tive uma péssima experiência de um projeto inacabado e outro nem sequer começado por conta de questões que nem saberia mais dizer. Profissionalmente, constatei que não queria mais ser professor porque torno-me aos poucos escravo de um sistema altamente financeiro e capitalista. No setor de romances, tive uma batalha intensa por amar muito e não ter esse amor refletido na realidade, só na idealização. Esse ano foi o ano em que minha mãe descobriu que estava fumando e isso a deixou extremamente triste. E eu ainda nem contei da minha frustração de saber que meus amigos distantes tomavam conta de suas vidas com tantos problemas e eu nem sequer sabia deles.
Por essas razões – que, na verdade, são mais do que as acima listadas – disse há poucos dias que esse ano foi o ano em que as maiores catástrofes ocorreram em minha vida. Esse ano foi o ano em que eu pude vivenciar a depressão e a falsa euforia uma seguida da outra num curtíssimo intervalo de tempo. Esse foi o ano em que eu resolvi que não havia mais conquistas de minha parte e que deveria mesmo esquecer-me de viver. Esse ano foi o ano em que minha vida virou e eu nada fiz, só deixei-me levar pela maré, como que um barco à deriva. Portanto, à deriva desse mar chamado vida em contato com essa grande corrente chamada tempo mantive-me em pé por fora e caindo em meio ao caos por dentro.
Por causa disso, resumi meu discurso mental falando que o ano de 2011 começou comigo usando branco por razões puramente regrais e termina comigo usando qualquer cor que eu tenha trazido na mala. Esse próximo ano, ainda resumi, deve servir para que não haja progresso, deve servir para que as coisas se estabilizem novamente, e só isso. O ano de 2012 deve servir para que eu me livre do meu mundo de sonhos e viva o prazer de usar qualquer cor que tiver em minha bagagem, assim, sem tempo de pensar em tolas superstições, sem tempo para isso.
Bem, agora pouco uma coceira me chamou para escrever. Ela não me convidou, surgiu como uma batida mais forte de coração e disse: escreve o que tens de escrever. Cá estou eu fazendo um balanço positivista do ano que se passou. Cá estou eu tentando ver o que esse ano me fez enxergar e o que tentarei ver no próximo. Cá estou eu ensaiando o que devo escrever. Cá me vou escrever só para poder ter paz mental.
No setor acadêmico, posso dizer que esse ano me fez ver com outra cor o que a universidade tem: a dura realidade do pesquisador graduando. Mas, não, preciso ser otimista neste texto. Bem, esse ano eu tive a experiência de ver um projeto simples do qual fiz parte ir para apresentação em uma grande universidade do estado de Minas Gerais. Esse ano, ainda, tive a oportunidade de cursar disciplinas que deveriam ser puramente simples e foram magníficas. Pude ler literatura e entender o que os teóricos querem dizer com os tais olhos de ressaca. Pude ver os surdos e falar com eles de forma que me sentisse a maior das pessoas. Pude ver a matéria mais difícil com a professora que mais me marcou a graduação e desistir para depois conseguir entender e passar com uma boa nota. Pude ter o prazer de conhecer melhor uma professora que não me caía tão bem e convidá-la para orientar minha monografia, que, por sinal, está ficando um espetáculo!
Profissionalmente, tive algumas infelicidades durante todo o ano, mas esqueci-me de ver quão linda minha profissão é. Pude, agora, no final do ano, escrever um texto com grande alegria mostrando – ou tentando fazê-lo – o quanto é alegre ensinar. Tive o prazer de ver um aluno passar em uma prova com a minha ajuda, tive o prazer de ver uma aluna cruzando o continente e usando parte da língua que a ensinei, tive o desprazer de fazer chorar uma aluna aplicada, dizendo que deveria se aplicar mais, e vê-la, depois, tirar excelentes notas. Esse ano foi o ano em que pude lembrar-me do sonho de ser professor quando era criança.
Amorosamente, tive um relacionamento conturbado esse ano. Um relacionamento que começou o ano e que me despertou meu pior lado, seja lá qual for ele. Posso dizer, entretanto, que amei com toda a força que poderia um dia ter amado alguém. E não me arrependo das palavras de amor e das entregas só porque me lembro do sorriso na noite de réveillon. Com o término, busquei em mim forças o bastante para achar-me novamente. Bem, posso dizer que achei forças fora de mim mesmo quando pensava em minha mãe e nada mais. Noites de superficialidades e papos superficiais me fizeram achar uma grande pessoa. Uma pessoa que me faz encerrar o ano com algo que não havia em mim há um bom tempo: esperança. Essa nova pessoa pode ficar o tempo que for necessário a ela, mas em mim já provocou a reviravolta que precisava: ver em alguém os olhos de quem só deve receber o bem e nada mais.
Familiarmente, posso dizer-me satisfeito. Talvez não tenha dado atenção suficiente a meu pai, a meus avós e tios distantes. Perdi uma tia esse ano e nem sequer a visitei. Recebi minha mãe em casa e só briguei e nada mais. De qualquer forma, posso dizer que recebemos eu, minha irmã e minha mãe o presente de estarmos o Natal e o ano novo fora do Brasil, curtindo-nos uns aos outros como há muito não fazíamos. E, bem, olhar atrás de mim e ver minha mãe dormindo, cansada pelo maravilhoso dia de turista que tivemos ontem – sem contar nos últimos 10 dias em que também o fizemos – é extremamente mágico. Minha eterna companheira. Minha eterna amiga. Minha mãezinha tão querida e tão batalhadora.
Com relação aos meus amigos, esse ano pude ver uma das maiores pessoas que já passaram por minha vida casando-se. Pude vê-la grávida e pude ver seu filho, ainda que por fotos. Por mais que esse ano tenha deixado de visitar uma outra grande amiga e seu filho agora não mais recém-nascido, posso dizer-me feliz por manter contato com ela, ainda que raramente. Uni-me mais com alguns, distanciei-me de outros. Mas me digo feliz com os que ainda tenho por perto. Fazem-me muito feliz e são grande parte do motivo pelo qual sorrio sempre.
Portanto, no final das contas, esse ano não foi lá tão ruim. No que se refere ao que desejo conquistar para o próximo, prefiro, dessa vez, não planejar absolutamente nada. Não acredito que deverei colocar as coisas em ordem nem empacotar minha bagagem de vida. Creio que preciso viver os dias um por um, assim como em Carpe Diem. Não sei bem em que devo apostar, mas sei que preciso ver novamente aquele sorriso seguido de uma fungada de nariz. Sei que preciso ver minha mãe dormindo satisfeita por ter tido o momento de sua vida. Sei que preciso ver minhas amigas e seus filhos. Que preciso ver meu amigo que retornara ao Brasil há um tempo e ainda não o visitei. Preciso finalizar meus trabalhos acadêmicos e preparar o semestre letivo para meus queridos alunos. Preciso ainda escolher meu traje “branco” do réveillon. Pensando bem, ele será vermelho, para que possa me agarrar a essa tola superstição e que possa garantir que verei a fungadinha de nariz que tanto me faz falta aqui distante.
Feliz 2012 para mim e para os mencionados nesse texto. Feliz 2012 para mim e para os que não foram mencionados, mas que vieram a minha mente enquanto escrevia uma letra que fosse. Feliz 2012 às pessoas que me fizeram sorrir e às que me fizeram chorar em 2011. Feliz 2012 aos maias e sua incrível habilidade de prever que será o último “feliz ano novo” que todos daremos. Como será o último, que seja muito bom! E será!
Leandro Augusto dos Santos.
25 de dezembro de 2011
El Rio Tigre
O verde. Ah, o verde... O verde da água. Verde escuro de água escura. O verde do mato. O verde refletido do mato na água. O verde dos olhos. A água verde misturada ao amarelo do sol, fazendo-me recordar do verde e da cobertura amarela numa mistura deliciosa.
O movimento. Neste rio, há aquele mato que nasce no meio da água sem que ninguém saiba explicar. O vento batendo e o mato se movimentando num efeito dominó. O movimento da água batendo e quebrando devotamente na direção contrária à que navegamos. O movimento devoto de meus lábios nos seus. O movimento sexual e o movimento fraternal. O movimento do meu mundo com seu mundo. O movimento.
A saudade. Sinto um êxtase instantâneo e um sono relutante. Vejo um pássaro sobrevoando rente à cobertura da água. Muito rente. Peço ao pássaro que leve um beijo ao final daquele percurso. Peço que entregue minha mensagem de amor. Desejo poder entregar o beijo antes que o pássaro o faça.
Que vença o melhor de nós!
Amélia.
19 de dezembro de 2011
O Sexto Motivo da Rosa
Leandro Augusto.
“Por que é que a sala fica sempre arrumada, se ela passa o dia inteiro fechada?”
Dessa vez, eu prezo a fala. Desprezo o silêncio. Se não dissermos nossos nomes em voz alta, como podemos querer que as pessoas nos conheçam por eles? Ora, parece-me tão tola essa ideia que este texto parece-me sem sentido algum. A verdade é que a vida é tão pequena, o homem é tão pequeno, as ideias são tão volúveis que a solução acaba sendo não haver solução. A mistura entre uma coisa e outra acaba fazendo a vida perder sua essência: não haver essência alguma.
Em meio a tantos questionamentos, em meio a tantas problematizações sem sentido, dissemos que a vida não tem sentido. O que não tem sentido mesmo é o próprio homem e sua estupidez científica. Esse monte de pessoas perdidas em seus próprios pensamentos caóticos me faz pensar que o homem é tão insignificante que chega a irritar. Tão insignificante que chega a ser nada mais do que insignificante.
E caminhamos nós em busca do elo perdido. Caminhamos em busca de respostas a questões que nunca nem deveriam ter sido postas. Caminhamos e vemos que nossa jornada é imensa, quando, na verdade, é curta, muito curta. Quando, na verdade, nossa passagem é extremamente passageira e óbvia. Gozemos do dia antes que termine. Gozemos do infinito sem que saibamos exatamente o que é ser infinito. Estejamos nesse deserto de almas desesperadas e impetuosas. Sejamos impetuosos. Petulantes! Pequenos!
Capadócio
14 de dezembro de 2011
As Ondas
As Ondas
O próximo ano vem chegando. Cá estou eu escrevendo sobre este que está prestes a terminar e o outro que está prestes a começar. Nesse intervalo entre um e outro que não dura tempo algum – talvez um mero “feliz ano novo” – estão contidas as palavras mais infinitas que a alma humana pode proferir. Estão contidas as palavras mais finitas que a mente humana pode inventar. Sentimentos de felicidade e tristeza misturando-se numa perfeita simetria, formando um balanço extremamente cuidadoso para que possamos sentir gozo e angústia numa verdadeira montanha russa de sentimentos. Essa figura de linguagem que não me vem o nome agora. Essa linguagem complicada de ser dominada. Esse texto que só vem aos poucos. Esse ano que termina em aberto. Esse ano que começa sem iniciar. Essa viagem de cérebros e corpos de modo meta-físico o bastante para que possamos controlar. Cresce e cresce. Toma proporções incríveis e domina nosso corpo como se um líquido possuísse um jarro.
Posso dizer que as lições que não aprendi foram as mais apreendidas de todas as de minha pequena vida. Posso dizer que o mar de sensações que senti continua batendo, às vezes forte, às vezes, entretanto, a onda vem bem pequena. De qualquer forma, o oceano continua batendo aqui e as água que aqui bateram continuam a bater, pois o tempo ainda não foi o suficiente para que se distanciassem o bastante. A felicidade que não dominei, a felicidade que não domino. A vontade de dominar pessoas e fazê-las minhas e só minhas. A vontade de dominar a felicidade e mantê-la para sempre viva. Não fica nem ficará. Vai embora assim como as pessoas vão embora. As pessoas passam como um sopro que a mãe Oceania dá para que ondas sejam formadas. Vão embora antes que possamos nos atentar e pular uma onda que seja na noite de réveillon. Passam e vão. Às vezes voltam como memórias intensas. Às vezes as memórias nem voltam e começam, inclusive, a falhar. Mas a mesma onda vem. Continua vindo. Continuará vindo. Para mim e para todo mundo. Para mim, que sempre quis que ficasse.
A felicidade que vai se espalhando pelos mares de outros continentes. Um dia vai embora de vez. Por enquanto, volta vez ou outra. O sentido da vida que nunca fica. Sempre vai. Sempre vai. Sempre morre e nasce. Sempre vive e nunca vive. Os planejamentos que deixam de fazer sentido. As vidas que se tornam nada estáticas. A nossa própria vida que caminha por caminhos que não desejamos. A nossa própria vontade que se perde e se acha. A vida do ser humano. O ser humano e sua psique. O ser humano e sua vontade de dominar o indominável. O ser humano e o abominável homem das ondas. As ondas.
João Hernesto.
7 de dezembro de 2011
Rubem Alves ou Ser Professor
Hoje eu reparei na minha profissão. Tentar defini-la é inútil haja vista a quantidade de funções que temos nós, professores. Enfrentamos pressão de pais, chefes, alunos, conteúdo, didática, teoria, prática, experiência, outros professores e uma instituição chamada educação. Essa instituição que tanto nos faz pensar e repensar vidas, essa profissão que traz à tona um sentimento de frustração e esperança. Essa instituição que, representada pelo giz e voz, vem perdendo equilíbrio e renome.
O professor ganha a vida com pouco, faz o trabalho de muitos, engole a seco muitas situações para um simples manter de aparências. O professor planeja aulas incessantemente e corrige provas da maneira mais justa que pode. O professor que reclama salário que muitos não entendem. Isso porque muitos no mundo não entendem o que é ser professor e estar à frente de salas cheias com alunos encarando e sedentos de conteúdo ou até de um deslize seu.
O professor de verdade tem um motivo principal pelo qual se levanta cedo para pensar em didáticas apropriadas para determinado assunto: o motivo é a mágica que existe entre a locução e a inter-locução. Essa mágica que acontece de maneira invisível aos olhos enquanto fala e seus alunos escutam. Essa mágica de se deixar cativar em poucos dias, essa mágica de entender até mesmo os alunos ditos ruins. Essa dádiva de ter a atenção de pequeninos e grandinhos por um tempo que é, na verdade, muito maior que a aula em si. Essa prerrogativa de poder ver seus alunos crescerem, se desenvolverem e reproduzirem ao menos um único conceito que lhes foi ensinado. Ser professor é se emocionar por ver os alunos se saírem bem em avaliações em que antes não sairiam. Essa chance de poder entender num tempo muito curto o que a vida tem de melhor e não saber nem definir o que é, de fato.
Aos meus alunos do presente e do passado: eu faço tudo, todos os planejamentos, todas as atividades, todas as explicações, todas as avaliações, pensando em vocês e só vocês. Não importa o peso de minha profissão na vida de vocês, ou o peso de minha função na sociedade. Aos meus alunos, obrigado por serem esse eterno aprendizado em mim. Obrigado por serem pessoas que provocam pequenas ou grandes reviravoltas em mim. Obrigado por me ouvirem e rirem de minhas piadas quando sequer são boas. Obrigado por me entenderem quando deixo de cumprir com alguma tarefa. Obrigado por me proporcionarem a maior alegria que eu poderia ter. Obrigado por me fazerem, por fim, entender para quê estou aqui: para ser professor.
Hoje eu reparei na minha profissão e senti um orgulho danado.
Leandro Augusto.
3 de dezembro de 2011
CURTOS DE CURTO AUTOR
Náusea
Vem crescendo e tomando conta de mim como um vômito que está prestes a sair. Não é engasgo, não é gagueira, é náusea. Sempre foi. Sempre será. Nunca vai deixar de ser esse ódio. Nunca vai despertar em mim coisas boas, só coisas ruins. Sempre levanta minha cabeça para o que eu tenho de pior. Não é saúde. É só doença. Quero-me ver livre de fantasmas que me assombram vez em quando por causa de uma simples crise de identidade. Quero vomitar tudo o que eu puder para nunca mais ter que enfrentar a vergonha dessa ressaca contínua.
CURTO AUTOR
Clima
Mamãe, ontem choveu bastante aqui. Chegou um momento em que eu achei que as coisas fossem ficar mais feias. As pessoas corriam feito loucas para encontrar um lugar em que pudessem se abrigar. As luzes se foram. As crianças choravam de medo. O caos chegava aos poucos e subitamente. Pouco a pouco foi se tornando mais claro o súbito do caos. Eu senti sua falta. Mas hoje o céu amanheceu ensolarado. As pessoas lavavam suas roupas. Os guarda-chuvas estavam guardados nas bolsas e mochilas como se estivéssemos todos à espreita da nova chuva. Mas ela ainda não chegou. Por isso minha saudade de você passou. Essa manhã eu sorri junto com os raios do sol. Ontem eu chorei junto com a chuva. Amanhã eu não sei o que será de mim e do tempo. Vou deixando-o definir meu humor e sentimentos.
CURTO AUTOR
Anjo da Luz
Foi como em um sonho que tive há algum tempo. Devia ser criança e avistei uma mulher bastante alta, postura ereta, maquiagem no rosto. Devia ser alguém que me esperava, pois, de alguma forma, me embalou em seus braços e me levou consigo. Fumava um cigarro que me era totalmente estranho. Embalava-me nos braços e me levava consigo. Desajeitado, deixei-me ir. Nada desconfiado, deixei-me embalar. E partimos ao longe. Partimos. Ao longe. Partimos.
CURTO AUTOR
Flor Dorminhoca
Fui dormir satisfeito o bastante pelo fato de dormir. No primeiro dia, eu não era ninguém. No segundo dia, eu era ninguém com uma semente dentro. No terceiro dia, eu era a semente em si. No quarto dia, eu floresci. No quinto dia, eu desabrochei flores. No sexto dia, eu criei galhos fortes. No sétimo dia, os galhos tomavam a proporção maior que meu corpo. No oitavo dia, quis parar de crescer. No nono dia, cheguei à conclusão que minhas raízes estavam longas e fortes demais para parar. No décimo dia, me entreguei e cresci até o final do céu. Fui dormir satisfeito o bastante pelo fato de dormir.
CURTO AUTOR
Maçaneta
Demonstrou elegância ao caminhar. Andou em direção à porta. Olhou para a maçaneta e encarou o objeto de modo que a dava segurança. Abriu a porta e olhou nos olhos. Caminhou com elegância e com os passos pesados. Não fez barulho de sapatos, mas fez barulho de coração ansioso. Aproximou-se e olhou nos olhos. Os olhos a olharam. Olharam-se o bastante para nunca mais pararem. E a elegância foi-se embora depois da segunda eternidade com que se olhavam.
CURTO AUTOR
Não é engasgo, não é gagueira, é náusea. O caos chegava aos poucos e subitamente. Foi como em um sonho que tive há algum tempo. No oitavo dia, quis parar de crescer. Caminhou com elegância e com os passos pesados. E foi aí que a história terminou sem nem ao menos se desenvolver. Incoerente. Inexistente. Ineficaz. Incapaz. Inalador. Respiração. Curta. Curto.
CURTO AUTOR
16 de novembro de 2011
Feriado Prolongado
10 de novembro de 2011
Ode à Alegria
Caro,
Há algum tempo resolvi, claro que em meio a um desesperador salto de um minuto, que deveria esquecer-te. De forma esquisita, decidi que não mais tremeria ao ouvir falarem de ti, ou não mais em mim nasceria o incontrolável desejo de procurar-te em vão. Decidi ser feliz sem ti e amar-te como um passado prazeroso de que faria questão de esquecer.
Procurei dentro de mim mesma vontade de ser mais bonita, de ser mais sorridente, de deixar minha própria luz brilhar mais alto que a tua. Foi exatamente isso o que fiz. Tendo isso em vista, não posso afirmar com plena certeza de que me encontro num momento mais feliz. Não posso comparar as duas situações – a que me encontrava ao teu lado e a que me encontro a meu próprio lado – de forma coerente e racional. Posso, entretanto, dizer que procuro ser mais feliz agora do que fui contigo. Isso pelo simples fato de querer meu próprio bem, possuindo-te ou não.
E a possibilidade de ter-te de volta, eu simplesmente excluí dos pensamentos. E digo exatamente o motivo pelo qual cheguei a essa conclusão: não te quero mais em minha vida. O tempo desse salto eterno – que deve mesmo ter durado um minuto ou menos – fez-me ver as coisas de um patamar acima. Assim como se os deuses tivessem-me levantado e possibilitado ver as emoções na forma de maquete escolar, pude ver as ações que tinhas para comigo e resolvi que, de fato, não te quero mais.
Descobri que não éramos felizes de qualquer forma. Descobri que construí em ti um porto seguro e que não conseguia desapegar dele. Talvez por desejo por tua pele, por teu sexo, por dormir agarrada a ti, não pude ver a vida pelo que ela me é apresentada: realidade. Não te procuro mais pelo fato de não mais querer me enganar e entrar neste legado imaginário. Eu me permiti, assim, ser mais forte quando te visse pelas ruas escuras da cidade.
Quando te vi, por acaso, tocando teu piano um tanto desajeitado, na mesma hora senti meu coração palpitar de forma nada correta, de forma doentia. Doentia porque tomou conta de minha alma inteira e me fez parar para cumprimentar-te. Se eu soubesse que ebulições pequenas me causariam aquele encontro, não te teria entrado e te teria guardado como o que já não quero mais. Mesmo assim, entrei. Saí decidida a não mais te procurar.
Naquela noite, tu me procuraste. Alguns dias depois, tu me encontraste sozinha na praça e paraste para conversar. Pela noite, tu me procuraste novamente. E é pelas ebulições, é pelas erupções febris que tua presença causa em mim que venho pedir-te: deixa-me só. Deixa-me esquecer de teu rosto aos poucos. Deixa-me ver-te como quem se foi e deixou o legado intacto, ainda que morto. Deixa-me viver minha vida e eu prometo não procurar-te também. Quero, sim, tua amizade, mas agora eu preciso manter distância do que para mim é perigoso, não por medo de perder o auto-controle, mas por medo de não sobreviver. Porque é isso o que tu fazes em mim: faz-me morrer minuto por minuto.
Hoje eu não quero mais morrer. Eu quero viver. Comigo, não contigo. Para mim, não para ti. Hoje eu quero Ode a Alegria de Beethoven, não Eu Perdi o Sentido do Mundo, de Mahler.
Adélia.